Existem certas situações na vida que, mesmo não se apreciando o gosto, a figura que se cria em torno de seus rituais e códigos, significa mais prazer do que o próprio prazer em desfrutá-las. Por exemplo: Vou assistir aos jogos finais do Fluminense abrindo uma gelada e cortando um salaminho. Tem tudo a ver. Na verdade o que se imagina é que eu gosto de cerveja e de salaminho. Pois bem, não gosto. Porém tem tudo a ver com a situação. E quando nos convidam para uma feijoada. Nossa! Com caipirinha... meu deus! Confesso que também não gosto, mas se me convidarem eu vou. Peço para coar o feijão e fritar um ovo; a laranja eu como de sobremesa. A caipirinha eu molho o bico, e mato um refrigerante depois. Queijos e vinhos, nem me fale! Imaginem alternar vinhos com gostos variados - madeira, couro, suave, doce. E aqueles queijos cheios de fungos e bichos verdes. Podem me chamar; vou optar pelo queijo minas e entornar um guaraná. Quer outro? Rabada. Pôxa! Não deixem de me convidar. Adoro milho cozido. Só o milho, é claro. O resto eu dispenso. Mas o ritual eu admiro muito. Aquelas coisas todas coloridas misturadas dentro de um panelão, todos desfrutando com muito suor. Eu... fico só no milho, mas não perco a festa. Depois passo no Bob´s e como um hambúrguer (com refrigerante, é claro). Sopa no jantar... nossa.... nesse frio.... Podem me chamar também. Mas tem que rolar uma sopinha de legumes no liquidificador. Aí sim, eu vou amar. No final.. bebo mais um refrigerante.
Pois bem, podemos levar estes exemplos para a questão política atual. Alguns amigos meus sentem muita falta das reuniões e rituais do passado. Passávamos horas malhando o governo e seus governantes. Atualmente podemos também promover nossas feijoadas políticas. Me convidem para malhar o Lula, por exemplo. É muito fácil. Basta falar das alianças com os partidos nanicos, dos impostos, do suposto aumento da corrupção. Me chamem também para malhar o Crivela, o Mantega, o Jobim, o caramba à quatro. ´Tô dentro. Me chamem para falar bem do Chico Alencar.... putz, é muito fácil. Afinal de contas o PT não é mais o mesmo, o Lula mudou muito, a velha esquerda está roendo a corda e passando para o outro lado, se aburguesando. Os que apanharam na ditadura estão fazendo alianças com os que bateram neles, caramba. Até os craques da seleção não existem mais. Concordo com muito disso. Só acho que vale uma análise mais profunda desse momento histórico do país. O presidente é um operário, ao contrário de toda nossa história republicana que sempre foi governada por representantes da elite nacional. Sem entrar no mérito dos equívocos do Lula e do governo, ressalto a grande transformação que significou sua vitória nas eleições e a derrota fragorosa dessa elite. Gente preconceituosa, branca e colonialista. Quando um candidato bombardeado pela Rede Globo vence uma eleição no Brasil devemos parar e pensar um pouco nisso.
A revolução socialista que os dinossauros de esquerda querem, eu também quero. Sou um Brontossauro também. Quero transformações mais profundas e distribuição de renda. Banqueiros menos ricos e grileiros entregando suas terras para a reforma agrária profunda. Acredito no altruísmo, na solidariedade e no respeito ao ser-humano. E é por isso que acho que posso aguardar mais tempo a revolução chegar. Certamente mais que os sem-teto, os sem-dignidade e os sem-tudo, que povoam nossas ruas e nossas cidades pelo país. Eles têm pressa. O Betinho já disse isso. Já nós, revolucionários classe-média, nem tanto. Por isso a inclusão social que o governo realizou nesse tempo me agrada. No mínimo, eu aprovo sua boa intenção. Aprovo vários ministros. Aprovo as cotas para as Universidades. Aprovo o Bolsa-família. A rigor, aprovo qualquer bolsa-ajuda que tente acabar com a fome e a miséria. É lógico que deve haver planejamento em longo prazo. Essas discussões são necessárias. Dá para conviver com as coisas erradas e pouco corretas? Algumas sim, outras nem tanto. Mas seria muita pretensão de minha parte querer um governo perfeito com códigos corretíssimos de conduta neste país mal conduzido durante anos e anos pelos governantes. Prefiro combater o preconceito e entender a popularidade do Lula. Não posso me permitir ficar apenas filosofando junto com intelectuais. Além disso, não posso engrossar fileiras da direita recalcada e indignada por não existir um doutor na presidência, como tão bem fazem alguns partidos de esquerda. Basta!, Chega!, Cansei!, movimentos burgueses que não aceitam um nordestino baixinho na presidência da república. Gostaria muito de poder criticar o Lula e seu governo se esses movimentos e essas críticas preconceituosas me permitissem fazê-lo. Fico imaginando como seria bom semanalmente me reunir com grupos de pessoas interessantes e críticos do modelo neoliberal. Falar mal do Henrique Meireles, meter o pau na política ambiental, na reforma tributária, etc. Um ritual de catarses fantástico. Mas como me referi no início deste texto, esses cardápios estereotipados são mais prazerosos quando eu bebo um refrigerante no final.
LuiSouza
E quando nos convidam para uma feijoada. Nossa! Com caipirinha... meu deus! Confesso que também não gosto, mas se me convidarem eu vou. Peço para coar o feijão e fritar um ovo; a laranja eu como de sobremesa. A caipirinha eu molho o bico, e mato um refrigerante depois....
Pois bem, podemos levar estes exemplos para a questão política atual. Alguns amigos meus sentem muita falta das reuniões e rituais do passado. Passávamos horas malhando o governo e seus governantes. Atualmente podemos também promover nossas feijoadas políticas. Me convidem para malhar o Lula, por exemplo. É muito fácil.
Desculpa, Luis, mas esteriotipados são alguns de seus porques em apoiar o atual governo e seu governante. Entendo e respeito sua posição, isso é democracia, mas alguns clichês antigos e alguns novos tornaram sua feijoada meio azeda. Por exemplo, eu sou nordestino, baixinho, negro e não tenho diploma universitário, mas sou crítico ferrenho do atual governo, e não elite branca e colonialista. De uns tempos pra cá, todos os que se opõem ao governo são classificados assim. Aliás, o presidente repetiu tanto isso que seu apoiadores passaram a repetir como verdade absoluta.
Outra coisa interessante é sempre culparem a Globode golpismo. Isso é irônico. Os críticos de Lula dizem que a Globo é governista e faz vistas grossas para as cagadas do governo; os governistas a chamam de golpista e a acusam de tudo o de ruim que acontece no país. É necessário seu próprio filtro para ver quem está onde.
Vale a discussão, e dessas sou fã.
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