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UMA HISTÓRIA COM PALAVRA

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geraldo maia · Salvador, BA
29/1/2010 · 1 · 0
 

UMA HISTÓRIA COM PALAVRA

Era a vez de uma palavra com trava na língua encontrada perto de um banco que a pressa repassa na praça onde passo no encalço de um falso palhaço sem graça grassa em meio a certa rua tão torta de azul que toda tarde a meninada vizinha vinha se lambuzar de doce de amarelo de camisa sem manga que fosse de pedra ou Vênus que amar-te é criança em função de um verso pé roubado no descuido do olhar e lá estava ela linda e de agenda cheia em pleno meio de amar sem medo de melar a boca e o nariz de cera e seda e sede de suar em bicas de cais até que o pé de vento tropeça e derruba no mar o armário de um abismo abissal cheio de lirismo e paixão e musa, oh deusa lúdica e lúbrica é tua sede de água de desejo, teu beijo é tão doce de cruel e distante e medo, teu olhar é raio perdido no labirinto do meu coração de poeta e bobo, um velho lobo de armar a rosa arredia, jogo de duvidar das armadilhas em torno do teu perigo, do teu umbigo vertigem, da tua ternura virgem, aí quando batia a fome lá pela hora do almoço a palavra saía a saciar o fosso que fosse de tua ausência e se alimentava de paciência e madrugada, mesmo que minha fome varasse as tardes de sobremesa e suco de assunto de espera que tirava de uma merendeira tão velhinha que nem lembrava mais qual pedaço de sonho era melhor para se curtir numa rede fazendo fuxico e vestido de encanto e mel de pétala torcida numa noite engole a gota nua de olho na gude do gato que passa no compasso de dedos que soletram palavras de acarinhar, de calar a saudade, de calor de carícias, de colar de beijos colados num abraço de cem braços num só cio de silêncio, porque era o apelo do poente, era a hora de olhar o além mar, almenara em desalento depositada com exatidão de salamandra no cofre líquido do oceano, a palavra então despia seu significado bancário e deixava a praça ao cansaço de tua ausência, e passava no mercado para pegar um cacho de angústia, um pacote de chuva, dois litros de solidão, meia dúzia de olhos com fastio de horizonte, e a palavra pagava sem pena e pegava seu pacote de invenção e saía outra vez na direção da pequena água emprestada que não era dada às artes do esconso, e com seu caminhar manso email máquina alcançava o rangido da lágrima na porta com chave de nacionalidade impontual, largava as compras na pequena mesa de entrada e afundava na cadeira que o raio esculpiu num surto de insônia ali perto do único quarto inteiro que às quintas ficava o cheiro do teu mistério em minhas mãos de louvor e lua, até que Deus sorria para mim através do seu Divino Espírito cultiva os campos além do Jordão e dos jornais que atravessam a tarde oculto e cinema próximo da vinda de Jesus a salvação é certa se a fé não é a torta que o maligno lambe um prato cheio de trânsito em julgado de maldade por todos os lados do paraíso a estação do pecado agora é metrô direto às profundas da pressa que a metrópole zune de sono pingado cedo nas conversas das esquinas mal despertas, e a palavra enfim abre um sorriso ao lembrar que é quase final de trevas e se atreve a descansar de sua faina de fiar o verbo do princípio, de afiar a voz do infinito, mas logo pensa em fazer um pouco de chá para beber com pão atordoado logo depois de um banho de fôlego morno subtraído subitamente de um dicionário elétrico que Aurélio, o que arca com as tamancas da língua, desenrosca uma fieira de de vícios desdizer culturas submetidas e cultuadas com tanto esmero nas outras casas que abrigam letras em falha de significante impulso nas entrelinhas ao rés da página à moda chula e chique, e aí adormecia em meio às conversas que a chuva despejava numa linguagem de madrugada adocicada, mas toda encharcada de loucura em pelo.


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