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"VELOCIDADE DA LUZ"

1
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ
8/2/2009 · 38 · 1
 

Minha cabeça está a muitos mil por hora.
Tudo agora é veloz, só luz, zunem os ouvidos.
O som da noite distorce o dia.
Agora tudo é sobra, explode em água e vento.

Minha cabeça está a mil zil por hora.
Eu me esgarço com o tempo que despedaço.
No espaço vejo átomos a zilhões de mim.
Meus olhos confundem cores e sons.
Sou um cavalo sem nome vagando no deserto
Os vidros, os espelhos, a velocidade da luz.
Tudo se confunde e misturo as palavras
em minha cabeça, meus olhos de ventania
as crinas dos cavalos que passam velozes
que procuram águas pesadas.

As poeiras dos punhais
os risos das putas,
os fractais,
aparelhos de aço como prata,
serpentes à luz do sol.

Tudo é velocidade.
Estou à velocidade da luz
e vou simplesmente desaparecendo.
A velocidade da luz é mortal
mas é o que me dá tesão.

As casas flutuam pesadas
momentaneamente paralisadas
pelos espasmos do tempo
que se congela de súbito
subitamente minha casa acelera
e vou por cima dos telhados desnecessários
não há direção possível
as ruas se perdem nelas, impotentes,
tubos de televisão, telas de computadores,
espelhos amarelados, crostas de cracas
nas costas dos navios oceânicos
carregando toneladas de óleo cru
nas entranhas arrombadas,
hélices imensas de cobre e aço,
casa das máquinas inundadas,
crótalo aniquilado,
valdezes,
golfinhos mortos nadando em um mar de petróleo.
E eu com isso?

Mordo o pão com mortadela
e meus dentes se esfacelam.
Estou à velocidade da luz.
Rompo pelas esquinas, acelerado,
boca sem saliva, ressecado o corpo,
sou um foguete da nasa,
bmw desgovernada,
asfalto em fogo,
o sol é meio-dia,
a sola queima,
é areia de alguma praia distante
varrida por ventos atômicos,
atol de biquini,
serei nagasaqui ou hiroxima?
a havaiana derrete,
é areia de praia que entra pelas minhas ventas,
escaldando as fossas nasais marítimas
e vento no litoral,
e chovo no temporal chuva ácida
que corrói minha sombra surpresa.

Percebo luzes distantes
nas pradarias da américa,
um canto triste distorcido,
corpos desagasalhados zunem por cima de mim,
por baixo, engarrafamento de corpos,
as mãos, os pés, as bundas,
momento de explosão de fúrias,
gritos e lamentos, barafunda,
tiro as roupas que me restam,
espremo espinhas claustrofóbicas,
o elevador parou, morri de novo.

Escovo os dentes como um maluco,
como um macaco treinado, astronauta de mármore,
lavo as mãos
seco a cara
engulo o café
mordo a língua
o requeijão escorre no canto da sala
as cadeiras flutuam
a manteiga derrete de solidão.

Da boca do ar-15 vem outra ameixa,
cabeças se esgotam pingando nos muros.

Velocidade da luz
onde não se fala mais
onde não se ouve mais
o mundo gira e a lusitânea roda,
vomito gororoba, entulho de lixo,
bebo uma cocacola,
restos de construção,
material de demolição,
fico do lado direito da mão.

Me espalho nas trilhas de minas
de santiago de compostela
e nem sou um mago milionário,
vivo mesmo é do meu salário,
de sal de suór do meu sangue.
Bebo água dos pingos
que não fiz chover,
pingos de vidro,
pregos, me crucifixo nos morros da lua
falo e falo e falo
mas ninguém me ouve,
mas quem escuta quem?
Blá, blá, blá, blá, blá, blá,
isso é tudo o que há.
Um monte de babaquices
mas vende como água podre,
água radioativa, água pesada,
o fedor é tamanho que tapo as narinas.

Mijo nos presentes,
engulo bolas de gude,
pé de pato mangalô três vezes
som alto do funk batidão
nos ouvidos fones telefones
não escuto ninguém
não falo com ninguém
estou à velocidade da luz.

Transformadores linhas de transmissão
redes de energia fálica
torres das refinarias
vórtices de luz
buracos negros
buracos brancos
a vida é um grande buraco
de todas as cores
arco-íris devorador.

O cheiro do ralo
o cheiro da sopa
o cheiro da roupa
tudo é o mesmo cheiro
tudo é o mesmo buraco
o ralo
o prato
o saco de roupa
onde somem minhas meias.

Neurônios desconectados no cérebro
meu terceiro cérebro é o palm
o laptop, o pen-drive,
poeira de estrelas
vale do silício
vale do silêncio
tudo é a mesma conexão
paradoxos ER
holografias universais
sou uma projeção?
Carbonos e átomos
física quântica
quantum de energias solares
bloqueando os satélites artificiais
os sabores e cheiros já não são naturais
elétrons e antimatéria
tudo na velocidade da luz
tudo ao mesmo tempo agora.

Ventos solares enfunam minhas velas
de alumínio, película de fótons,
sou empurrado aos horizontes virtuais,
horizontes de eventos
horizontes do universo
de onde ainda não chegaram a luz das estrelas
pulsares
buracos estelares
caudas e cabeleiras.

Conversar não é mais possível.
Quem ouve quem?
As línguas se misturam
os cavalos galopam
em leitos ressecados
a convergência dos eixos planetários
adrianas, patrícias, olavos, coelhos,
sardinhas, floras, raposos,
legião de nomes,
de homens, de demônios
sonolentos, irritados, explodidos,
metrôs, ônibus, carroças espaciais,
levam todos a nenhum lugar
só a possibilidade do movimento
o engano do movimento
como se algo acontecesse, todo dia,
às mesmas horas dos dias estrangulados,
mas nada acontece,
é só ilusão
estamos todos paralisados, congelados,
só o tempo passsa nas janelas
das naves dos mares do oceano
estamos todos já mortos
mas não sabemos
nessa grande nave-cemitério,
o movimento é apenas ilusório,
velocidade da luz.
Tudo parado.
Tudo se move.
Tudo veloz.
Mas nada acontece.
Enquanto você dorme
alguém tece sua teia
e os fios de seda de raios de lavas,
raios laser, feixes de íons
em auroras borealis te enredam.
O tempo voa
mas não saímos do lugar,
é a velocidade da luz, dizem,
que tudo congela,
tudo acelera,
tudo esmigalha,
tudo tritura,
material de demolição.

Estamos todos à velocidade da luz.
Mas não sabemos.

Tudo se move.
Mas nada acontece.
É a velocidade da luz.

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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

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O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 9/2/2009 19:35
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