O bar estava cheio. Ficava num casarão antigo, daqueles com pé direito alto, e portas que terminavam com um arco no final, lembrando portais de igreja. Elas se abriam em duas partes, numa madeira de tom escuro. O balcão longo, também em madeira, tinha bancos altos onde os homens se encostavam para conversar e beber. Ao fundo, havia uma mesa de sinuca, e outras mesas menores espalhadas longe da visão de quem entrava. Era lá que acontecia o carteado, mas sem apostas em dinheiro, para não atrair a polícia. Mulheres de vida livre circulavam com seus vestidos estampados em vermelho, argolas espalhafatosas e perfume barato.
Era o começo da década de 60, e o ambiente, uma rua abaixo da principal, não era propriamente um cabaré, mas um bar freqüentado por homens de todo tipo e algumas mulheres desinibidas. Nada familiar.
Jamil já tinha se encontrado ali com uma tal Marlene. Seu sangue árabe, quente, não lhe permita ter só uma mulher. Tinha se mudado de Goiânia para o interior de Goiás logo que pode.
Trabalhava muito, e não tinha vícios. Nada de beber, muito menos de fumar. Sua diversão era o baralho, jogado com os patrícios até a madrugada. Quando reunidos só falavam entre si em árabe, sempre alto, e tanto, que quem visse de longe podia jurar que era briga de morte. Mas não era. De vez em quando ele se virava para o dono do botequim no balcão:
- Me dá uma guaraná – pedia com o sotaque carregado.
- Já vai brima – respondia Seu Joaquim em tom debochado.
- “Brima” seu nariz, el andina abu! – respondia emendando um palavrão leve, e sorrindo, como para comprovar que estava brincando.
Muitas noites tinham sido assim, até aquela. Jamil morava num quarto alugado,e tomava suas refeições na pensão da Dona Franca, no fim da rua, de frente à praça do mercado. Era ainda um homem jovem, em torno dos 40 anos. Continuava vendendo sua mercadoria, e juntando dinheiro para montar sua lojinha. De vez em quando, mandava o que podia para a terra, com algum patrício que tinha condições de atravessar o mar, para visitar os que tinham ficado.
Se não tinha vícios, tinha pelo menos uma fraqueza: mulher. A sua, tinha deixado para trás. Não combinavam, na convivência eram feito cão e gato. Casou-se com ela como a maioria se casava: num arranjo familiar. Dela nasceram dois rapazes. O mais velho estava com 14 anos e esperava que o pai fosse buscá-lo para viver com ele “na América”. Ele tinha planos de ir buscar o menino. Árabes amam antes de tudo, a sua família, e ele queria o filho junto de si. Mas naquela noite estava na “jam’aía”, como chamavam a comunidade. Era uma espécie de associação que funcionava numa casa onde se reuniam para festejar, jogar, ou simplesmente conversar. Era lá que ele estava naquela noite quando recebeu a notícia de que Marlene, sua “enrabichada”, estava de confiança com outro no bar do Joaquim.
Ficou cego de raiva. Não tinha compromisso sério com ela. Mas no seu estranho código de honra, se ela estava com ele, não podia estar com mais ninguém. Não houve um amigo capaz de dissuadí-lo. Rumou para o bar com o coração acelerado, e a arma – como todos por ali mantinham - na cintura, atrás, escondida sob a camisa larga (...)
Porque os homens são assim
as mulhers são assim
nós somos assim.
Cometemos tragédias
celebramos a alegria.
E as vezes alguém publica um conto tão lindo quanto este!
Parabéns.
Marcos, agradecida pela passagem e pelo comentário. Vindo de você, me alegra muito.
SEbastião, que bom ter tocado sua sensibilidade, e te despertado um comentário tão elogioso. Obrigada, de coração!
Roberta, gostei também. Fica entre o conto e a crônica.
Abraço,
Felipe a gente se encontra nas preferências... obrigada!
Honrada amiga Tacilda, daqui a pouco tem mais...
Bjo
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