A noite já ia longe quando fui dormir sob um céu de muitas estrelas. A noite fascina porque podemos deitar sobre luzes de poesias, ficar pensando nos seus mistérios, nos seus segredos, onde nascem sua magia, seus feitiços. A hora era precisa para se viajar pelo mundo dos sonhos.
Aliás, as coisas que os sonhos contam sempre me intrigaram. Quando era criança, minha mãe dizia que em cada estrela morava um anjo. Durante a noite eles desciam à terra para relembrar nosso passado, falar sobre nossos futuros e perfumar nosso quarto com o aroma dos céus. Eu acreditava e dormia feliz. Essa é a grande vantagem de ser criança. De crer sempre no fantástico. De não chorar pelo invisível. De não sofrer pelo amanhã.
O tempo correu rápido e a alvorada invadiu meu quarto varando a janela entreaberta. Sepultando meus sonhos no seu ventre frio, lembrou-me que logo eu estaria andando pelas calçadas ensolaradas, buscando um pedaço do passado, o futuro, uma sombra de esperanças.
Ainda deitado, pensei nas ruas, nas pessoas aceleradas. Olhei as fotografias nas paredes. Senti saudades de dias felizes que o tempo já levou. Ficou uma sensação de vazio. Talvez um reflexo insensato da minha alma. Indiferente, o vento ainda úmido acariciava os lençóis, espalhava pelo chão gotas prateadas da madrugada.
Criava coragem para espantar o desânimo. Viro-me para ver as horas e ao lado da cama vejo imóvel, o milagre, a poesia, o sonho, a vida. Uma flor rubra que o vento audacioso trouxe de longe e a posou no piso branco ao meu lado.
Paro um só instante de me extasiar e sinto a desvantagem de ser adulto, de ser íntimo das dores. É que a fascinação daquele instante não me inspirou de imediato a fantasia. Pensei primeiro no vento trazendo aquela flor. Por que não pensei logo que ela pudesse ter sido trazida pelos anjos que minha mãe dizia morar nas estrelas? Que traziam o aroma dos céus? Que enfeitavam nossos sonhos?
Por que não acreditei logo que aquele belo momento desenhando no chão do meu quarto um colorido - e particular horizonte - copiando a hora do sol poente tinha sido criado por mãos divinas? Por que busco verdades, quando é fácil me curvar diante do fantástico?
Sabia, entretanto, que aquela imagem não teria vida longa. A flor começaria a murchar. Sua existência seria efêmera. Logo seria uma lembrança, um aroma que passou. Fiquei pensando, todavia, que mesmo sem saber, sua coragem era eterna. Mesmo ferida de morte, gerava beleza, felicidade. Gerava vida, perfume. Sua caminhada nunca foi em vão. Ao contrario, foi profunda, fascinante, fecunda, bela e extasiante.
Agora vejo como somos desatentos em não ver esses maravilhosos momentos que a vida escreve em nossas caminhadas. Como deixamos de perceber tantos sinais, tantas graças que alcançamos.
Como somos hábeis em valorizar nossas perdas. Como somos incompetentes em não vibrar com o que temos. Aprendi agora que um sinal de vida e de felicidade pode estar na beleza, na graça, na simplicidade, no inesperado da suavidade de uma flor rubra repousando num piso branco.
Um recado divino que nos ensina como é apaixonante a vida, mesmo que alguns dias nos pareça que é tempo de sorte adversa.
Noelio, tuas crônicas são tempêros indianos na mesa do mundo.
Benny Franklin · Belém, PA 24/6/2007 13:34
Noélio,
Não tenho formação acadêmica, sou apenas uma cantora que escreve, com o coração, emoções e sentimentos do cotidiano, mas adorei sua "Flor Rubra".
Será votada com certeza
Bjs
Belas palavras,e que em cada estrela morem muitos anjos...
linney · Canoas, RS 24/6/2007 18:49
Meu já caro amigo, Benny.
Obrigado por suas palavras gentis. Seu comentário tem cheiro de poesia
Abraços
Noélio Mello.
Ligia.
Origado pelos seus comentários. Gosto muito do seu trabalho.
Beijos.
Noélio Mello
Linney.
Agradeço por toda a atenção que vc tem dado as coisas que escrevo. O mais importante é que vejo que vc. fica atento a cada detalhe do que falo. isso é proprio de quem tem talento. Siga em frente.
Abraços
Noélio mello
Noélio.
Texto maravilhoso. Palavras de esperanças que podem lvar muitos corações a despertrem para as alegrias da vida.
Forte Abraço
Edu
Nao ia comentar por falta de tempo, absoluta falta de tempo, .. vi a flor não se "deixa pra lá" duas grandezas, um abraço andre
Andre Pessego · São Paulo, SP 26/6/2007 17:25
André.
Obrigado pelas palavras amigas, pelos elogios fortes. Tenho acompanhado tuas obras. teu talento se revela na simplicidade de um comentário
Tenho um filha que mora em São Paulo, berço da nossa cultura. terra de carne agitada, mas de alma boa.
Abraços
Noélio Mello
Noélio,
Belíssimo,
Belíssimo,
Belíssimo!!!
Que trabalho tão lindo Noélio, encantada!
Vou tirar um cópia desse texto para ler e reler, no intuito de absorver essa grandeza de alma que tu tens impregnada nas palavras que tu escreves! Talvez lendo-as consigo aprimorar meu coração!
Marluce
Lendo-o, pensei nas formas que um texto me toca: a beleza formal, os sentidos que desperta e a alma que ele acorda.
É o caso desta "flor rubra num piso branco".
Que linda imagem!
Sabe, pensei também na criança dentro de nós. O final do seu lindo texto mostra que ela pode morrer, se continuamos a "não vibrar com o que temos", a valorizar a simplicidade.
Obrigada por essa lição de amor pela vida.
beijos
Minha doce Marlu.
Obrigado pelos teus comentários. Se imprimires esse texto no teu coração, já é, para mim, uma grande glória, uma estupenda vitória.
Beijos.
Noélio Mello
Saramar, querida poetisa.
Fico feliz se realmente possa ter acordado tantas almas adormecidas. Menos a tua, que não conseguer dormir com o doce peso de tanto amor que colocas em cada verso das tuas feitiçeiras poesias.
Obrigado
Beijos
Noélio Mello
estou aqui,
lido "gostado" votado
parabéns
me avise sempre tá
beijocas
..."Como somos hábeis em valorizar as nossas perdas e incompetentes em não vibrar com o que temos..." Que liçâo de vida, querido! E como dizia Cazuza, ..." Por que a gente é assim?..."
Bjk
Cris
Os sabores infantis, a flor que aparece, as ilusões adultas, a flor que começa a murchar... e de repente, o despertar para os recados divinos que nem sempre percebemos. Mas você surge e com sua flor rubra no piso branco nos lembra do grande presente da vida. Maravilhosamente lindo! Abraços de Betha.
BETHA · Carnaíba, PE 27/6/2007 19:39
Noélio, de qual fonte você bebeu pra escrever este texto?
Bonito sem ser definitivo, simpático sem ser pretensioso; perfeito.
Um abraço.
Noélio,
essa sua crônica poética é simplesmente sedutora. Me lembra Clarice Lispector; o mesmo êxtase, o mesmo impacto, a mesma perplexidade perante os mistérios da vida.
Não é lindo, é ao mesmo tempo soberbamente e humildemente divino.
Um grande abraço, querido amigo!!!
Bravo!
Não só por vermelho e branco, nem tampouco por linda flor, mas porque ela está aí para sempre, se notastes amigo Noélio.
Apanhando lá onde apanhastes aquele momento descrito de modo singelo e terno, pondo aqui para o eterno, consumastes o milagre que o escriba almeja... que assim para o todo sempre seja!
Como o escultor ante a beleza esculpida: parla!
E foi o que senti: essa flor cravou as raízes da planta que é e será aqui, no fundo da alma nossa, como bem vistes a cada comentário sobre a obra tua.
Bravíssimo!
Noélio,
é a cultura do sofrimento que nos faz, assim como vc diz nos seus versos, valorizar o sofrimento, e deixar de vibrar pelas coisas boas que temos...
É tão bom viver a vida, cada dia, cada momento de cada vez.
Se a gente soubesse fazer isso, ah, viveríamos mais.
Belas palavras, linda foto.
Um abraço!
Poesia pura! Sem palavras, só sentimento ante a poesia do texto.
Lindíssimo.
Abraços
Rapaz, que beleza de texto abarrotato de de imágens poéticas. Gostei imensamente. Meus sinceros aplausos amigo poeta Noelio. E a ilustração muito bem colocada. Abraços.
Carlos Magno.
Brigitte.
Obrigado pelos seus elogios tão carinhosos. Dê um grande abraço nessa cidade linda que vc mora.
Em Belém conte com esse já seu amigo.
Noélio A. de Mello
Carlos.
Fico muito agradecido pelas suas bondosas palavras sobre a minha flor rubra. Gosto também do seu trabalho. Da maneira serena e sensata de como vc. comenta as postadas no avermundo.
Obrigado
Noélio Mello
mano noélio,
de uma simplicidade cativante, prosaico sem ser banal, o teu texto, cheio de uma sinceridade que nos causa empatia imediata. a flor é o estandarte da beleza efêmera na natureza, talvez só encontrando paralelo na fragilidade temporal do vôo das borboletas. consegues unir memória, poesia, fenômeno e filosofia com a tranquilidade de quem papeia sem pressa deitado na rede da varanda. muito bacana.
abraços,
r
Obrigada Noélio, o abraço já foi repassado e conte comigo em Goiânia.
Abraços!
Um abraço, Noélio.
Só agora estou lendo os recados...
Noeli
Acho que ainda eu nÃO FREQUENTAVA ESE oVER...
sUAS CRONICAS, PALAVRAS SÃO DE UMA EXPRESÃO SEM PAR
Senti saudades de dias felizes que o tempo já levou. Ficou uma sensação de vazio. Talvez um reflexo insensato da minha alma. Indiferente, o vento ainda úmido acariciava os lençóis, espalhava pelo chão gotas prateadas da madrugada.
Gostei disso.
HAPPY.
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