I
Só há sentido
Explodindo
Conceitos
E a estrutura
Que cerca
Assim o amor desperta
Em beijos e abraços
II
Vou ao planeta mais distante
Em navio e, um instante,
Que as coisas já não servem
Estão rotas
E o coração rasgado em dor
III
Farrapo, em frangalhos,
Despedaço,
O céu é por demais escuro
Como se a luz banida fosse
Aos confins perdidas
De um azul que jamais vi
Enquanto o amarelo
É sorriso
A lágrima desce
Como castigo
Misturada ao pó
Do antigo sofrimento
A dor é
Só
Não existe mais nada
Não há esperança
Sem sangue
IV
As histórias que têm
Princípio, meio e fim
Estão, com certeza,
Viradas de cabeça para baixo
Vejam só quantas cabeças
Pisadas abaixo.
Só isto já justifica
Qualquer raciocínio
Quem quiser duvidar
Tente dar meia-volta
Sem um quartel
Os ares vão pelas coisas
E o contrário permanece
V
O sol rompe o véu
Da madrugada, novamente virgem;
Deflorada, a manhã se anuncia
O relógio, um dos meus senhores,
Implacável, dá-me ordens.
Levanto, lavo, bocejo, bebo.
O que resta do café
Da cabeça foge a última cena
De um sonho de poder
A luta vai a meio
De um meio pra comer
Num tempo que já passou
- e sempre o mesmo –
Vamos
O dia, o trabalho, a loucura.
O rompimento do humano
A eterna humilhação
A infalível exploração
O engano e o desengano
Tudo isto é o que nos une
E é só que nos une?
Somos isto tudo?
Somos apenas isto?
Em meio ao dia, uma parada.
Às pressas
Engole-se
Em disparada, bebe-se.
Lavo a boca com cachaça
Mais barata que a desgraça
Volto.
Voltamos
É tarde e o sol se foi
E o dia se foi
O presente é passado
O futuro é presente e já é passado
E, como o passado,
É igualmente desgraçado
A noite bate nos ossos
E faz sentir seu peso
Engole, bebe trabalho, sofre...
Urge que façamos
A mudança dessa herança
VI
A morte! O que é a morte?
A sorte! O que é a sorte?
Quem sou sem sorte e sem morte?
Morte, vida e sorte.
Eu e o não-eu
Medo morte e vida.
Sobrevinda a vida
Sou lançado, sem norte,
Em meio ao medo,
Em frente à morte
E a falta da vida
Me mete medo
E a vida que levo é arremedo.
VII
Eu não brinco mais
Eu não amo mais
Eu não olho mais
Eu não choro mais
Eu não danço mais
Eu não escuto mais
Eu não falo mais
Eu não sinto mais
Eu não raciocino mais
Eu não sonho mais
Eu não odeio mais
Eu não respiro mais
Eu não vivo mais
Eu existo para trabalhar
Eu trabalho para comer
E é só o que eu faço
É só o que sei fazer
Eu gosto quando dizem...
Assim é que está certo
Assim é que deve ser...
Amém!
VIII
Como as lágrimas que me rolam no rosto
Salgadas de sabor
De árduas lutas,
Duras penas.
Logro o acordo,
Logro. Acordo!
IX
O que me envolve é éter.
E éter é nada.
Nada me move.
É ter nada,
Não querer ter.
Algo se mover
A me envolver
Fora ter,
Fuga ao éter
Volver lugares
Algures
De agouros-maus,
Revolve as entranhas
O projétil do revólver
O que ter:
O éter,
O não ter
Ou me mover
Com o que me envolve
E não ter, nem ser.
(15/10/1975)
Eu não brinco mais
Eu não amo mais
Eu não olho mais
Eu não choro mais
Eu não danço mais
Eu não escuto mais
Eu não falo mais
Eu não sinto mais
Eu não raciocino mais
Eu não sonho mais
Eu não odeio mais
Eu não respiro mais
Eu não vivo mais
1975.1976... vigia o regime militar. a censura era imposta a tudo, do teatro ao cinema , da imprensa à literatura. da música às manifestações sociais quaisquer. a vida era irrespirável. Vladimir Herzog seria assassinado no cárcere do doi-codi paulista sob comando do general ednardo dávila mello. quando o operário manoel fiel filho foi morto da mesma forma, no cárcere da ditadura, o general geisel mandou o general dilermando gomes monteiro assumir o comando do segundo exército e demitir dávila mello. depois de geisel inda sobreveio figueiredo, que tinha sido chefe do sni, que gostava mais de cheiro de cavalo que de povo e daria um tiro no coco se ganhasse salário mínimo. lamentou-se muito que ganhasse mais que o mínimo.
Eu quando trabalhava na Petrobras/Reman, conheci alguem que nessa época tb perdeu os dedos, as unhas, e mais algumas coisas horrorosas dessa ditadura! hoje, ele é "anistiado' mas nele ficaram as marcas desse tempo!
O que tenho a dizer poeta que sua obra é magnifica e que minha nota, seria 1000 se a pudesse dar, como não posso , volto para votar mais uma vez em seu trabalho fantástico!
beijos
Num tempo que já passou
- e sempre o mesmo –
Vamos
O dia, o trabalho, a loucura.
O rompimento do humano
A eterna humilhação
A infalível exploração
O engano e o desengano
Tudo isto é o que nos une
E é só que nos une?
Somos isto tudo?
Somos apenas isto?
.....................
Somos guerra perdida
Uma ferida que não se estanca
Herois?
Fomos, mas aí veio outra
A batalha do dia, da agonia
Café e trampo, sem grampo
Enchendo a pança
Minha? Tua?
Do inimigo invísivel, invencível
Vísivel cruel , mas sem dedo em riste
Sem arma, sem nada
Branca, roleta que roda
Pro soldado, esse fiasco
Esse vivente, sobrevivente
Que assassinam todo dia
E nada mais acontece
Estátua de soldadinho de chumbo
Mas silencia...imóvel em fome
De esperança
Paz e Amor
Sem censura
Heróis?
Otários na contramão
Na mão do maior pecado
Pela Outra
Velada...mas censura livre...
Devaneios amigo Adroaldo...versos teus tristes
de quem viveu com flores na mão e com bravura os
tempos de ideais com toda inocência...uma humilhação
tão quanto essa, pois muitas vidas acabadas ou enlouquecidas nos anos60/70 para essa frustração de ver atualmente imls cheios por outras razões, por causa de desvairados...
Poxa, Adroaldo,
Que versos bem escritos, são mesmo atuais, como textos de Chaplin... Quando escritos numa realidade, e de coração, trespassam a barreira do tempo, destaco:
"Lavo a boca com cachaça
Mais barata que a desgraça"
Muito forte, denso, cru e doce-amargo, BELO!
Parabéns
abço
Ferida para sempre doendo, dor de membro amputado.
E o resultado?
Logro, como sempre, tudo tão para sempre igual!
beijos
Veja só, Saramar eCíontia, amigas queridas poetas: acordo feito, logro preparado.
Soubesse mais disso, Spartacus não teria comprado aqueles navios que nunca chegaram para levar um povo que se libertara a outras terras que não às da morte sob a escravidão por Roma. Inda assim, a humanidade, em conjunto, com alguns tropeções dantescos, como os campos de concentração, as explosões atômicas sobre civis, os bombardeios de naplam sobre vietnamitas e a democratização à la bush do Iraque (não vamos á África que a dor é tamanha...), tem prosperado.
Há já pouca escravidão, resta muita exploração, massas famintas, minorias na farra.
Um dia os de baixo ainda farão por si o que lhes compete, confio.
---
Grato pelo estímulo e presença Cristiano.
---
Como diz Chico Buarque, a dor não passa, Celina.
Agradecido.
Meu querido amigo,que bom que hoje podemos escrever sobre isso sem medo de sermos presos ou mortos.
venho de uma família de militares,conheci várias personalidades das quais não me orgulho.Mas ler seu trabalho me trouxe amargas recordações.No ano de 1978 eu trabalhava numa cia de petróleo em plena av Rio Branco.Adorava ao fim do expediente tomar um chop no simpatia.Por ocasião era a eleição do Figueiredo.Nunca me esqueço o povo gritando:
-abaixo figueiredo,o povo não tem medo...E eu apanhei muito.
Sobrevivi.talvez para hoje ler seu trabalho maravilhoso.
Oi, Adro
Versos tristes sobre uma época terrível. Eu sei, pra que ninguém se esqueça. Mas, posso falar?
Esse tempo passou. E aí Falar de 68 é entrar numa onda: ou você se autodesmistifica ou continua num certo culto do herói, ou ati-herói que pra mim dá no mesmo.
Tempos de Carcará? Prefiro lembrar que esqueci.
Lindos versos de uma época e para uma época. Prontofalei:)
Pode xingar.
Cedê,
Não tenha eu talvez informado a contento, mas esses versos são os feitos por mim naquela época.
Não os fiz hoje. Nem os faria jamais agora, que hoje faço de outro modo, que outro sou.
A espécie evolui, a humanidade, aos tropeços e trambolhões, avança e supera suas limitações naturais e ferazes.
Não xingo, nem vejo que por sangue seja o motivo para se viver, senão que o amor é que me apraz.
Depois do showmício justamente humanitário da Betancurt que o Estado institucional da cocaína, a Colômbia, apoiado pelos patrocinadores mundiais da violência institucional e do consumo de cocaína, os EUA, promovem desde há três dias, Adeus às armas está em moda e a violência revolucionária vai afastada até da estratégia, quanto mais da tática, inda que necessária fosse porque a conjuntura mundial continua sendo da violência institucionalizada afirmando diariamente a exploração do trabalho e a apropriação privada do resultado da produção social.
Pense, Cedê, que apenas folheei um livro que poderia ter sido publicado à época, que não tenha sio queimado como outros oforam em outras épocas de estados tão criminosos, como folheio inda hoje Os Lusíadas, uma ode ao estado nacional mas, também, expansionismo Português, ou Folhas de Relva, de Withman, o poeta da revolução americana, que, como alertou Leminski, os poetas não têm responsabilidade de que apodreçam as revoluções que cantem ou que sejam traídas por que os sucede.
Até porque, aquele rapaz de 23 anos não escrevia para as gavetas, mas, como hoje fazemos aqui, para que o lessem e, se quizessem, se comovessem ou o convencessem de que outra coisa era possível naquela oportunidade, além da insurgência dos que não queriam a morte por sistema.
Eu dou, como sempre dei, vivas à vida, ao amor e as flores, mesmo na contramão do hedonismo e da multidão egoísta.
Sou um incorrigível altruísta, Cedê.
Grato, sempe, por tua presença em meus postados. Mesmo neste, em que fiz quando quase menino ainda.
Adro eu sei que foram feitos por vc naquela época. Eu sei que coisas assim não esquecemos. Eu tb levei. Prefiro lembrar que esqueci.
Falei xingar de brincadeira, tchê. Bah, como levas tudo a sério!
mille baci
Cedê,
Vale o escrito, nos ensina a filosofia do jogo criado pelo barão de Drummond.
Então, estarei bem no fim de semana que já se inicia, nadando em beijos teus , mis, que não me afogo porque já aprendi a respirar a cada três braçadas, entendendo que são também os momentos em que tu, igualmente, irá respirar, e que descolaremos nossos lábios, as bocas em frêmito, sequer balbuciando, e os avanços que façamos serão por conta de inspirarmos, sem muito tempo para expirararmos, posto que são centenas ainda os restantes ósculos.
nem me passaram pela cabeça, vê, que não fossem beijos na boca!
Vamos de novo: mil beijos para ti também, em teus lábios, com muita seriedade, amor e paixão, querida Cedê.
Meus votos querido poeta! com louvor!
Beijo e meu carinho
mile baci, Adro, tri parceiro, querido e bravamente doce. Te gosto!
Compulsão Diária · São Paulo, SP 5/7/2008 16:06
Meu caro Adroaldo, somos testemunhas e partícipes dos acontecimentos do golpe de 64 (com letra minúsculka mesmo). Quando li seus poemas voltei no tempo. É bom que a gente de vez em quando volte a pensar no que passamos. Além de um exercício de exorcizar os demônios, serve também para não deixar que esses fatos caiam no esquecimento. Para mim, os reacionários da direita, porque continuam fascistas, estão doidinhos para voltar. Veja o povo da antiga UDR, até os generais já estão saindo para criticar o Governo e o presidente. Vide o impasse com os arrozeiros na Reserva Raposa do Sol. Esse povo pensa só porque o socialismo não deu certo na antiga URSS o capitalismo é melhor? O sonho continua de se ter uma civilizaçao mais humanista e igualitária. Ninguém pode continuar sendo a favor da barbarie. Parabéns, amigo. Volto para votar.
Aproveito para deixar o convite. Estou com coisa nova.
http://www.overmundo.com.br/banco/tripe-da-perdicao
Abraço amazônico
Adroaldo, teus poemas são intensos e mexem profundamente com quem os lê.
Eis a razão da poesia! Cumprida.
Parabéns!
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