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Uma Quase Crônica Sobre Bebel

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Wuldson Marcelo · Cuiabá, MT
7/5/2009 · 6 · 2
 

A moça morena de resplandecentes olhos castanhos lembrava para alguns, por causa de sua vitalidade e exuberância carnal, a atriz italiana Claudia Cardinale. Essa garota de nome Bebel era prostituta nas ruas de... Dizia ser do Nordeste, mas não dava certeza. Lembrava-se de uma fuga. Ou foi uma expulsão, despejo? Será que foi isso? Chegou a... meio sem querer. Pretendia ir para a capital do Estado vizinho. Terminou por, aos doze anos, ser estuprada por um caminhoneiro que lhe ofereceu carona no interior de São Paulo e ser largada em... Interior de São Paulo? O que foi fazer por lá? Bebel era assim. Um dia estava em uma cidade, no outro já percorria o lado oposto. Até que parou em...
Bebel começou a se alcoolizar aos treze anos. Foi quando começou a se prostituir. Na verdade, ela havia se cansado de roubar. O furto era um ato de extremo risco. Recordava-se de ter levado uma surra de um policial quando mal havia completado seus quatorze anos, logo após roubar uma quitanda. Para sua total falta de sorte um homem de farda passava pelo cenário do crime. Apanhou num beco próximo ao estabelecimento. O proprietário da quitanda estava presente, rindo e pagou o PM pelo serviço, comentando que dessa maneira a menina aprenderia a lição, e indo além, tornando a situação mais execrável proferiu:
- Olha, Tenente, essa garota aí, tem uma bunda gostosa, hein. Se a vendesse fazia dinheiro. Eu pagava muito só pra enrabar.
Ambos saíram rindo. Bebel ficou ali, estática, perdida entre lágrimas e sangue. Porém, as palavras daquele que promoveu a sua vergonha, ressoavam na sua cabeça. Bebel, afinal, era uma menina de atributos físicos elogiáveis. Seu cabelo castanho-escuro, seu nariz levemente arrebitado, seus lábios voluptuosos, seu ventre liso e suas pernas torneadas formavam um belo conjunto. Bebel tinha a pele trigueira. Era bronzeada naturalmente. Um dia, na rua, decidiu aceitar o convite de um sujeito que ocupava o volante de um Civic. R$ 100 ganho num motel ralé. Bebel sabia que aqueles senhores com belos automóveis dariam o que ela desejava: uma residência própria. Nada mais de dormir ao relento, ou correr para abrigos, ou suplicar estadia em casa de conhecidos. Não precisaria mais transar por comida e teto fingindo que essa troca não era prostituição. Bebel começou a faturar o seu sustento. Gastava em bebidas, hotéis baratos e jogos de fliperama. Aos dezesseis anos a sua exuberância não passava mais despercebida. Nesse tempo conheceu um escritor decadente. Ele um alcoólatra inveterado, agradou sobremaneira Bebel. Também, nessa época, já alugava uma quitinete e atendia empresários e casais excêntricos. Um dia Marco Toledo Alves, o escritor que se abalou para... após se divorciar da esposa quando morava na Cidade Maravilhosa, disse à Bebel que ela lembrava a estonteante Claudia Cardinale. A garota adorou o elogio apesar de não saber quem era a atriz italiana. Marco, então, as apresentou. Assistiram à “A Pantera Cor-de-Rosa”. Encontrou depois de perambular e garimpar pelas locadoras, “O Leopardo” de Luchino Visconti. Bebel ficou deslumbrada com a beleza de Cardinale, mas não encontrou muitas semelhanças entre elas. Marco, autor de três livros publicados e obscuros, ex-professor de Literatura, insistiu na parecença. Enfim, Bebel cedeu.
- Você, minha flor, deveria aproveitar esta similaridade e imitá-la. Você não assistiu “Los Angeles - Cidade Proibida?”.
Não. Bebel não havia assistido ao filme. Via poucas produções cinematográficas e ia esporadicamente ao cinema. Não sabia quem era Christiane F. quando o escritor falou sobre ela. Bebel não conhecia figuras públicas, nomes históricos ou algo sobre artes. Nem fatos ou acontecimentos que construíram a idéia que temos de mundo. Bebel somente considerava métodos de sobrevivência, preocupava-se com a sua subsistência e uma vez ou outra em como obter prazer, podendo ser através de sexo, consumo material ou etílico.
Aos dezessete anos uma tragédia veio alterar os rumos da vida de Bebel. O assassinato de Marco Toledo num barzinho localizado na cidade vizinha. Segundo as testemunhas, ele havia ingerido altas doses de vodka e saiu em companhia de uma prostituta. Quando voltou ao bar estava desacompanhado. Então, um cafetão apareceu acusando-o de dar calote nele. E, por fim, após uma discussão bastante ríspida, ele foi morto com três tiros na cabeça. Uma dessas balas o atingiu logo em seguida a queda. Morto a sangue frio. Bebel ficou transtornada e se afundou no álcool. Muitas vezes, ela encontrava os seus clientes ricos completamente bêbada. As suas companheiras de profissão lamentavam a sua condição. Mas, a consideravam tola por se deixar abater e se “estragar” devido a uma paixão por um viciado como “aquele escritorzinho fuleira”. É o que elas declaravam.
Aos dezenove anos aquela figura estonteante à semelhança de Claudia Cardinali não passava de uma doce e pálida lembrança. Bebel, um dia, encontrou um rapaz que vivia de assaltar pequenas lanchonetes em bairros periféricos da cidade. Ela se encantou pelo rapaz, que na verdade, apesar de conseguir gratuitamente aquilo cujo preço já não era tão elevado, a achava repulsiva. Bebel, a ex-bela, morreu pelo punhal desse garoto. Assim como apareceu do nada deixou o palco da vida. Quem ela era, de onde ela veio, ninguém soube. O seu corpo foi encontrado em um hotel reles. Não na cama, mas no chão. O rapaz confessou o assassinato. Responsabilizou o asco que sentiu defronte aquela imagem repugnante sempre e sempre o embriagava. O delegado, que havia desfrutado dos melhores dias do corpo de Bebel, permaneceu calado como já era de se esperar sobre a sua relação com a vítima.
Bebel morreu. Tinha um cognome, Bebel. Fugitiva de um orfanato (provavelmente, pois mentira sobre a sua procedência várias vezes) morreu sem documentos em... Foi enterrada como indigente sem nunca dissera seu nome a ninguém. Talvez, somente o seu “escritorzinho” soubesse como foi batizada a adolescente Bebel. Algumas prostitutas escreveram com batom vermelho na cruz de madeira fincada no cemitério o nome Bebel.
Bebel que não possuía conta no banco, que não continha na polícia um arquivo sobre seus feitos, apesar dos roubos e da prostituição. Bebel epifenômeno impresso nos relatos-devaneios de um biógrafo perdido e insone, afetado pelos depoimentos de indivíduos que a viram, falaram com ela, mas nada sabiam de concreto a respeito da mulher. Situação insólita na qual a vida de uma pessoa se torna uma lenda urbana.






Sobre a obra

Jovem menina vive experiências profundas e dolorosas numa cidade grande não-específica. De roubo à prostituição, do amor à decadência, ela transita pelos cruéis e inomináveis meios de sobreviver e cai em uma lamentável existência de perdas e angústias. De forma quase passiva passa por um processo de não-existência, de quase indigência social.

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informações

Autoria
Wuldson Marcelo, cuiabano, nascido em Maio de 1979, graduou-se em Filosofia, onde foi editor e escreveu artigos para o “Caos Sophia”, jornal dos alunos do curso de 2003 a 2005. Tem artigos e contos publicados nos jornais e sites de Cuiabá e de outros Estados deste enorme Brasil.
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Claudiocareca
 

Perdão pela falta de tempo meu amigo. A sua prosa é realmente estonteante. Sofri e chorei com a anonima nominada.

grande abraço,

Claudiocareca · Cuiabá, MT 12/5/2009 12:00
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Juliene Leite
 

Uma triste realidade! Parabéns pela belissima prosa e por sua sensibilidade.

Juliene Leite · Cuiabá, MT 22/6/2009 12:41
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