Sou visceralmente súdito do império;
mas meu coração sangra pela república.
Na carne que as engrenagens da metrópole fincou feridas; trago cicatrizes de sonho e desilusões:
do mofado quarto 3x4,
do desconforto do beliche desarrumado,
do encardido da fronha no travesseiro,
do guarda-roupa de meia porta,
do espelho desbotado na parede
da escrivaninha de tampo de vidro,
do odor rançoso de bitucas no cinzeiro,
do violão que o tempo emudeceu, e
da janela que dava vista para o paraíso.
O oxigênio desses meus dias,
que tanto me mata quanto vicia,
não foi capaz de turvar a fuligem impregnada na memória, e azedar as doces lembranças que guardo da “Terra da Garoa”.
Hoje, vivo do que amealhei no paraíso:
memórias de um gozo adolescente
fecundando as brancas e férteis cochas
da moça que chegou de Santos
para se empanturrar nos rodízios de pizzas, e
viver o vadiar pelas esquinas,
brincar de carrinho de mão,
engravidar a silhueta do corpo,
desvendar os mistérios do coração.
Se a república tem sede e endereço
só pode ficar lá pras bandas da PENSÃO do Senhor OSWALDO, rua Toneleiros, 171.
Antonio Virgilio de Andrade
Cantares
CANTARES
Muito bom!
Realmente "visceral"
As imagens poéticas são vivas!
A linguagem, bem trabalhada,
revela bem a realidade.
Meu voto!
No é-terno,
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