Uma fábrica de tragédias funcionando a pleno vapor

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Marcos Calígula · Fortaleza, CE
25/6/2008 · 82 · 10
 

UMA FÁBRICA DE TRAGÉDIAS FUNCIONANDO A PLENO VAPOR


E mais uma vez, como já era de se esperar, uma súbita eloqüência apossa-se de nós quando o assunto em pauta é uma das inúmeras mazelas nacionais que nos assolam. Somos suficientemente conhecedores e inteligentes para afirmarmos que as máculas existem, da mesma forma como somos suficientemente pusilânimes para tratarmos esse fato como algo distante e volátil, colocando-nos em uma espécie de pedestal, negando a cumplicidade e varrendo os corpos, ou melhor, o lixo (talvez no ponto em que chegamos já não faça tanta diferença) pra debaixo do tapete, ou seria do esquife?
Somos muito profícuos na hora de debater, criticar, apontar (que são sim práticas construtivas), mas, e na hora de pôr em prática, de fazer? É nesse momento que toma conta de nós um sentimento ocioso e tiramos o time de campo, preferindo deixar a árdua tarefa para personalidades mais notórias ou para o poder público, afinal eles ganham para isso, pensamos. Certo pensador já dizia que a palavra separada do engajamento resvala para a simples eloqüência. Irônicas palavras, sendo que ele, evidentemente, deveria ser mais um desses eloqüentes. Porém, já chega de autoflagelar-nos, a partir do próximo parágrafo já estaremos dando início ao nosso nobre exercício de covardia e, um fato preocupante, é que talvez em nosso caso não haja nem mesmo a eloqüência.
É realmente lastimável e aterrador o que se verifica ao observarmos o atual estado social brasileiro. Uma permanente semi guerra civil parece ter se apossado das periferias e alastra-se paulatinamente para as trincheiras dominantes que são os bairros nobres. É verdade que a situação é ainda mais crítica do lado da população mais desfavorecia, vilipendiada, que se vê em meio a um fogo cruzado do qual desconhece o verdadeiro causador das chamas. Mas não devemos nos iludir e achar que a cruel realidade está restrita aos guetos sociais. A elite brasileira está cavando (e sabe disso) sua própria cova, ao permitir que um pequeno furo torne-se uma cratera no casco de seu tão desejado e aparentemente inabalável navio.
Talvez nossos penitenciários não incitem nossa pena e solidariedade quando são flagrados comandando o tráfico de dentro das celas. Mas pensemos de uma forma mais global, será que realmente são eles os culpados únicos e diretos pela violência? Logicamente, não. Talvez sejam na verdade o produto final de uma imensa indústria, que apresenta em sua linha de montagem operários tais como a burguesia, o poder público (sendo este um segmento do primeiro) e nós, enquanto nobre sociedade conformada e conformista. Essa indústria vem funcionando muito bem, a toda vapor, entretanto, quando vê que ao final da linha o produto não lhe agrada, tenta a qualquer custo destruir sua própria cria, mas aí a coisa complica, pois nesse caso o produto já tem vida (muito dura, diga-se de passagem) e pode unir-se a outros tantos produtos que foram fabricados equivocadamente.
Praticamente inexistem no Brasil programas envoltos em uma visão mais abrangente, que pense a situação também em longo prazo. Impera o caráter de imediatismo, que faz, por exemplo, com que presos sejam jogados em cárceres desumanos, tratados como seres desprezíveis, em vez de enveredarem pela reeducação a fim de serem reinseridos de forma digna na sociedade.
Tudo parte da desigualdade. Pesquisas revelam que a população mais carente (sem o devido acesso às informações e, consequentemente, sem uma visão mais ampla) é a que representa a maior porcentagem entre os defensores da pena de morte. Será que estamos vendados? Já não bastam os tristes e inúmeros exemplos que nossa História nos mostra? Será que seremos tolos a ponto de repetir erros trágicos como Canudos, Palmares, Eldorado, Candelária e todos os outros que ocorrem diariamente, continuando a manchar de sangue as páginas já encardidas de nosso almanaque de grandes carnificinas?
Já está mais que provado que a força reacionária e o poder opressor apenas contribuem para aumentar os números do caos. Medidas paliativas, quando bem implementadas, são sempre bem vindas e apoiadas, mas que não deixemos, de forma alguma, que seu aspecto imediato obscureça a implementação de medidas mais profundas e realmente reformuladoras.
Talvez pareça clichê, mas temos que repetir que seria muito mais proveitoso e lucrativo para o Estado se investimentos em educação fossem realizados ainda na infância de cada cidadão, até porque se gasta mais para manter um presidiário do que para manter uma criança na escola.
Alguns estudos recentes afirmam que nos últimos anos os números da violência e a fronteira que separa ricos e pobres vêm diminuindo no Brasil. Certamente não é o que parece, mas, ainda que seja verdade, não temos nada que ficar nos vangloriando e gritando aos quatro ventos que o aparelho estatal vai muito bem, obrigado, até porque o pouco que se conseguiu foi através de muita cobrança e muita luta.
Talvez as linhas desse pequeno esboço sejam demasiado tênues para receber tão volumosa carga, uma vez que esses e outros assuntos ainda renderiam muitas outras páginas. Mas seja essa talvez uma boa hora para deixar de lado o teclado e a folhinha virtual, um pouco pela falta da eloqüência para continuar, um pouco por um sentimento de que já não basta mais simplesmente escrever e sim agir de modo mais efetivo. Como, não sabemos. O fato é que uma pergunta fica pairando no ar: faremos algo ou seguiremos nosso triste percurso rumo ao holocausto? Ou ainda, como diria Caetano Veloso, será que essa nossa estúpida retórica terá que ser ouvida por mais zil anos?

Sobre a obra

Uma síntese da revolta acompanhada de comodismo que se alastra pelas mentes brasileiras. Lembre-se: "A palavra separada do engajamento resvala para a eloquência, e o farisaísmo está, mesmo que inperceptivelemte, no âmago de toda a eloquência moral". Confesso que esqueci o autor da frase. Espero que gostem.

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informações

Autoria
Marcos Robério "Calígula"
Ficha técnica
não ficção
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JACK CORREIA
 

Rapaz, gostei! Você abre um "leque" de questionamentos em seu texto, e ainda, fazendo jus ao título e ao foco, que é a sociedade de um modo geral! Abraço.

JACK CORREIA · Crato, CE 21/6/2008 22:37
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Marcos Pontes
 

Como esperar do sistema penitenciário a reeducação do preso num país onde a educação já é capenga? Quase que diariamente venho escrevendo sobre as mazelas nacionais e lido sobre elas, por isso não tenho comodiscordar dos seus pontos de vista. A questão toda é muito profunda e passa por tantas nuances que o espaço se torna pequeno tanto para você quanto para mim ou qualquer outro destrinchá-lo a fundo. Quem dita as políticas nacionais tem medo e incompetência para mergulhar fundo nos problemas, por isso não saímos da superfície.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 22/6/2008 07:41
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celina vasques
 

Caramba!!! concordo com nosso overmano Marcos!

votando!
beijos e apalusos!

celina vasques · Manaus, AM 23/6/2008 20:21
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Doroni Hilgenberg
 

Que texto!!! Devia ser exposto na revista Veja para todo mundo ler e sentir um pouco de revolta também, porque todo o sistema esta virando circo, onde o palhaços somos nós. E o pior é que somos enganados e continuamos dançando conforme a musica. Que fazer? ótimo texto, meus votos parabéns!!!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 24/6/2008 00:41
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Aepan
 

Belo Trabalho...
Airton
Estrela-RS

Aepan · Estrela, RS 24/6/2008 08:08
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Nic NIlson
 

Aeh, overmano, acontece q suas palavras sao um chicote e uma espada a cutucar a onça com vara curta. Penso q quem escreve usa deste instrumento p apontar e mudar os rumos da prosa. A prática não se pratica somente com objetos. Pode ser tambem com suas palavras. Gostei e voto

Nic NIlson · Campinas, SP 24/6/2008 10:05
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MarcilioMedeiros
 

Marcos,
Deixo meu voto e estímulo.
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 24/6/2008 14:18
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Bruno Resende Ramos
 

Parece-nos inevitável o caos... Estamos no olho do furacão. O que nos tem poupado são atitudes como essa da denúncia presente e fortalecedora do espírito irrequieto e que não se acomoda.
parabéns!

Bruno Resende Ramos · Viçosa, MG 25/6/2008 00:06
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Ailuj
 

Muito interessante
Votado e publicado

Ailuj · Niterói, RJ 25/6/2008 03:07
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joe_brazuca
 

O aparelho estatal vai muito mal, obrigado...
Seu texto é exemplar...libélo descritivo exato de uma situação no mínimo, aberrante e enojante...
e o futuro ?...a continuarmos com os "paliativos emergências" que nos saciam as vaidades tal qual estimulantes "em pó", veremos a lenda de Proteus, onde a criatura destroi impiedosamente o seu criador...
Enquanto isso, a Globo vende anúncios de carros bacanas, com músicas americanas e gente sempre bonitinha e bem alimentada, nos intervalos dos tele-ópios e congêneres...
Parece que o "Panis et Circus" continua sendo a pedra do toque das sociedades "emergentes"...
Lastimável a situação...Execrável as condutas...
Inigualável seu texto/tributo/aviso/alerta e coisa e tal...
Meus SINCEROS parabens !...continue, por favor...
abs
Joe

joe_brazuca · São Paulo, SP 2/9/2008 10:38
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