Eram seis e trinta da manhã de um dia qualquer da semana. Não faz diferença. Seus dias eram todos iguais na rotina. Jamil tinha o hábito de madrugar. Levantava cedo e ligava o rádio para ouvir as notícias de além mar. Estava casado há pouco mais de um ano, estava apaixonado pela mulher, e... maior das alegrias: era pai de uma menina. A pequena brasileirinha que Dona Tita lhe dera de presente. Se emocionava só de olhar o bebê que carregava com todo jeito no colo. Ela já tinha mamado e estava toda empacotada para enfrentar a aragem fria da cidade amanhecendo. A década de 60 estava terminando, o Brasil estava acomodado ao golpe militar que a TV chamava de “revolução”, e os negócios prosperavam pra ele. Com a menina no colo, subiu a rua assoviando.
Um quarteirão depois, dobrava à direita e seguia até a pequena padaria. Paulo, o padeiro levantava cedo, e àquela hora já estava com os pãezinhos prontos, quentinhos, para o freguês. Ele já tinha levado os seus, mais cedo, antes de ir buscar sua princesinha. Agora queria outro favor do amigo, e vizinho de loja.
- Baulo, faz favor! Segura ela bra mim abri o lodja.
- Na hora seu Jamil. Não entendo como a Dona Tita deixa o senhor trazer essa menina tão cedo.
- Ualéch... ela num dá trabalho nin’hum. Dorme a dia todo. Depôs o mãe dela vem buscá bra leva na casa do vó – completou com seu português carregado de sotaque.
A lojinha era própria. A casa era própria. Apesar da simplicidade dos dois imóveis, Jamil marchava firme para fazer sua pequena fortuna. Trabalhava muito. Levantava cedo, e dormia tarde. Só não fazia feira, por que não gostava. Domingo era o dia reservado à família. Almoçava sempre em casa, e depois saia pra jogar baralho. Isso quando não ia caçar. Naqueles tempos de caça permitida podia matar até duas emas com sua “filobé”. Depois, sabia bem tratar as penas para fazer espanador. Na loja, tirando o pó, eles eram muito úteis.
Era uma vida boa aquela. Olhava para a criança cheio de esperança e sonhos. Do primeiro casamento, tinha dois rapazes. A filha mulher era novidade pra ele, e encheu seu coração de alegria. Sonhava em criá-la comendo as coisas da sua terra, e ia ensiná-la a falar árabe. Depois que já fosse moça, queria levá-la pra “Balastina”, como chamava sua Palestina ocupada pelo estado de Israel. Lá ia escolher um bom marido pra sua pequena. Mas isso era coisa que estava longe. Por enquanto, sua alegria era exibi-la para os fregueses. Estrangeiro num país que já amava, a filha era seu trunfo, fruto de um casamento de que tinha orgulho, com uma mulher de quem tinha orgulho. Tudo estava caminhando perfeitamente para ele.
O carteiro passou cedo aquele dia, deixando um envelope branco com as bordas em listras inclinadas em azul e vermelho. Era pra ele e vinha de lá. Notícias que sempre o faziam chorar. Dividido entre a terra que ficara e a nova pátria Brasil Jamil vivia sonhando com os campos e as oliveiras, a velha casa construída em pedra que o vira nascer, os montes e a estrada que levava à Ramalllah, e de lá, à Jerusalém. De tudo tinha saudade: do cheiro do pão sírio que comia com azeite obtido artesanalmente, das azeitonas produzidas no quintal. Abriu a carta, e começou a ler. Naim, o filho mais novo, casado há pouco tempo contava que a mulher estava grávida. Jamil sorriu sozinho. Ia ser avô, logo depois de ser pai. Era a vida seguindo seu curso do outro lado do oceano, sem a sua presença.
Mas lá, havia muito tempo, já não dava para viver. Não uma vida normal, em que pudesse trabalhar e prosperar. Por isso tinha atravessado o mundo: para fugir da guerra e da pobreza(...)
Estou gostando muito de acompanhar esta história. Linda história e bonita escrita. Parabéns!
Cida Almeida · Goiânia, GO 17/4/2007 16:27
Obrigada Cida, pelo olhar e pelo comentário. Gosto que você goste!
Abração!
Olá Roberta, excelente o teu texto, vou procurar agora os demais capítulos que perdi e os que estão por vir.
Até mais!
Valeu Leandro, sua opinião é super válida e sempre bem vinda!
Roberta Tum · Palmas, TO 19/4/2007 10:01
Incrível como um olhar muda tudo. E, que bom que suas lembranças são assim, tão felizes.
Beijos, irmã.
Renatinha, não se trata de lembranças, coração, mas de literatura mesmo. Personagens reais, em suas histórias e estórias rendem sempre bons romances. Espera que tem mais. E vc vai ver que olhar generoso! Rs. Beijo.
Zé, meu querido companheiro de outras épocas. Que honra vc passar por aqui e ler, e gostar do que escrevo.
Grande Abraço!
Gostei bastante. E meus amigos 'devoradores de kibes' daqui do meu serviço também. Muito bacana. Continue.
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 19/4/2007 16:03
Felipe... também adoro um kibe...rs . Acho que vou escrever um capítulo só contando as festas e as comidas. Vai dar água na boca! Grata!
Abraços!
E a menina aprendeu a falar árabe?
Tô cada vez mais entusiasmada com "seu" Jamil e seu texto.
Roberta,
Você saberia informar se o número 55 da Rua 4 está para alugar? Quero ficar por perto para acompanhar o desenrolar dessa esfiha, posso?
Marcelo, faz tempo que morro de curiosidade de ir de verdade nesse endereço, mas sinceramente, pelo meu tempo de campininha acho que não existe mais, já se vão 50 anos de história e muitas mudanças. Agora, respondendo vc corretamente... venha, sente-se e fique à vontade, que o lugar é seu para acompanhar de perto o desenrolar da história...Abraço!
Tacilda, ela bem que tentou, mas essa história ainda tem que crescer muito pra chegar a este ponto...rs. Mas prometo que chego! Beijo e obrigada!@
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