Viagem

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Katine Walmrath · Porto Alegre, RS
8/10/2006 · 58 · 2
 

Durante a viagem, não descobri nada. Me irritava olhar pela janela e não saber aquela estrada onde é que íamos dar. Nós, sim. E cegos. Nós, porque eu ia e eles todos, quem quer que fossem, iam também. Não sei se junto, mas podia jurar que também sim. Nós. Como os de pinho, de fazer lareira e chocolate quente com inverno.
Naquele dia, foi como se um solavanco e o trem parasse ou finalmente saísse dos trilhos. Me doía (e o medo não ia a lugar algum) – me doía ser o trem/estar no trem sem ter trazido uma vela, um relógio, um batom e o espelho. Sim, porque de resto, eu resultava um elemento bem feliz. Tinha um velho livro de receitas, as letras já meio apagadas, um lápis de sobrancelhas (erguidas/cerradas) e um apontador, além, é claro, daquela conexão direta com o computador central da nave mãe ativada quando eu espirrava.
É, no momento do solavanco, eu bati com a testa nas costas do banco da frente do meu. Nada mais natural do que perder o juízo. Agora, isto se eu tivesse um juízo, porque estava claro que pra sobremorrer à viagem, era imprescindível carecer de qualquer adequação ou sanidade/sanitariedade.
Tá, que me lembre, depois do crash-bum-bang, eu estalei os dedos, pra ver se as juntas ainda faziam aquele barulhinho, não sei, precisava saber se faziam. Não consegui ouvir o barulhinho e tomei uma consciência enorme do peso da bigorna no meu ouvido. Sabia que estava surda. E muda e louca e doente de amor e com calos nos dedos dos pés.
Ai, desculpe, o senhor deve estar achando que isto aqui é uma brincadeira e que eu não lhe tenho a mínima consideração (e não tenho mesmo), mas não é nada disso. É que às vezes, quando eu começo a falar da colisão, sinto um cheiro de mel e vem a febre de novo e aí começam esses delírios... O senhor tem que acreditar em mim. É minha única chance. E a sua também. Aliás, é assim com todos os passarinhos, desculpe, queria dizer passageiros.
Quando ficou claro, embora não fosse exatamente dia, que eu continuava sendo eu, mesmo após o impacto, entendi sem entender lhufas, que é a melhor forma de compreensão possível, ou pelo menos era, naqueles dias, entendi que chegara a uma espécie de não-espaço ou lugar-nenhum. O hiato que sempre passa despercebido estava ali parado, aberto, disposto e disponível a minha explosão/exploração.
Certamente, eu poderia pegar os fones de ouvido na mochila e fritar ovos com bacon ou calçar umas sandálias de tiras e tirar leite dos pés de cabras. Preferi fazer tudo isso, pra adiar o vôo, o salto, o golpe, o grito.
Só que, e eu espero que o senhor compreenda, eu não (ha)via outra escolha a não ser a que fiz. Eu soltei a corda. Virei ave, andorinha, asa de anjo, alucinação.

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Katine Walmrath
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Rangel Castilho
 

Uau que viagem, Katine!!
E a gente vai mesmo!
Mesmo sem saber!!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 9/10/2006 10:36
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Katine Walmrath
 

Que bom, Rangel!
É pra gente ver como saber nem sempre é o mais importante.
Viver também foi uma viagem.
Escrever foi um prazer.
Abração.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 9/10/2006 11:02
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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