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Uma canção sobre o fim último das coisas

Blog Repiquete no Meio do Mundo
1
Pepê Mattos · Macapá, AP
27/3/2009 · 88 · 7
 

O prefeito decretou a derrubada da velha samaumeira.
Homens com seus machados, máquinas com pás gigantes,
repórteres com suas equipes:
todos esperavam pôr abaixo tão incômodo empecilho do progresso.

A população vizinha da árvore imponente
ensaiou um protesto e emocionada fechou-a em um abraço.
Uma mãe de santo trouxe oferendas e cantorias.
Crianças chorando se agarravam às saias das mães.

Enquanto o prefeito, indiferente, discursava,
os homens afiavam seus reluzentes machados,
máquinas rugiam feito monstros famintos,
jornalistas buscavam o melhor ângulo.

Ainda que os circunvizinhos da bela árvore
permanecessem em seu abraço circundando-a
e a transida mãe-de-santo evocasse seus orixás
nada parecia amolecer o coração do Poder.

Não se levava em conta o valor da sombra benfazeja,
o doce aconchegar dos pássaros em seus galhos,
o mais puro ar que dela exalava,
nem a inegável contribuição à vida no planeta.

Apenas sobressaía das palavras do Poder
o atraso no desenvolvimento arquitetônico da cidade
e os empregos que deixavam de existir com as obras
do mais belo centro comercial já visto naquelas plagas.
Foi quando a noite já quase descia cobrindo tão dantesca cena, que a chuva começou a cair impiedosamente;
prefeito, homens, jornalistas deixaram seus discursos,
machados, máquinas e equipamentos de filmagem.

Contudo, resistentes, feito hera que se apega ao muro
os cidadãos continuaram abraçados à samaumeira.
Raios riscavam os céus na direção dos homens
que a queriam no chão, lenha pra fogueira.

Na noite que se seguiu fortes ventanias
derrubaram árvores, postes de luz elétrica,
alguns prédios públicos e casas da atônita comunidade
e o desespero fez morada na alma do povo.

Na manhã seguinte, o prefeito baixou novo decreto
declarando de utilidade pública e patrimônio cultural
a inexpugnável samaumeira, cujo valor inestimável
a natureza e o amor desses cidadãos o fizeram ver.

Era um gesto tardio e desesperado:
somente a samaumeira foi poupada da fúria da natureza.

Prefeito, funcionários, jornalistas e os bravos cidadãos
passaram a se abrigar debaixo dos venturosos galhos da velha árvore até que toda a cidade fosse reconstruída.

Todos que passam naquela Praça da Samaumeira
dedicam um momento de seu tempo para reverenciá-la;
Sabem, que um dia, a cobiça pelo progresso desmedido
quase destruía a bela e sábia árvore junto com toda a pequena cidade.

Do alto de sua imponente e ensolarada copa
o sol dispara raios de luz, feito bênçãos dos céus caídas.
sobre homens que num repente de insanidade e desamor
sonharam em pôr abaixo tão relevante obra da natureza.

Sobre a obra

Trata-se de uma peça de ficção. A samaumeira (ceiba pentandra), localizada no Complexo do Araxá, região de bares e restaurantes na orla do Rio Amazonas, foi declarada imune de corte pelo Ministério Público do Amapá, em solenidade ocorrida no dia do aniversário de Macapá, 04 de fevereiro. A omissão do Governo estadual e da Prefeitura Municipal me levou a criar essa peça ficcional. Infelizmente, aqui é preciso que a Justiça interceda em favor da população em assuntos que lhe dizem respeito.

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Autoria
Pepê Mattos
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Benny Franklin
 

Grande, Pepê!

Também sou seu canino fã. Sua poética de profunda verdade - lavada à cânfora - tem que ser admirada, e estudada!

Bom ser seu amigo! Boa.

Forte abraço!

Benny Franklin · Belém, PA 24/3/2009 12:12
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
graça grauna
 

Verdades poéticas para serem levadas adiante. Parabens. Bjos, Grauninha

graça grauna · Recife, PE 25/3/2009 11:33
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

Essa ficção é a mais pura realidade do ocorrido, acontecido, existido, fato consumado, ainda que, em muito lugar, no presente e no passado o feito não tenha sido preservado e, no entanto, noutro sentido... tombado.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 25/3/2009 15:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Branca Pires
 

Bravíssimo!Na beleza dessa ficção, está inseridas as tristes verdades sobre os desmatamentos "promíscuos", em nome do tão caro progresso.
Beijão

Branca Pires · Aracaju, SE 25/3/2009 22:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
graça grauna
 

votos pra resistência da samaumeira. bjos

graça grauna · Recife, PE 26/3/2009 14:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
O NOVO POETA.(W.Marques).
 

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 27/3/2009 18:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cláudia Campello
 

gostei mtoooo mesmo !

bjssss;0

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 30/3/2009 14:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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