Diário de Bagdad
UMA MISSIVA PARA A AMADA NA TERRINHA
Caríssima Maria,
Como foi difícil fazer esta missiva sair de minhas mãos e chegar a ti, ó querida!
Ia embalada em um belo pacote com papel impermeável e as forças de segurança a toda hora me paravam para averiguações em busca de bombas e assassinos que se destroem e a outrem nesses quadrantes. Não sei em que estado chegou aí, mas daqui saiu já em petição de miséria. Interessante que esses petardos, que tentavam adivinhar em mim, passam moucos às forças de segurança abraçados aos desnaturados que os conduzem. É aquele velho dito que nos causou tonturas no Brasil de tanto ouvi-lo: procuravam os gajos chifres em cabeça de égua – apropriado nesse caso que se use o cavalo, posto que sou eu o indivíduo em questão.
Mas bem, querida, estou a te escrever para relatar as agruras a que estou submetido aqui em Bagdad desde que em má hora pus os pés nesta terra conturbada a procura de agilizar um negócio que nos pusesse o pão à mesa. Por isso peço que se demore em aviar a tua vinda, que a tardança não é sinal de desapreço, mas de penúria pecuniária para te trazer a meus braços que sentem a tua falta, e na tua ausência vivem escondendo a cabeça no pavor das explosões. Saí da terrinha, o nosso bendito Portugal, com a ideia fixa e a cabeça cheia de esperanças de cá me estabelecer num ramo que floresce nesta terra que de santa nem o nome tem: as actividades funerárias. Era mesmo uma grande aposta, que se não fosse um negócio da China apropriado seria nomeá-lo do Iraque, pois que as agências de notícia expunham diuturnamente o caos desses atentados e os corpos mutilados de fazer dó dessas pobres criaturas. Nem nós portugueses, nas priscas eras do Império, fomos tão abusados e tão sanguinários como os que por aqui se destroem e destroem tudo ao derredor.
Mas estou esmorecido, como te antecipei, essa é a palavra justa, ó querida Maria. Santa, ainda bem que não vieste comigo. Estarias a te debulhares em lágrimas com o sofrimento dessa gente e a penúria em que me meti. Com tanta morte, quase cem ao dia, justo se faz inferir que demanda tem, e os concessionários - por muitos que fossem seriam insuficientes para atendê-la – nem tantos são e ainda têm muitos deles a desventura de aqui e acolá se irem pelo espaço em algum evento explosivo, passando com propriedade de concessionário a cliente.
Ainda não me fui buscar um outro porto, um outro lugar para me estabelecer porque dinheiro não tenho. Vejas, vivo de déu em déu em busca de clientes, arriscando a pele aos lobos, quase queimando-me nas chamas dos atentados, interrompendo o choro das famílias em desespero com a desventura dos explodidos a procura de vender um esquifezinho que seja. O mostruário carrego à mala, com modelos que são um primor, mas não há, no infortúnio que se enredam, um só que queria pôr os olhos sobre ele.
É um povo que tem lá suas tradições, que aprendi a respeitar, e no aperreio da má fortuna, preferem enrolar seus mortos, ou o que sobrou deles, em sudários de linho ou depositá-los em toscos caixões de cedro. Transportam-nos muitos deles amarrados sobre os veículos e os enterram em grande transe de fé.
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J.J. Leandro,
Explica pro luzitano que:
Para negociar bem com a morte.
Tem que ser prisidente
dos Estados Unidos da América do Norte.
srsrs
vc tem toda a razão Firmiano. É isso msmo. Vão mandar mais 23 mil soldados numa tentativa de melhorar as "actividades" do Manuel em "Bagdad".
abcs
`´E cara!
Depois dizem que a gente é que é pessimista.
Que somos bêbados, falamos babagens, somos inconsequentes.
Estou quase acreditando que somos santos.
cá com meus botões...
jjleandro, muito criativo - realmente foi escrita por um português, eu li. Tem pitadas de humor negro, mas a realidade tem esse tom.
Como sempre,fantástico!
abraços
Obrigado meu grande amigo Arlindo (ainda lhe devo uma apreciação, que farei sem dúvida, como diz o português em questão "a tardança não é sinal de desapreço"...)
O estilo realmente, leio muito literatura portuguesa, "plagiei" dos amigos patrícios, mas tive que recorrer a um diconário on line, de Portugal, os brasileiros não serviam, para ver como efetuavam a grafia de algumas palavras que suspeitava serem diferentes daqui. E no texto encontrei apenas três com diferenças: Bagdá, aqui, Bagdad, lá(essa foi nos jornais portugueses on line que verifiquei); atividades, aqui, atividades, lá; idéia, aqui, ideia, lá.
São os cuidados que temos que ter para ser o mínimo crível.
abcs
queria dizer em vez de atividades, lá, ACTIVIDADES, lá
jjLeandro · Araguaína, TO 8/2/2007 10:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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