Vida que Segue

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Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ
16/11/2006 · 58 · 5
 

O sol nasceu atrás do morro. Lindalva se levanta para o dia. A beleza do céu azul anima a senhora que, sonolenta, vai ferver a água do café.

O barraco de três cômodos abriga também os dois filhos e o marido, que está de hora-extra no trabalho. Assim são os barracos do morro, sendo alguns mais miseráveis que este; assim é a vida dos moradores do morro, sendo algumas mais miseráveis que esta.

Às seis em ponto Lindalva sai para trabalhar.

- Bom dia, Dona Lindalva! Toma café? - convida a vizinha.

- Obrigada! Já tomei.

Ela trabalha numa casa de família no Leblon. Após duas conduções e uma caminhada de três quadras, Lindalva chega ao serviço. São oito horas da manhã. Todos dormem.

Novamente faz café e coloca a mesa para a família. Quando acordam, trata de arrumar os quartos. Depois de fazer o almoço e lavar os banheiros, passa uma leva de roupas e lava a louça do café da manhã e do almoço.

Nesse ritmo se mantém até as 18h, horário de voltar para casa. Chega ao morro por volta das 20h30m. No jantar, ela e os filhos comem o resto do almoço da casa do Leblon. Lavada a louça, a senhora joga os colchões, que ficam atrás do armário, no chão - está na hora de dormir. Sente a cabeça pesar e o corpo doer; vive assim há 25 anos, trabalhando na mesma casa, fazendo as mesmas coisas. Ganha R$400 por mês. Quando seu marido chega, de madrugada, Lindalva levanta, esquenta a comida e, após superficial troca de palavras, observa-o até vê-lo dormir. É o retrato de uma relação perdida - sem privacidade, sem tempo, sem perspectivas, não há mais amor. Há a obstinação ao trabalho, à servidão, à necessidade de seguir em frente.

Mas essa vida miserável a matava devagar. Seu único prazer era um antigo toca-fitas, onde ouvia Roberto Carlos, seu verdadeiro amor.

Cinco anos depois, Lindalva teve um infarto fulminante.

No enterro, apenas o marido, os filhos e poucos vizinhos. A família para a qual trabalhava contratou uma empregada mais jovem. Seu marido continuou fazendo hora-extra, agora acompanhado pelos filhos. Lindalva era analfabeta. Tinha 50 anos de idade.

A vida no morro mantém sua harmonia: o sol continua nascendo e os trabalhadores continuam morrendo.

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Caio Barretto
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Lênin Willemen
 

Nossa, como é linda a simplicidade e a singeleza desse texto.
Parabéns, Caio, esse tipo de conto me comove muito, porque é simples como a vida irônicamente o é.

Lênin Willemen · Campos dos Goytacazes, RJ 18/11/2006 14:49
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Lênin Willemen
 

Nossa, como é linda a simplicidade e a singeleza desse texto.
Parabéns, Caio, esse tipo de conto me comove muito, porque é simples como a vida irônicamente o é.

Lênin Willemen · Campos dos Goytacazes, RJ 18/11/2006 14:49
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Caio Barretto
 

Lênin, um abraço!

Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2006 21:54
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Ana Cullen
 

É.... belo?!
Muito bom!!!
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 12/1/2007 15:09
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Clarice Tenório
 

Lindo, belo... bonito.... como o Caio

Clarice Tenório · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2010 16:55
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