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Uma tarde no Festival do Rio

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Gazza · Rio de Janeiro, RJ
7/6/2007 · 54 · 2
 


A tarde era calma em Botafogo. Depois de saborear um sorvete de casquinha, tomei o rumo do cinema, onde me aguardava o novo filme de Eduardo Coutinho. Faltava pouco mais de 20 minutos para o início da sessão quando um desses típicos personagens da cidade, aos berros, entra na sala de espera, no segundo andar do cinema.
- O festival não deu certo. Quatorze reais um sanduíche!!
Tentei não dar atenção, mas confesso que o preço do sanduíche (e era só o sanduíche) e a figura daquele sujeito me chamaram atenção. Não queria papo, apenas curtir meu cinema. E não é que aquele senhor de cabelos dourados e raspados, metido numa bermuda de lycra e agasalhado com um moletom, foi sentar-se justamente ao meu lado!
Pois bem. Sua epopéia crítica ao festival continuava, um pouco mais moderada, mas com o mesmo tom de insurreição.
- Quatorze reais um sanduíche. Não deu certo mesmo. Já não tem ninguém lá embaixo. Também, quem vai comprar? - raciocinava o sujeito, olhando em minha direção.
Era o que eu temia. Abaixei a cabeça. Outro equívoco. Deparei-me com as unhas dos pés dele pintadas de prateado. Aquilo reluzia. Nem deu para perceber que tipo de havaianas calçava. Ainda olhando em minha direção, ele saca da pochete (sim, ele carregava na cintura um desses acessórios) uma dessas garrafinhas de metal abastecidas com uísque. Não tive como evitar. Acabei encarando aquele senhor.
- Quer um gole de pinga? - disparou, singelo.
Embarquei: - Não, obrigado.
- Você não gosta de pinga? É só um gole para provar.
- Sim, gosto. Mas eu só estou esperando meu filme começar.
- Você vai assistir "Eu sou viciado em sexo"? - emendou.
Eu já havia relaxado e não resisti.
- Não. Eu prefiro fazer a ficar assistindo.
- Mas isso é coisa de pervertido. Você é um pervertido, rapaz.
- O senhor vai ver esse filme mesmo? - perguntei, num tom provocativo.
- Sim, claro. Eu gosto de ver também. Às vezes pode ser mais interessante. Na minha idade...
- Pô, eu só tenho visto ultimamente. Mas acho que deve ser interessante esse filme. Eu estou querendo ver mesmo é esse documentário "Por dentro da garganta profunda".
- Só se fala nisso, né. Desse jeito, eu acho que já está todo mundo dentro dessa garganta - disse o senhor, às gargalhadas, para depois me censurar.
- Você gosta mesmo de pornografia, heim!
- Mas é um mito da história da pornografia - justifiquei, quase ingenuamente.
- E você por acaso era nascido quando Linda Lovelance mostrava o que era uma garganta?
Não resisti, mais uma vez.
- É, acho que eu estava na garganta da minha mãe.
O velho se rendeu à infâmia com um grande sorriso, seguido do elogio.
- Você é um rapaz muito bem-humorado. Mas porque você não vai ver esse filme? Eu vou ver, mas eu não sou viciado em sexo não.
- Só veio se distrair, né?
- (risos) Você faz o que? Como você se chama?
- Marcello. Eu sou jornalista.
- Ah, logo vi. Vai ver o filme do Eduardo Coutinho - deduziu, sem dar espaço para minha resposta. - Eu sou Antonio. Sabe, eu sou médico, psiquiatra. Eu ando assim desse jeito para não chamar atenção. Eu fui da Cruz Vermelha, condecorado, estive seis vezes em Bagdá, já serrei muita perna - revelou, num único fôlego.
- Bem, eu preciso ir. Meu filme vai começar. Foi um grande prazer - despedi-me.
- Eu gostei muito de conversar com você. Vou torcer para você arrumar uma namorada e deixar de ficar só assistindo - provocou o velho.
- Valeu pela força - respondi, já descendo as escadas em direção à sala reservada para o filme do Coutinho.
Ah, o filme do Coutinho. Bem, deixa pra lá...

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Gazza
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Benny Franklin
 

Gazza, meu POEMA LEVE está na fila de edição e conto com o seu comentário.
Eis, o link:
http://www.overmundo.com.br/overblog/sala_edicao.php?em_edicao=4896

Benny Franklin · Belém, PA 8/6/2007 22:21
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AZnº 666
 

Gazza eu costumo dar uma de maluco só pra agitar o mundo, praalguém ter uma história pra contar pros netos. Como dizia Chacrinha: eu não vim para explicar, EU VIM PRA CONFUNDIR!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2007 11:23
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