Uma história para lembrar a HISTÓRIA

Kais Ismail
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Kais Ismail · Porto Alegre, RS
21/11/2007 · 104 · 8
 

TEXTO EXTRAIDO DO PROJETO DE LIVRO “MEMÓRIAS DE UM TURQUINHO”

Havíamos tomado cada um, duas garrafas daquele líquido preto cheio de gás e nos divertíamos competindo no arroto mais forte. Foi o arroto do Vicentinho que mais impressionou os cidadãos que ali estavam sentados em bancos rústicos de madeira, encostado na parede feita com araucária nativa. Silenciosos nos seus trajes pobres de gaúchos campeiros, eles exalavam um cheiro de quem andou sentado muito tempo em pêlo de cavalo e de quem há muito não via um banho. Suas caras eram sofridas e ingênuas. Olhavam-nos com curiosidade. Vicentinho sempre fazia questão de mostrar que era macho, e, por exibicionismo pediu uma dose de cachaça pura. Apesar de sua tenra idade com seus 13 anos, ele foi prontamente atendido e, num só gole, tomou a aguardente, o que levou a extrair sussurros de exclamação dos que ali se encontravam, pois todos sabiam: a cachaça era forte: o dono avisou rindo ao servir naquele copo apropriado para aquela bebida. Mesmo batendo com força o pequeno copo de fundo grosso no balcão de tábua, ele percebeu através do murmúrio a admiração que causou e imediatamente, sem se virar de costas, pediu mais uma e, num só gole, repetiu o gesto. Desta vez, ele se virou e sorriu vitorioso. Um dos matutos que ali estava, provocou:
- Te pago mais uma se tu agüentar!
Vicentinho, sem ainda ter sentido o efeito por completo, imediatamente manda encher o copo. Ao terminar de beber de novo, num só gole, tenta bater o copo no balcão, mas erra a pontaria e o copo vai direto pro chão como se fosse uma pesada âncora. Vicentinho parecia que havia sido bruscamente puxado para baixo.
Ali estava ele, Vicentinho “olho de vidro”, esparramado no chão com o seu pente vermelho caindo para fora do bolso, o copo ainda preso firmemente entre seus dedos. A cachaça havia derrubado mais um rei.
Pela dificuldade de entender certas coisas na época, desde pequeno vários porquês haviam se tornados meus amigos e companheiros, preenchendo meu mundo com suas críticas e respostas. Por que os negros não podiam entrar em certos bailes? Por que os marcianos eram ruins? Por que Deus via tudo e eu não o via? Por que minha mãe chorava? Por que os cachorros ficavam colados pela bunda? Por que os comunistas comiam as criancinhas? Por que eu nasci assim? Por que tenho que aprender isso? Por que todos os heróis são americanos? Por que do por quê? E daí surgia minhas teorias!
O Vicentinho no chão.
Um rei no chão.
Um homem no chão.
A integridade no chão.

Para aquela sociedade em que fui criado, era fato. Negro era o mesmo que ser cachaceiro.
Assim como o Rio de Janeiro barrava Tim Maia em porta de boate por ser negro, Bom Jesus não ficava atrás. Negro nos bailes tradicionalistas, nem pensar! A Noiva do Sol também não permitia e muito usava o ditado: “Negro quando não cága na entrada, cága na saída”.
Mas algo não batia! Alguém estava mentindo ou inventando! Eu sabia mais de geografia e história geral do que muitos professores que me educaram no Colégio das Irmãs, no Grupo Escolar Conde de Afonso Celso e no Ginásio Estadual Frei Getúlio, isso porque meu pai vivia ouvindo noticiário internacional pelos rádios e televisores. Em casa ouviam-se no mínimo 6 horas diárias de notícias.
Eu sabia que esses negros descendiam dos escravos trazidos da África, eram guerreiros, chefes de família, que viviam em harmonia e respeitabilidade, eram em sua maioria de tribos que seguiam os preceitos islâmicos, eram muçulmanos que só queriam a sua liberdade.
E muitos não acreditam, mas para um muçulmano é assim: entre ficarem dois dias sem comer levando chibatadas até desmaiar... http://www.mubar.org/jerrahi/Artigos___Palestras/Historia_da_presenca_Islamica_/historia_da_presenca_islamica_.html

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Kais Ismail
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Nydia Bonetti
 

"O Vicentinho no chão.
Um rei no chão.
Um homem no chão.
A integridade no chão."
Muito forte teu texto Kais. Suas indagações de criança, são as indagaçãoes de todos nós. Algumas respostas encontramos quando crescemos. Outras não querem calar: por que o preconceito, por que as injustiças, por que a maldade, por que incomoda tanto as diferenças?
Muito bom teu texto. Faz refletir...
Bjs.

Nydia Bonetti · Piracaia, SP 19/11/2007 08:57
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ILZE SOARES
 

Parabéns Kais, gostei!!
Essa nova vida... esses ensinamentos... esses questionamentos são fortes, depois que crescemos e entendemos o que é realmente a VIDA, o que ser GENTE, o que é ter DIREITO A VIDA... LIBERDADE...
Muito bom, eu desde criança faço essas indagações, não aceitava que a minha família fosse preconceituosa... meus avôs eram senhores de engenho, imagina... Acho que eu ERA a OVELHINHA REBELDE, sempre digo, se tivesse vivido nessa época, tinha morrido queimada na praça, mas, IA BRIGAR COM MUITA GENTE, IA GRITAR PARA TODO MUNDO OUVIR, "QUE SOMOS TODOS IGUAIS"!!!
Valeu pelo texto.

Bjos

ILZE SOARES · Salvador, BA 19/11/2007 10:37
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anamineira
 

Kais, gostei muito do seu texto.
Bom para .. 00

anamineira · Alvinópolis, MG 19/11/2007 12:46
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ILZE SOARES
 

Kais, onde escrevi: essa nova vida, leia-se: essas nossa vida;
... o que é ser gente, o que é ter direito à vida... (correções em negrito).

Valeu!
Bjos

ILZE SOARES · Salvador, BA 19/11/2007 12:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
anamineira
 

Deu errado aqui, continuando...
Como sua arte visual, seu texto deixou-nos uma grande lição.
Volto.
Abraços.

anamineira · Alvinópolis, MG 19/11/2007 12:59
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Felipe Henrique
 

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Gostei muito do seu texto, parabéns Kais.
votado!
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Felipe Henrique · Mesquita, RJ 20/11/2007 23:33
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azuirfilho
 

Kais Ismail · Porto Alegre Amigo.
Semana da Consciéncia Negra.
Um texto lindo que tem tudo a ver.
Uma Grande Homenagem a datade 20 de Novembro.
Dia da ImortalidadedeZumbi.
Grande Contribuicáo ao movimento e a História.
Merece todo reconhecimento.
Parabéns e abração

azuirfilho · Campinas, SP 20/11/2007 23:45
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Paulo Esdras
 

Acabei de mandar pro banco! abs!

Paulo Esdras · Brumado, BA 21/11/2007 14:02
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