Vilania
1.
“Pau que nasce torto, morre tortoâ€. Altamiro Carreiro parecia respeitar a máxima ao pé da letra; nada o fazia emendar. Por um rabo de saia, um afago no queixo, um par de coxas grossas, esquecia qualquer compromisso ou obrigação.
Por pouco já havia se livrado da cadeia, da surra de um pai enfurecido e de um enxame de abelhas africanas quando, tentando saltar pela janela do quarto de Jussara Canhão após ouvir os passos bravos do marido, subiu no galho de uma árvore, derrubando a colméia dos pobres apÃdeos, deixando-os sem lar e enfurecidos. Alérgico à picada dos insetos, Altamiro não passou desta para melhor graças ao fiel amigo médico, Dr. Pedro Paulo de Araújo Almeida, o Almeidinha.
__Precisas tomar JuÃzo Altamiro, um dia algum inimigo te pega desavisado e viras canja de galinha. – Advertiu o doutor durante uma das visitas ao consultório.
__Mesmo canja serei feliz, amigo velho. O que não posso é morrer frustrado. Tudo quanto tiver de fazer, farei. Respeito, só preciso ter à mãe, à memória do pai e ao amigo. Devo minha vida a estas três únicas pessoas. Não me esqueci que das vezes que me salvaste, além dos últimos apuros com as abelhas.
__Tampouco eu esqueci, meu amigo. Como deixar de lembrar a corrida que tomaste do bode do Coronel Orelana, o episódio da sua dÃvida de jogo que paguei com gosto, pois não tenho hábito de velar amigo jovem morto por besteira tão grande e ainda a vez em que se meteu na sacristia com a mulher do prefeito, beata Maria. Alegro-me por constar em tão diminuta lista. Mas acredito que está na hora de deixar de coisa de moleque, pensar em assentar na vida, já estamos com trinta anos.
__Mais um motivo para aproveitar, o tempo é curto, e urge.
__Por estar certo que o tempo urge é que resolvi me casar.
__Casar?! Mas como, onde e com quem? Nunca te vi de namoro com moça nenhuma. – perguntou Altamiro num sobressalto.
__Ofélia é irmã de um colega de faculdade, Serafim Henriques. Há alguns meses nos correspondemos; decidi que é a pessoa certa.
__ Decidiu? Mas, será mesmo? E lá existe o certo ou o errado nas coisas de coração?
__Existe, Altamiro. E Ofélia é certa, você concordará. Um anjo que esteve durante toda a vida sonhando com meu amor, como eu estive aguardando encontrar seus olhos de profundo azul.
Altamiro disfarçou a repugnância que a melosa conversa de Almeidinha provocou-lhe e se despediu dizendo esperar encontrar a tão especial moça em breve, o que segundo o médico, logo aconteceria, pois a noiva estava para chegar nos próximos dias. No Ãntimo, porém, desejava jamais por os olhos em semelhante criatura. Sua certeza, após falar com o amigo, era de que Ofélia representava a perdição de um homem de bem. Ainda que estivesse livre de tão triste destino, abominava que a idéia do casamento passasse pelo pensamento de seus amigos. O que agravava a situação era que tinha em Almeidinha o mais querido dos amigos.
2.
Quando recebeu a notÃcia da chegada da noiva do doutor, Altamiro passou a evitar as visitas ao consultório, que normalmente eram quase diárias. Não estava ali, pensava, para ver o amigo sucumbir a uma pequena alma açucarada.
O que não colaborou com os planos de Altamiro foi o fato de a cidade em que morava ser tão, tão pequena, que impossÃvel seria a quem quer que fosse, deixar de esbarrar com quem quer que não fosse. Assim, esbarrou, no sentido mais literal, transitivo indireto da palavra, em uma moça franzina, que atravessava a praça carregada de pacotes. Ao recolher mecanicamente a tralha espalhada no chão, o rapaz se perdeu num olhar profundo azul de onde só foi tirado ao sentir uma sacudidela.
__Já conheceu a Ofélia, Altamiro? Então, não era tudo que eu havia dito? – disse um animado Almeidinha.
Pareceu demorar mais do que meio minuto o tempo que Altamiro levou para recobrar os sentidos perdidos no azul do olhar de Ofélia. Pela primeira vez precisou muito esforço para evitar transparecer o que lhe veio á mente assim que entendeu que aquela moça á sua frente já possuÃa senhor e, que este era o seu melhor amigo. Sorriu o mais amarelo dos sorrisos, entregou os pacotes prometendo uma visita e, quase correndo, rumou para o bar, único lugar onde poderia encontrar abrigo à quela altura dos acontecimentos.
Ainda não era meio dia, mas Altamiro sentia que precisava beber ininterruptamente até á meia noite. Beber tudo e por tudo. E foi o que fez, sem dizer palavra, tendo sido carregado inconsciente à casa do doutor depois que o bar fechou.
Almeidinha estava acostumado às bebedeiras do amigo e não disse nada sobre o ocorrido, mas notou que Altamiro estava desconfortável na sua presença durante o café da manhã e não deixou de perguntar:
__Mas o que há com você afinal, que me evita há semanas e agora mal me olha nos olhos?
__Nada, só ando um pouco preocupado, uns problemas, nada que você possa resolver. – desconversou Altamiro.
__É coisa com mulher, tenho certeza.
__É, coisa com mulher. Mas não há de ser nada.
_-Espero que não se tenha metido em confusão.
__Não, ainda não. Nem vou me meter.
__Está certo, termine seu café, tenho que ir trabalhar. Venha mais tarde em casa, a Ofélia estará aqui.
__Hoje não posso, tenho compromisso.
__Está certo, mas apareça.
Altamiro não apareceu. Nem naquela noite, nem nas que se seguiram. Depois de muito pensar em seus princÃpios de vida e que se resumiam a fazer o que bem entendesse, decidiu lutar com as armas de que dispunha.
Durante as semanas seguintes passou a enviar cartas à Ofélia, revelando seu amor, mas não sua identidade. Eram cartas e mais cartas, todas sem remetente, entregues sigilosamente todos os dias na casa de pensão onde estava hospedada a noiva do amigo. Somente na trigésima segunda carta, Altamiro deu instruções ao portador para perguntar se a moça desejava enviar resposta. Quando viu o menino voltar com um envelope rosa chá nas mãos, soube que havia ganhado o embate. A ler o conteúdo, porém teve certeza que aquilo tinha sido mais fácil que tirar doce da boca de criança.
A carta de Ofélia era mais sentimental do que todas as que Altamiro ousara escrever, e revelava que, na verdade, casaria com Almeidinha por imposição da famÃlia e que sonhava com um amor verdadeiro. Altamiro respondeu somente uma semana depois, de modo a deixar Ofélia corroÃda de ansiedade, a trigésima terceira e última carta, que dizia:
“Ofélia, dona do olhar de firmamento,
Fujamos antes que seja descoberto nosso sentimento.
Encontre-me na estação amanhã por volta do horário do último trem.
Estarei trazendo um ramo de flores do campo.
Seu amor verdadeiro.â€
3.
Apesar de todos na pensão confirmarem o recebimento das cartas e dos freqüentadores do bar terem afirmado que, bêbado, Altamiro chamou por Ofélia muitas vezes antes de desmaiar, Almeidinha custou a acreditar que noiva fugira com seu melhor amigo. Uma vez curvado aos acontecimentos, sofrido com a dor da infâmia, fechou o consultório e decidiu partir em longa viagem. Somente meses depois, mal curada a dor e já de volta à cidadezinha, recebeu notÃcias dos traidores. A carta veio de Serafim Henriques, seu ex-futuro cunhado e em nada alterou o que sentia ou pensava quando lembrava do caso.
Amigo Pedro Paulo,
Durante meses estive à procura do paradeiro de minha ingrata irmã, pessoa que sempre julguei conhecer, mas que, de fato, jamais soube quem é. Escrevo para informá-lo dos últimos acontecimentos. A pobre foi abandonada pelo infeliz Altamiro Carreiro sem piedade, passadas algumas semanas da fuga. Está pálida, magra e arrependida até a raiz dos cabelos, coitadinha, e só sabe fazer chorar e chamar pelo nome do amigo, maldizendo sua sorte.
Nossa famÃlia sabe que é inútil pedir-lhe o perdão, pois não há homem que possa perdoar o que foi feito. Desejamos apenas que esteja a par do ocorrido, estimando que esta carta o encontre bem de saúde.
Nossa mais elevada estima e consideração,
O amigo fiel,
Serafim Henriques
Altamiro Carreiro é amante das aventuras e as leva as últimas conseqüências. Ao se deparar com o único dilema moral que julga razoável considerar o conto acontece.
Sobre sua escrita não preciso dizer que sou admirador de longa data. Começando assim no Over, espero que seja recepcionada com o apreço e admiração que merece.
Com esse conto, especificamente, me identifico pela época em que aparenta se passar, com os nomes pouco usuais e com a fluência com que é narrado. Muito bom!
Meus votos e meu carinho!
beijo no coração!
Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro (RJ)
Vilania
Um texto agradével e impressionante que prende a gente na leitura até o final.
Admirável.
Tem muito merecimento.
Parabéns.
Abracáo Amigo.
muito bem elaborado o texto.votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 2/8/2008 22:51
Vanessa,
que conto!
Flui coerentemente e nos cativa até o final
Gostei!
bjsssss
Viu? Sabia que iriam receber você muito bem. Mais pelas suas qualidades de contistas do que por apenas puxa-saquismo.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 3/8/2008 01:15
Parabéns,
Meu voto pelo lindo trabalho
Venha conhecer meu trabalho ok
Edson Rufo
.
Adorei!
Um conto maravilhoso! Espero ver muitos mais destes por aqui!
Aproveito e convido pra me fazeres uma visita:
http://www.overmundo.com.br/banco/urbano-iii
Texto envolvente,segura o leitor. Eu diria,literatura classuda!!! Legal.kkkkkk
bjs
ND
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