Plaf, mais uma estatelada contra o vidro. O limpador de pára-brisa empurra-a para o aglomerado de fadas que se forma nos cantos. Nunca tinha visto tantas assim de uma vez. Lembra-se de quando era criança e fingia ler Dickens - elas adoram Dickens - para atraí-las; vinham voando bem devagar, pousavam sobre o livro, olhavam-na, ressabiadas, e prostravam-se a ler junto com ela, em silêncio. Suas mãozinhas de criança escorregavam lentamente por trás da capa e plam!, prensavam-nas entre as páginas. Guardava-as com cuidado no fundo do seu armário, entre as meias que não cabiam na gaveta. Mas não agora; simplesmente aglomera-as, descartadas, com o limpador de pára-brisa. De quando em vez esguicha um pouco de água com sabão para poder prestar atenção na estrada, escura. São muitas. Definitivamente não é preciso não acreditar em fadas para matá-las, mas é necessário crer para poder guardá-las. Que diferença faz agora? Sabe que já é grande demais para guardá-las, ainda que nova para não acreditar nelas; elas nunca ajudaram em nada. Se disserem que as fadas podem trazer bons presságios, esse é o momento de duvidar: nunca viu tantas delas e ainda assim nunca se sentiu tão triste.
Ela foge. Foge para onde não possam mais encontrá-la, para onde isso tudo acabe: pai, mãe, filha, noivo. Tudo. Plaf, mais outra. Algumas, é engraçado, tentam balbuciar alguma coisa enquanto são arrastadas pela borracha, já ressecada, que arranha o pára-brisa. Plaf, a nuvem de pequenas fadinhas se adensa, os impactos ficam mais constantes. Essa tem o tempo de sacar um pequeno saquinho de pano, na fracassada tentativa de fugir, que traça um rastro de pirlinpinpim até o montinho de fadas; é quando ela, apertando o acelerador, percebe: deve ter pó o suficiente para nós todas. E, de uma vez, roda todo o volante. O carro derrapa na chuva, os pneus urram no asfalto. Outras fadas batem-lhe no vidro.
Quem disser que fadas trazem coisas boas mente: não conseguiu voar.
Surreal e politicamente incorreto (ao menos no ponto de vista de nós, fadas e duendes). Gostei. :D
Daniel Duende · Brasília, DF 10/10/2006 01:27
Valeu, Daniel.
Sabia que vocês, fadas e duendes, gostam, mesmo que lá no fundo, de uma boa dose de incorreção política. =)
Abraço
Gozado, a questão da incorreção política para mim passou batida - acho irrelevante hoje em dia, nestes tempos em que todo mundo gosta de chocar por chocar.
O que não é o seu caso, Pedro. Teu texto é bom pra cacete e pronto. (Aliás, lembra um pouco, em termos de temática, um livro muito bom do Terry Jones, ex-Monty Python, The Book of Crushed Fairies, conhece?)
Obrigado, Fábio.
Terry Jones? Não conheço; apesar de adorar Monty Python.
É teu segundo comentário hoje e a segunda sugestão de leitura. TÔ ADORANDO ISSO! hehehe.
Abraço, Fábio.
Esse texto é muito bom! Me lembra muita coisa, inclusive que eu não acredito mais em fadas...
Abraços!
Gostei, Pedro!
Acredito que, em virtude de nosso atropelado cotidiano,
vivamos, realmente, matando fadas todos os dias!!!
Também duvido de quem não acredita nelas....
É, Rangel, às vezes é até preciso matá-las. Mas, para isso, é imprescindível acreditar nelas.
Abraço.
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