O prefeito decretou a derrubada da velha samaumeira.
Homens com seus machados, máquinas com pás gigantes,
repórteres com suas equipes:
todos esperavam pôr abaixo tão incômodo empecilho do progresso.
A população vizinha da árvore imponente
ensaiou um protesto e emocionada fechou-a em um abraço.
Uma mãe de santo trouxe oferendas e cantorias.
Crianças chorando se agarravam às saias das mães.
Enquanto o prefeito, indiferente, discursava,
os homens afiavam seus reluzentes machados,
máquinas rugiam feito monstros famintos,
jornalistas buscavam o melhor ângulo.
Ainda que os circunvizinhos da bela árvore
permanecessem em seu abraço circundando-a
e a transida mãe-de-santo evocasse seus orixás
nada parecia amolecer o coração do Poder.
Não se levava em conta o valor da sombra benfazeja,
o doce aconchegar dos pássaros em seus galhos,
o mais puro ar que dela exalava,
nem a inegável contribuição à vida no planeta.
Apenas sobressaía das palavras do Poder
o atraso no desenvolvimento arquitetônico da cidade
e os empregos que deixavam de existir com as obras
do mais belo centro comercial já visto naquelas plagas.
Foi quando a noite já quase descia cobrindo tão dantesca cena, que a chuva começou a cair impiedosamente;
prefeito, homens, jornalistas deixaram seus discursos,
machados, máquinas e equipamentos de filmagem.
Contudo, resistentes, feito hera que se apega ao muro
os cidadãos continuaram abraçados à samaumeira.
Raios riscavam os céus na direção dos homens
que a queriam no chão, lenha pra fogueira.
Na noite que se seguiu fortes ventanias
derrubaram árvores, postes de luz elétrica,
alguns prédios públicos e casas da atônita comunidade
e o desespero fez morada na alma do povo.
Na manhã seguinte, o prefeito baixou novo decreto
declarando de utilidade pública e patrimônio cultural
a inexpugnável samaumeira, cujo valor inestimável
a natureza e o amor desses cidadãos o fizeram ver.
Era um gesto tardio e desesperado:
somente a samaumeira foi poupada da fúria da natureza.
Prefeito, funcionários, jornalistas e os bravos cidadãos
passaram a se abrigar debaixo dos venturosos galhos da velha árvore até que toda a cidade fosse reconstruída.
Todos que passam naquela Praça da Samaumeira
dedicam um momento de seu tempo para reverenciá-la;
Sabem, que um dia, a cobiça pelo progresso desmedido
quase destruía a bela e sábia árvore junto com toda a pequena cidade.
Do alto de sua imponente e ensolarada copa
o sol dispara raios de luz, feito bênçãos dos céus caídas.
sobre homens que num repente de insanidade e desamor
sonharam em pôr abaixo tão relevante obra da natureza.
Trata-se de uma peça de ficção. A samaumeira (ceiba pentandra), localizada no Complexo do Araxá, região de bares e restaurantes na orla do Rio Amazonas, foi declarada imune de corte pelo Ministério Público do Amapá, em solenidade ocorrida no dia do aniversário de Macapá, 04 de fevereiro. A omissão do Governo estadual e da Prefeitura Municipal me levou a criar essa peça ficcional. Infelizmente, aqui é preciso que a Justiça interceda em favor da população em assuntos que lhe dizem respeito.
Grande, Pepê!
Também sou seu canino fã. Sua poética de profunda verdade - lavada à cânfora - tem que ser admirada, e estudada!
Bom ser seu amigo! Boa.
Forte abraço!
Verdades poéticas para serem levadas adiante. Parabens. Bjos, Grauninha
graça grauna · Recife, PE 25/3/2009 11:33
Essa ficção é a mais pura realidade do ocorrido, acontecido, existido, fato consumado, ainda que, em muito lugar, no presente e no passado o feito não tenha sido preservado e, no entanto, noutro sentido... tombado.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 25/3/2009 15:55
Bravíssimo!Na beleza dessa ficção, está inseridas as tristes verdades sobre os desmatamentos "promíscuos", em nome do tão caro progresso.
Beijão
votos pra resistência da samaumeira. bjos
graça grauna · Recife, PE 26/3/2009 14:53
gostei mtoooo mesmo !
bjssss;0
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