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"Vídeo-game" 2.0: arte?

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Raul Ruas · Rio de Janeiro, RJ
23/4/2011 · 3 · 2
 

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Video-game: arte? Eis a questão em questão hoje.
Então, por que choramos nossas bibliotecas em vez de educar nossas crianças nessa arte em que há sempre um vencedor para um perdedor, sem mistérios; um número definido de caminhos para um todo fechado; um objetivo e uma finalidade?
Por que a vida, se há esse processamento de dados artístico tão à mão, gerando experiências fundadoras de novos artistas...
Por que a crítica, se ela se cria onde se criam essa arte e a sociedade, horrorizadas ante possíveis conceitos e liberdades (agora, sim, mundos inventados, mas não mortos, à Vicente Huidobro, com chaves para mil portas e árvores azuis e invertidas)...
Por que colher sons e silêncios em vez de ruídos...
No mais, alguém, pelo menos, deve estar feliz com essa história: é Henry Luce, o senhor "tempo", da revista "Time", que sonhava botar em fórmulas as mentes, a partir de um banco de dados gigantesco. Seu esqueleto dança, eu vi, como vi hordas que achavam infecções em desvios e linguagens indiretas; como vi quem sequer associasse um elefante sobre uma bicicleta à palavra "memória" em garrafais.
Adianto que morrerei lúcido, ou melhor, psicótico, achando que maçãs são maçãs e pecados pecados ou confundindo os termos do contrato, se preciso; se, simplesmente, mais belo - ou não: afinal, por que não valores capitais em vez de tentar tentar, cardinais?
Atraso que gosto de imagens de "video-games arcades", pixelados; de quando um rosário de contas marrons encastelavam uma cabeleira verde, sugerindo um: coqueiro.
*
Comecemos, pois, com essa bolsa de valores, sempre nervosa. Comecemos, pois, Pound, demente, louco, proscrito, crítico da usura e da sociedade de crédito; desgraçado, oscilando momentos mendicantes. Guinsberg, aliás e em tempo: vai se foder com sua crítica à América e seu girassol. E você, Monet, que só porque é pintor pensou em esconder-se entre luzes e sombras: cores? Que merda é essa com a Catedral de Rouen? Obsessão ou perversão mesmo?
*
E por esbarrar nesse assunto, que sociedade é essa em que os conceitos flutuam, menos a monogamia e a propriedade? Afinal, não foi o que aprender com as flutuantes e decadentes Grécia, Roma, França e seus bacanais, suas gastanças? Enfim, é isso? Não há Norte, comandante, e, ao mesmo tempo, não há entrega, embriaguez - bacanais. Os víveres estão trancafiados no porão.
*
Sou de um tempo muito antigo em que os homens tinham que arriscar, alteando-se, não a arte abaixar-se em mesuras (nem que seja para ser educado). Um tempo muito antigo, anacrônico, talvez - e exatamente, por isso, hoje: porque trabalha com a duração, contemplação.
Assim não acho que "vídeo-game" seja arte pelo mesmo motivo pelo qual acho que uma geladeira não o seja, por mais incrível que ela seja, assim como trocar os nomes das coisas - porque, infelizmente, em algum momento, há que se ajustar um nome ou outro, assim como uma geladeira; porque, diferente do que acontece com esta, a arte não trabalha com "obsolescência programada" - ela tem que, múltipla, durar nas mentes; nos imaginários.
Vejamos o marisco californiano de Eric Kandel (que nada tem com as meias), por exemplo. Um enorme neurônio em que Kankel observou que estímulos esporádicos causavam a exposição do cifão com que o bicho defendia-se, observando também que estímulos intermitentes correspondiam a um cifão que não mais se expunha, uma vez que a intermitência era entendida como partícipe do ambiente (o tique-taque do relógio que se deixa de perceber para não enlouquecer) – até a intermitência a longo-prazo, correspondendo, enfim, a rearranjos no núcleo genético do neurônio, que, no mais, mostrou-se terrivelmente parecido com o nosso, menor e integrado a emaranhados: nós, os grandes moluscos, só que menos simpáticos e nem sempre californianos... Enfim, algumas décadas científicas depois, nossa memória assim disposta: de trabalho (curta, “RAM” – quantos bichos...), processual (amarrar cadarços; escrever), declamativa (a seqüência presidencial brasileira), episódica (contar histórias)... Assim dispostas e assim entendidas: quanto mais se usa tal ou qual memória, mais ela se desenvolve, de modo que a lei do uso-desuso mostrou-se áurea para o cérebro: a duração, a contemplação, de modo que assim como vamos (pelo menos nas metrópoles), avessos a histórias, procedendo contas aritméticas banais em maquinetas, contrários a escritas um pouco mais bem acabadas – vamos trabalhando com alguma memória de trabalho, mais alguma processual voltada para o trabalho para terceiros, para que, obedientes mais do que inteligentes, a sociedade leve alguns de nós do berço ao túmulo.
É incontornável, portanto: há que se durar; há que se contemplar - duas manifestações opostas às vidas como vão indo, pois, do contrário, como ingressar nos mistérios das palavras, das cores, das luzes e sombras, das ações, dos crescimentos vegetativos, dos gestos, das realidades atômicas ou as atividades que exercemos a partir delas, das anatomias que abismavam Leonardo da Vinci... Enfim, pela sobrevivência da espécie, que, para continuar em termos enfadonhamente cerebrais, tem seu valor supremo no que faz pouco era tomado por erro: o múltiplo; mais especificamente, a multiplicidade de significados que se geram a partir de estímulos muito parecidos: dez, cem, mil, assim como a defende Gerald Edelman, baseado num curto ensaio de autoria de Charles Darwin. Que eu olhe para um quadro, e eu o note mais assim, para depois notá-lo diferente – quanta riqueza, no quadro, em mim, pois, afinal, não somos (pelo menos eu e mais alguns que conheço) algoritmos. Algoritmos: no que me tange, é assim que se querem, em vulgata, os 400 vocábulos com que têm trabalhado, em média, nossos doutos, dentro de sintaxes frouxas. Resisto, pois quero o mistério; as camadas. Quero ler uma frase e poder, depois, relê-la com gosto. Aqui, morrem objetivos e finalidades ou ganhadores e perdedores.
Contudo, como não prestar homenagem a todos os “blogs” que freqüento? Presto, “presto”, porque presto, sem, com isso, entrar em contradição com os fragmentos acima, por um motivo simples: é que acho que, assim como a prensa foi parteira de muita porcaria, foi parteira de maravilhas, de modo que não posso pensar diferente do “blog”, contanto que ele seja amigo dos fragmentos acima (o que é de um personalismo extremo, o que reconheço enquanto marisco grande), mais uma noção rudimentar: as histórias das linguagens com que eles trabalham não-ignoradas, mais uma vez por um motivo simples: não se inventa a roda duas vezes.
No mais, finalmente, esperando que, para faixas parecidas com que as pintei: música, “vídeo-game” (que seja “pausado” para que se contemple uma tela...), filmes etc. O desvio dentro da lógica massiva é inevitável – quero acreditar, ao menos, acreditando que "quem sonhou que a beleza passa como um sonho” e registrou-a em verso (John Keats) mereça atenção, uma vez que conferiu um par de séculos, além de pernas, a tal beleza.
Sem mais,
R.R.

Sobre a obra

Tenho ouvido falar de "video-game" como arte...

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Daniela Sá
 

Gostei.

Daniela Sá · São Luís, MA 23/4/2011 20:26
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maravestruz
 

Raul, Ruas por extensão... Estive numa lojinha de cd´s e dvd´s no Teatro do Rei, em Madri e chorei, copiosa e convulsivamente, quando vi as prateleiras de variadas edições dos títulos de qualidade artística musical, que corroboravam as teorias sobre o infinito e comparei-os com o modelo das biroscas de cachaça de minha cidade, Caiçara do Rio dos Ventos, no RN. Percebí, ali, que não havia mais tempo formal para fazer nada, apenas chorar... Enquanto isso, você navegava com Pessoa para entender o mundo. Vá em frente e esqueça as "calmarias", pois você precisa nos trazer o velocino de ouro... Parabéns!

maravestruz · Caiçara do Rio do Vento, RN 24/4/2011 09:56
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