A cerveja gelada, o vento noroeste que arrepiava a pele, a cidade deserta: qual desses fatores me alterava assim os sentidos? Nem mesmo pensava sobre isso. Só sentia que alguma coisa estava aguçada. O gosto da cerveja amarga, o efeito do vento na epiderme, o sabor marinho da casquinha de siri, tudo estava potencializado, multiplicado por cem. Era como se de uma hora para outra as coisas todas ganhassem um sentido ainda não vivido. Como se eu visse tudo pela primeira vez. Um pouco mais de pimenta: queria desfrutar ao máximo daquele súbito super-poder que me chegou no início da noite. Ardor. Mais um gole de cerveja: amargo. E tinha uns olhos, que acompanhavam cada movimento meu, liam meus lábios, acompanhavam os volteios do vento em meus cabelos. Uns olhos... Qual a cor desses olhos? Pretos, ou castanho escuros? O mundo se resumia no travo amargo da cerveja, no ardor da pimenta e naqueles olhos que eu procurava desvendar. Castanhos, inequivocamente castanhos, com alguns matizes mais escuros e outros dourados. Os olhos me diziam alguma coisa, que eu respondia, aceitava, discordava. Um diálogo de olhos. Comecei a medir a distância entre eles, depois a proporção deles em relação ao nariz. Um nariz grande. Sempre gostei de grandes narizes: dá mais força ao rosto todo. E bocas grandes, cheia de dentes, com lábios carnudos. Essa era uma boca assim, e tinha certo jeito de escultura. Não uma escultura de mármore, perfeita, mas como talhada a canivete na madeira bruta. Não era uma boca perfeita, nem bem desenhada. Parecia até mesmo sobrar no rosto. O conjunto do rosto não era bonito. Pelo menos não era o que se convenciona chamar de beleza masculina, não possuía a harmonia e a simetria que o conceito de beleza exige. Mas me prendia o olhar, como se aqueles olhos me guiassem para aquele rosto imperfeito, forte e, por isso, belo. De que falávamos? Do tempo, de música, de projetos futuros, pequenas idéias em comum. Não importava o diálogo das vozes. O diálogo dos olhos era o mais intenso, o mais denso, mais prenhe de sentidos. O bar quase vazio, o vento frio, a rua deserta, tudo ganhava um novo sentido visto através desses olhos que me viam. Olhos que viraram mãos, em diálogo de afagos, que viraram bocas que se confundiam em líquidos e línguas, que viraram pele que subitamente se colam de desejo, se penetram, se fundem. Mas ai não havia mais o bar deserto, a rua molhada da chuva que passou. Havia pedras, mar batendo e uma traineira passando motor, motor, motor, na noite escura.
Ilia (cláudia),
Que bela narrativa!!!
O devaneio de um instante congelado tão bem traduzido em suas palavras de uma paquera ao vento, num ambiente neutro e comum, se dá a riqueza do encontro, dos olhos, que dialogam... E no final, corpos entregues à areia com o fundo musical de um cais de porto...
Deu até para suspirar, parabéns...
Bjo
achei o conto rico de sensações verdadeiras, gostei especialmente da mudança de cenário, gostei da imagem madeira X mármore, bocas, narizes e olhos... adorei a imagem sonora da noite, motor motor motor, essa foi talento!
Querido Mariozinho, que bom vc aqui! Ainda mais me jogando purpurinas assim...heheh. Espero suas colaborações.
beijo
Você conseguiu o que é mais difícil - na minha opinião - para um escritor: levar o leitor ao ambiente. Consegui ver (claro que na minha imaginação) esse homem e quase senti o gosto e cheiro da cerveja (da minha preferida)! Bjs. e votado!
JACK CORREIA · Crato, CE 22/6/2008 15:40
Lindo, Claudia. E não é assim? No princìpio, uns olhos...
abçs.
Nydia
Texto sugestivo: a solidão à beira mar, à noite, com a traineira passando, as ondas batendo, as pedras escuras... Está criada a atmosfera para as almas inquietas, dolorosas, mais se afundarem no sofrimento. Muito bem.
Abraços.
Jack, Nydia e José Carlos, que bom que vcs gostaram. É minha estréia em contos aqui no overmundo e é um ótimo estímo as opiniões de vcs. Obrigada.
abraços
Muito bom, envio com prazer para o banco. Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2008 02:55
Ilha,
Achei isto: Jangada se desilhando, se juntando enfim aos outros contadores de história, meio escombros, daí e daqui e com eles formando um continente grandão com estes bons e belos lero-leros que poderiam mesmo acontecer.
Abraços
Não sei se entendi bem, Spírito. Jangada, ai, faz referência à de pedra? Aquela desgovernada, sem rumo e sem porto? E o meu conto se encaixa na categoria "escombros" (faz sentido!). heheh.
Abraços
Entendeu mais ou menos. Jangada sim, mas não exatamente aquela do Saramago, enorme de pedra e desgovernada. Ilha=jangada, barquinho de iemanjá, no bom sentido, sacou?
Escombros também não é o seu conto. Escombros somos nós outros, contistas aqui do pedaço, ainda cheios de arestas (pelo menos eu), carentes daquele polimento que a erosão marítima, com o tempo vai nos dando, nos lapidando. Aí, na medida em que vamos nos juntando, polidos já, quem sabe não podemos virar um continente?
Não é para isto que os contos são escritos?
Abs
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