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Urgência pro nada virar nada

Juli Bauer
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
19/2/2009 · 97 · 6
 

Aquele, mais que um outro qualquer, estava parecendo a ela um dia arrastado, comprido.
Por alguma razão até então desconhecida, não se passavam as cinco horas da tarde... tudo se ficara ali, condensando as vidas: os gritos das crianças, os choros dos bebês, os apelos das mães e pais, as ansiedades, angústias e medos dos velhos. Podia-se dize que o átimo era tudo.
E tudo, do jeito que resultava, que restava, sem retorno possível, nem avanço palpálvel, era um nada.
algo ainda sem história e já sem porvir.
Que diabo seria!?
Que deus explicaria!?
O sol não se movia!
Era só o nada mais o nada mais coisa alguma.
E eu nem me dera conta de tanto.
Fui alertado por aquela senhora afobada, apressada, acelerada, ali a meu lado, embora acomodada em poltrona confortável, em trajes que lhe permitiam as frescas e amenas brisas da beira dágua, à sombra, que o dia era assim arrastado...
Nem desatava, nem atava, não adiantava a ela só estar ali, só parada, refestelada.
Por algum motivo queria ver as horas andando céleres, como se uma fila de segundos e minutos estivesse se amontoando, atrolhados de malas e mochilas, segurando cachorros e papagaios em gaiolas, crianças pelos suspensórios para ir a algum lugar: um guichê, um sanitário, um caixa, um balcão... pegar pão quente... fatiados para o lanche...sabe- lá, chegar primeiro à caçamba virada no lixão... pegar a última gratuita de uma dgustação de chardonay, ou mesmo um picles lançado em demostração pela fábrica ipsilon no corredor atrolhado do supermercado
Eram, pra ela, várias vezes cinco horas da tarde, de um dia arrastado e nada de a vida mudar para qualquer lugar.
A impaciência dela me tocava, já.
Fechei o livro que tentava ler, interrompido pela suas interjições badalada: são cinco horas ainda, são cinco horas ainda, são cinco horas ainda, são cinco horas ainda, são cinco horas ainda... fui caminhando lentamente para a beira dágua... ainda ouvindo ecos de que se arrastava o dia.
Parecendo mesmo que aquele seria um dia fadado aos poucos, raros, escassos, miúdos sucessos.
Um dia sem acontencimentos é assim... arrastado como esse. Nenhum grande tragédia em manchete até às cinco da tarde, aina, nem um morto próximo dali por bala perdida ou facada, nenhum espancamento de menor ou curra de criança por adulto... nada estava acelerando aquele dia, que não saia das cinco da tarde... se arrastava.
Um dia assim sem sucessos, para ela inglório, talvez registrando só fracasssos que a história dele sequer iria permanecer.
Um dia de apenas ser, de existir com calma, até enfarado... quieto.
Registre-se que, para mim, estava, até ouvir aquele quase clamor bravo, um dia perfeito, principalmente porque se tratava de um dia com uma hora a mais.

Sobre a obra

loucuras de fim de horário de verão

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Adroaldo Bauer
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Pedro Monteiro
 

Amigo Adroaldo.
Não que eu seja avesso as convenções e regras, mas tem cada uma, que vale perguntar pra que serve?
Porém o poeta por sua sensibilidade e capacidade poética trás a luz suas inquietações.

Belo texto amigo.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 18/2/2009 00:37
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ayruman
 

Apreciando magnífico texto.
Saúde. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 18/2/2009 02:48
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Adroaldo Bauer
 

Ayruman, teus olhos espelham a bondade da tua alma na aproximação a essa leitura. O que agradecido fico.

Pedro, amigo poeta: quem há de entender tanta urgência por celeridade tamanha. Fossem crianças, a vida, o porvir fantástico, a imaginação explicariam... Mas, era adulta já passada em anos a pessoa... quem há de?
Friso que é fato verdadeiro ocorrido, e por razão tanta é que está aqui em não-ficção... a mim espanta, chacoalha, intriga, como escrevinhei.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 18/2/2009 12:23
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Ivette G.M.
 

Para alguns, um dia a mais será de enfado. Para outros, uma hora a mais de expectativas ou de agonias.
Votado. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 19/2/2009 16:52
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Adroaldo Bauer
 

Cada segundo, cada minuto, cada dia, cada novo momento, Ivette, são para mim tão cada vez mais importantes, que, mesmo na adversidade, fico feliz de poder estar com vocês aqui e em qualquer lugar do planeta, ainda neste plano, por amor.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 20/2/2009 01:01
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camuccelli
 

camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2009 18:02
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