Peguei a estória já começada; a bem da verdade o papo nem era comigo. Só que os caras falavam alto e não havia como ficar sem ouvir.
Todos falavam quase ao mesmo tempo e duas palavras eram pronunciadas por todos: Tony Boy.
Não acompanho as séries de TV – sou mais as tirinhas nos cadernos de cultura dos jornais – mas me veio a idéia de que tratava-se de um desses heróis de seriados.
Aos poucos fui filtrando o que ouvia dos menos barulhentos e ficando impressionado com o
tamanho do carinho com o qual se referiam a ele. O cara era visto como um quase guru que cuidava de todos e lhes dava um tratamento sempre por igual.
Era unânime também, como todos lamentavam a sua ausência. Depois que ele se fora, muita coisa mudara e não fora para melhor.
Meu tempo livre se esgotara rapidamente e precisei seguir meu caminho, e levei comigo a curiosidade que me faria voltar naquele bar e fuçar até saber mais sobre o cara.
E foi o que fiz dias depois, voltando na tarde uma outra quinta-feira.
O garçon, de forma educada, me encaminhou para uma mesa que não estivesse reservada. Toda 2a. quinta-feira do mês era destinada ao encontro dos Vagalumes e a maioria dos lugares da casa eram ocupados por alunos e ex-alunos do Instituto Benjamim Constant e religiosamente, a partir das 17:30 lá, bem mais de setenta Vagalumes se reuniam.
Enquanto o alvoroço não começava, ganhei a simpatia do velho garçon e ousei perguntar-lhe sobre quem era Tony Boy.
- “Um anjo da guarda” – sua resposta veio dentro de um largo sorriso que foi se transformando em um silêncio que cobriu aquele olhar de um jeito bem triste.
Me senti embaraçado, sob a mira daquele marejado olhar e lhe pedi desculpas.
Talvez na sua tentativa de convencer-me de que meu pedido fora desnecessário, o velho garçon, com o olhar voltado para a porta principal, como se esperasse que por ela Tony Boy fosse chegar a qualquer instante, foi me falando sobre ele.
- Já faz um certo tempo, esta casa era de um outro proprietário que mal vinha por aqui mas seu filho, apesar de bem jovem, era quem se dedicava em manter o negócio funcionando. O Antonio adorava uma farra ao contrário do pai, um sujeito sisudo, preso totalmente às idéias de lucro e ao seu jeito segregador que só voltava os olhos para a “granfinagem”.
- Antonio se importava com o bem estar das pessoas e defendia a todos a quem ele achasse necessário defender. E foi assim que ele virou o anjo da guarda dos Vagalumes. Não suportando ver um antigo professor ser mal servido em um bar de Botafogo, por pouco não quebrou o estabelecimento do “colega” e no dia seguinte consultou uma especialista em deficiência visual, interessado na melhor forma de criar um atendimento a cegos.
- Na primeira semana, eram só a especialista e o professor. Na semana seguinte já faltavam cadeiras e os cardápios em braile já faziam o maior sucesso.
- E em pouquíssimo tempo o local passou a ter frequência máxima às quintas e sextas. O festeiro Antonio era adorado por sua paciência, pelo carinho e total honestidade que não admitia qualquer tentativa de ludibriar aos seus tão especiais clientes.
Emocionado, o garçon contou uma das façanhas mais ousadas do Tony Boy, numa semana que antecedia a um carnaval do qual ele não se recordava bem o ano, Guilherme que sempre se mostrara um dos mais animados frequentadores do Santa Luzia – ia todas as noites ao bar porém trocava pouquíssimas palavras com os amigos e isso acabou por chamar a atenção de Antonio que concebeu uma das suas grandes e santas loucuras ao saber o que motivara aquela tristeza. Guilherme reclamava que no período de carnaval os cegos ficavam num confinamento social, sem nenhuma opção de partilhar a alegria que se espalhava por toda a cidade. Durante os quatro dias de folia, Antonio dirigiu um caminhão decorado, carregando todos os frequentadores que se candidataram a acompanhá-lo. Guilherme morrera dias depois, mas até em seu último suspiro agradeceu a Tony Boy pelo melhor carnaval de sua vida.
Pedindo licença para voltar à sua rotina – com lágrimas teimosas descendo pelo rosto – o velho garçon me fêz a gentileza de matar a minha última curiosidade.
- Por que encontro dos Vagalumes?
A resposta veio após um breve soluço.
- Sempre que questionado o porque de destinar tanta atenção aos seus clientes deficientes visuais, o Antonio respondia sorrindo que aqueles eram seres de muita luz, que mesmo envoltos no eterno escuro, estavam sempre a brilhar.
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