O sol nasceu atrás do morro. Lindalva se levanta para o dia. A beleza do céu azul anima a senhora que, sonolenta, vai ferver a água do café.
O barraco de três cômodos abriga também os dois filhos e o marido, que está de hora-extra no trabalho. Assim são os barracos do morro, sendo alguns mais miseráveis que este; assim é a vida dos moradores do morro, sendo algumas mais miseráveis que esta.
Às seis em ponto Lindalva sai para trabalhar.
- Bom dia, Dona Lindalva! Toma café? - convida a vizinha.
- Obrigada! Já tomei.
Ela trabalha numa casa de família no Leblon. Após duas conduções e uma caminhada de três quadras, Lindalva chega ao serviço. São oito horas da manhã. Todos dormem.
Novamente faz café e coloca a mesa para a família. Quando acordam, trata de arrumar os quartos. Depois de fazer o almoço e lavar os banheiros, passa uma leva de roupas e lava a louça do café da manhã e do almoço.
Nesse ritmo se mantém até as 18h, horário de voltar para casa. Chega ao morro por volta das 20h30m. No jantar, ela e os filhos comem o resto do almoço da casa do Leblon. Lavada a louça, a senhora joga os colchões, que ficam atrás do armário, no chão - está na hora de dormir. Sente a cabeça pesar e o corpo doer; vive assim há 25 anos, trabalhando na mesma casa, fazendo as mesmas coisas. Ganha R$400 por mês. Quando seu marido chega, de madrugada, Lindalva levanta, esquenta a comida e, após superficial troca de palavras, observa-o até vê-lo dormir. É o retrato de uma relação perdida - sem privacidade, sem tempo, sem perspectivas, não há mais amor. Há a obstinação ao trabalho, à servidão, à necessidade de seguir em frente.
Mas essa vida miserável a matava devagar. Seu único prazer era um antigo toca-fitas, onde ouvia Roberto Carlos, seu verdadeiro amor.
Cinco anos depois, Lindalva teve um infarto fulminante.
No enterro, apenas o marido, os filhos e poucos vizinhos. A família para a qual trabalhava contratou uma empregada mais jovem. Seu marido continuou fazendo hora-extra, agora acompanhado pelos filhos. Lindalva era analfabeta. Tinha 50 anos de idade.
A vida no morro mantém sua harmonia: o sol continua nascendo e os trabalhadores continuam morrendo.
Nossa, como é linda a simplicidade e a singeleza desse texto.
Parabéns, Caio, esse tipo de conto me comove muito, porque é simples como a vida irônicamente o é.
Nossa, como é linda a simplicidade e a singeleza desse texto.
Parabéns, Caio, esse tipo de conto me comove muito, porque é simples como a vida irônicamente o é.
Lindo, belo... bonito.... como o Caio
Clarice Tenório · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2010 16:55Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!