Uma crônica de passagem

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baduh · Rio de Janeiro, RJ
19/8/2007 · 87 · 26
 

Outra vez, quem me morreu foi a vizinha de cima.
Era uma senhora bondosa que cuidava de um casal de filhos, quase quarentões. Boa gente, todos eles.
Sendo vizinhos, há mais de vinte anos, meu conhecimento com essa família era apenas de cumprimentar, no elevador. Nunca frequentamos as casas uns do outros. Coisas de cidade grande. Pena.
De qualquer maneira, eu senti esta morte - que ocorreu exatamente em cima de minha cabeça.
Estava lá a senhora, cumprindo algumas tarefas leves de começo de noite quando, subitamente, na cozinha, desmaiou e foi encontrada pela filha - a primeira a regressar a casa - ainda com um pano de pratos nas mãos.
Fui chamado, pela primeira vez em mais de vinte anos: um toque na campainha. Fiz o que devia: transportar dona D nos braços até o carro e dali ao hospital.
Dois dias depois fui avisado de que ela havia nos deixado. Foi uma morte abençoada, um bilhete premiado - daqueles que a gente pede para receber, mas teme não ser atendido: nenhuma dor; não tornou a despertar e, finalmente, partiu.
Pobres de nós, os vivos. Em menor ou em muito maior escala, todos nós, os envolvidos, sofremos com essa morte. Não costumo aceitar convites para ir a festas e nem aos demais compromissos sociais corriqueiros, como formaturas, por exemplo. Mas jamais me recuso a ir prestar minha última e silenciosa homenagem àqueles com quem travei algum tipo de conhecimento e que partiram adiante de mim. E é sempre doloroso, porque sinto muita comiseração pelos que ficam.
Lá fomos nós, no rumo do S. João Batista, em pequena comitiva: oito apartamentos, oito famílias representadas. Saímos todos juntos - talvez isto fosse uma maneira de nos ampararmos mutuamente, diante da surpresa da morte. Bons vizinhos, os meus.
Lá estava a morta. Serena, rodeada de pessoas - umas que a amavam tanto! - e outras que respeitavam-lhe mudamente, como eu. Nas duas horas que estive ali, antes do sepultamento, percorri corredores e capelas, gastando o tempo e, discretamente, observando desfechos alheios, de pessoas completamente desconhecidas para mim.
Havia um homem que não tinha quem o velasse. Ninguém. Estranhamente, o seu féretro estava coberto por uma bandeira de time de futebol, dos mais populares. E ninguém. Quem terá sido este homem? Teria afastado de si as pessoas em seus últimos anos de vida? Ou foi abandonado por elas? E por que? De qualquer maneira, ali, morto, nada mais o inquietava. Eu sim, vivo, fazia-me essas perguntas e procurava, ainda ali, naquele local de morte, um sentido, algum sentido para a vida. Mas é tão difícil...
É interessante uma pequena cidade mortuária: ruas principais, arborizadas, urbanizadas, coalhadas de estátuas e de jazigos luxuosos. E uma periferia, um arrabalde, sem adornos notáveis e parcamente cuidada. Sempre os vivos, os vivos, que enterram os mortos. Nenhum morto haveria de ter esta espécie de preocupação, se pudesse ainda tê-la. Ou melhor: se tivesse ainda que ter qualquer espécie de preocupação mesquinha... Pobres de nós, sim, os vivos.
Findava o domingo. Entregamos o corpo de dona D de volta ao pó e voltávamos, em silêncio pesado, todos. Não pude deixar de quebrar este silêncio:
- No meu, não faltem.
Senti que, de alguma maneira, as respirações se normalizavam.
Perto do portão de saída, talvez por ser domingo, véspera de segunda, como disse o poeta, havia um caminhão coletor de lixo recolhendo uma grande pilha de caixões apodrecidos, carcomidos pelo tempo e pela terra, alças e frisos desprendendo-se. Me pareceu o fim do fim. Uma cena aviltante. Abria-se espaço ali. Isto sempre deve ter sido feito - mas eu nunca havia pensado a respeito... Talvez tenham escolhido o fim da tarde de domingo porque a vida, de alguma maneira, recomeça na segunda-feira...

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informações

Autoria
O autor, Baduh, aos 51 anos e lendo, compulsivamente, desde os 12 anos de idade, acha que, se calhar, ainda chegará a ser um leitor relativamente bom.
Ficha técnica

Fixa técnica:
Apenas ver a vida, com olhos de ver... Ha!... E um lápis + papel.
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baduh
 

Que epílogo!!! Um grande sacada... Pois é Baduh, a vida é um eterno 'sublimar-se'... A gente 'nasce, cresce, reproduz e morre'... Resumindo: Um redondel de meu Deus...
Um abraço fúnebre (Risos).
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) · 16/8/2007 10:50

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:33
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baduh
 

Obrigado Filipe!
Já nesta pequena crônica misturo a realidade com alguns momentos de reflexão, que, como toda reflexão, é abstrata - e poder-se-ia, então, considerar ficção. E por que digo isto?

Porque a mim não agradam os artigos apedrejantes que escrevi e que foram publicados aqui no Overmundo.
Não poderia calar esta denúncia.

Mas... o que eu amo mesmo é a ficção, além do jornalismo do tipo que você faz - e nunca o jornalismo demolidor, o tempo inteiro! Se eu usei tal arma, foi num momento necessário e chega, por enquanto!

Também há muitas coisas boas e poéticas a serem faladas.

Grande abraço, mano, muito obrigado!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 11:34

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:34
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baduh
 

Baduh, já que você é chegado numa ficção, conheça aqui, a história de Clarice. Um abraço. http://www.overmundo.com.br/banco/clarice-vive
FILIPE MAMEDE · Natal (RN) · 16/8/2007 11:45

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:35
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baduh
 

Gosteimuito da sua crônica, Baduh.
Fiquei meio apreensiva com a morte e seus rituais, que sempre me angustiam muito. E esta cena, ao final,é realmente assustadora para nós, os que ainda ficamos.
Parabéns!

beijos
P.S. Se me permite a sugestão, creio que esta crônica deveria ser postada no Banco de Cultura, onde os textos literários e de ficção têm público certo e, no seu caso, cativo.
Saramar · Goiânia (GO) · 16/8/2007 12:32

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:36
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baduh
 

Muito obrigado, Saramar!
Gostaria muito de poder movê-la, querida amiga!

Ocorre, entretanto, que não se trata de ficção... Além disso, se eu o movesse agora, creio que perderia o teu tão simpático comentário - e o de meu amigo Filipe também...

Deixemos então para os meus rabiscos de pura ficção, pura mentira, ahhahahahahahhaah, o espaço literário!

Um beijo, querida Saramar, muitíssimo obrigado mesmo!
Baduh
baduh · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 12:47

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:37
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baduh
 

Muito bem tratada a sua prosa, não só na forma como no conteúdo. Até no humor negro: "- No meu, não faltem." Como também gosto de humor, se lá estivesse, teria dito: "Faltarei, se for adiante de você."
Gostosa reflexão sobre o fim, a morte. É mais nessas horas que refletimos sobre ela. Também reflito muito embora, sem poder conter, penso que quem muito se liga na morte esquece a vida. Mas, fazer o quê?
Sobre a visão do corpo abandonado com a bandeira de um time sobre o caixão e as reflexões sobre a razão daquilo: é o nosso próprio medo de terminar como ele. Felizes os mortos que não se preocupam mais com o amor, o sobe-desce da bolsa ou a roupa para vestir no dia seguinte.

abcs
jjLeandro · Araguaína (TO) · 16/8/2007 13:09

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:37
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baduh
 

Fala, Baduh!!
Passagem difícil essa!
O certo é que a de ninguém fatará!

Mas falando sério.

Baduh, a fila de edição do Overmundo é prá isso mesmo!
Corrigir alguma distração ou esquecimento. Mesmo corrigir erros.

O que a Saramar te disse é que é a regra: textos literários e de ficção, são postados no Banco de Cultura, onde os mesmos já têm público certo e lugar destinado.

Se quiseres os comentários copia-os e cola na nova caixa de comentários.

Valeu?
Acho que é isso!

Rangel Castilho · Anastácio (MS) · 16/8/2007 14:06

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:38
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baduh
 

Vai o meu agradecimento grande, novamente aos meus queridos amigos! Receber um comentário atencioso de JJ é uma tremenda honra!
O aviso gentil de Rangel, a um neófito no Overmundo é também com muita gratidão que recebo! Moverei os rabiscos para o local correto.

Muito obrigado, meus companheiros de escrita e de pensamento!
Baduh
baduh · Rio de Janeiro (RJ) · 16/8/2007 15:40

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:39
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baduh
 

Aos queridos overmanos e overminas:
Cometi um engano de neófito no Overmundo e tive que fazer uma baldeação de meus rabiscos, do Overblog para cá.
Como já havia comentários - e em respeito aos que os haviam feito - movi-os também para o ambiente correto, aqui, junto com o texto.
Desculpem lá!

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 16:45
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Noelio Mello
 

Baduh.
Excelente teu texto Baduh. Melhor ainda é tua reflexão sobre a vida, a morte. Tuas palavras são flechas certeiras quando te apiedas de nós, os sobreviventes, pois na na verdade todos sabemos que o tumulo dos mortos é o coração dos vivos.
O final é a verdade nua dos nossos dias, dos homens.
Na verdade, amigo, todos morremos sós. A matéria. "Somos pó e ao pó voltaremos. Teu relato é perfeito quando caminhas entre jazigos luxuosos e que confirmam em nossos corações que o cemitério é o lugar onde mais se estampa a hipocrisia humana.
Belissímo escrito.
Parabéns.
Noélio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 18/8/2007 18:16
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baduh
 

Querido Noélio.
Vindo de um escritor maravilhoso, que lavra textos de sabedoria e beleza impressionantes, eu fico desvanecido e sou todo gratidão à tua bondade e à tua imensa gentileza!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 18:33
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Marcato Pereira
 

O morto é o observador não-participante desse ritual social que é o enterro, o qual, segundo o Leary, é o maior dos ritos de passagem: viveste, viveste, venceste. "Pobres de nós, sim, os vivos", porque numa hora como essa, todas as filosofias se transformam em pó, bem antes do morto, é duro. Mas é a marcha da existência. Muito boa crônica, faz refletir. Grande abraço!

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 03:44
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baduh
 

Muitíssimo agradecido Marcato.

Você que estreeou no Overmundo com o maravilhoso "Azulejos de Espuma" é escritor de quem aguardo sempre novos textos, como quem aguarda na praia a chegada do Sol.

Um grande abraço e obrigado.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 05:07
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Andre Pessego
 

Baduh,
Muito bom, estava voce fazendo falta no overmundo,
uma crônica quase uma reportagem, que naõ desmereceria
se com nomes e datas fosse uma reportagem quase uma crõnica.
um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 19/8/2007 06:42
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baduh
 

Querido amigo Pessego.
Muitíssimo agradecido pelo elogio gratificante e que me traz tanta felicidade!
Gosto demais dos teus escritos e acompanho-os com atenção total.

Um abraço aqui do mano,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 07:42
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jjLeandro
 

Votado Baduh nesta saborosa crônica.
Lê-la, forçando a troca dos sentidos mas obtendo o mesmo resultado prazeroso, é como saborear uma manga madura à sombra da própria mangueira no quintal ao lado, do vizinho; mesmo sabendo que ele é cioso de seus frutos.
Toda boa prosa merece um leitor à altura(não eu, neste caso, mas todos que a saibam valorizar). E toda doce manga do vizinho merece um apreciador de paladar apurado(neste caso eu, vem visto!). Fiz muito isso na infância. Ainda bem que isso não leva ninguém ao Inferno. O padre dizia isso, quando lhe confessava esses pecadilhos, mas sempre achei que é porque o quintal não era da paroquia. Em boa hora, a mangueira ficava no quintal do pastor presbiteriano.
Abcs rsrsrsr

jjLeandro · Araguaína, TO 19/8/2007 11:08
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AZnº 666
 

Falou S. João Batista, mas que azar! Não sou rei mas sou chegado numa coroa, e ensaboei uma por sinal tia de um amigo meu, a noite toda, não tinha dinheiro pro motel e ela morava no mesmo lugar que eu Ladeira dos Tabajaras. Fomos subindo dia raiando, o unico lugar que sobrou antes de chegarmos nas nossas casa, foi a rua que fica em cima e dentro do Cemitério S. João Batista!
Entrei num matagal ao lado com varios buracos e um deles bem apropriados para oque iriamos fazer. Quando olho para o chão havia varios crânios e osso de braços, pedaços de caixões. Mas homem é homem, e arriei a calça pra fazer o "serviço". Ai ela não quiz deixar eu ver a perereca para direcionar o "zézinho". Foi a gota d'agua, foi vapt-vupt, não deu nem tempo de mexer o relógio!
Depois disso nunca mais forcei uma "comida"!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 12:47
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Benny Franklin
 

Irmão,
Teu texto é primoroso e real. É tão belo que chega a enfeiar-me. Reflexão para todos. Votadíssimo. Como não?
Abçs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 19/8/2007 12:57
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baduh
 

JJ
Muito obrigado, mais uma vez, por tuas gentis palavras! Espero que você faça uma boa viagem e nos traga histórias... Até a volta!

Mestre-Leiteiro
O amor se faz em qualquer lugar, até dentro de um caixão, se for o caso, desde que não seja com a defunta... ahahahha
Às vezes o cabra tem mesmo que se virar, e assim é que é bom - porque facilidade demais estraga.... ahahahahahahha
Obrigado, mano!

Benny
Obrigado, querido irmão! É uma honra receber o teu voto! Estou sempre de olho nos teus textos, porque estão sempre entre os melhores. Muito obrigado!

Abraço a todos os meus queridos orvermanos, agradecidíssimo!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 14:00
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Lumenezes
 

Baduh.
Absolutamente impecável, perfeito. Gostei demais!
Luciana

Lumenezes · Nova Friburgo, RJ 19/8/2007 15:22
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Levi Orlando
 

Baduh:
Aproveitei prá conhecer suas colaborações e me deparei com essa bela crônica,bela justamente pela simplicidade com que o texto vai fluindo, e o humor sutilíssimo de que está impregnado.
Um abraço.

Levi Orlando · Porto Alegre, RS 19/8/2007 19:36
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baduh
 

Muitíssimo obrigado, Levi!
São palavras como as tuas que me estimulam a fazer alguns rabiscos sobre minhas perplexidades sobre este mistério que se chama vida e que se chama morte...
Um afetuoso abraço aqui do amigo,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 19/8/2007 20:13
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Cintia Thome
 


A vida é comédia...Bom texto...Obrigado...Emocionei-me por isso não escreverei muito...Lembranças...um abç.

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/8/2007 08:26
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baduh
 

Obrigado Cintia.
Nos dizia, certa vez, JJLeandro, de quem sou admirador recente, mas dos grandes e completos, que também tem um certo fascínio por este rito maior de passagem - mas que tem receio de que o pensar a Morte lhe atrapalhe o viver... (segundo entendi!)
Eu, que vos escrevo, aos 51 anos de idade, amo escrever sobre a morte - e pensar a Morte. E sou, o tempo inteiro, um tremendo pândego, um gaiato incurável, um amante siderado da Vida...
Vá lá entender cabeça de poeta vagabundo...
Um beijão, querida amiga!
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 20/8/2007 20:56
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Nivaldo Lemos
 

Baduh,

o niilismo que subjaz em seu texto aqui é mais forte, talvez pela presença forte da morte alheia em pleno domingo. E embora sempre triste, o desfecho aqui me pareceu mais pungente, talvez por macular o domingo com a fúnebre geografia, povoada de silêncio, velas e lírios enjoativos. Mais um belo texto, Baduh.

Parabéns e um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 21/8/2007 18:30
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baduh
 

Muito obrigado, Nivaldo. E desculpe-me a resposta tardia. O Overmundo andou mudando... está mais difícil encontrar nossos próprios posts (a não ser fazendo busca, e isso não vale!).
Bem, meu querido amigo, embora cante a morte - tema fascinante - eu vivo a vida como um verdadeiro pândego. E, incrível, mesmo sendo realmente niilista... ahahahahahahaha Vá lá entender! Criei um micromundo só para mim e me entoquei nele! ahahahahaha
Abração e obrigado pelo comentário.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 22/8/2007 14:55
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