Visto assim do alto - conto

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Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
8/3/2007 · 100 · 2
 

A CHAPA TAVA QUENTE na comunidade do Cantagalo. A rapaziada do contexto tava puta. Os vermes tavam na atividade na subida do morro há três dias e o movimento tomando bola direto. Maurinho não escondia o nervoso. Pô, afinal ele tinha um montão de farinha pra vender e os pão-com-manteiga de butuca acesa dia e noite... Por isso ele foi ao baile funk àquela noite e cheirou muito, fugindo do costume, que ele só fumava, dizia que pó era pra otário. Mas naquela noite queria ficar doidão mesmo, daí mandou ver. Quando Mary chegou lá pelas onze, já tava meio chapado, e até ofereceu um tequinho pra mina, mas ela recusou com jeito.

— Aí, filé, meu negócio é veneno, tu sabe... – disse ela, simulando um brinde no vazio.

Ana Maria era uma patricinha purpurinada lá do asfalto, 17 anos, toda style, com boné e calça da Gang, ligadona em funk e que estraçalhava no inglês, daí o apelido Mary, Mary Carey, referência a seus atributos físicos e à atriz pornô americana, não à cantora pop Mariah, como pensavam alguns. Os pais lhe davam de tudo, mas pirou legal ninguém sabe por quê. Pai, mãe, namorado, ibeu, apê em Ipanema, casa de praia – jogou tudo pro alto e se mudou de mala e cuia pra comunidade. Conheceu Maurinho fazia uns quatro meses lá no baile do Chapéu Mangueira. Ele era um tremendo arroz, não se ligava em ninguém, mas não resistiu ao charme da mina e aparou uma rabiola com ela logo que se conheceram. Desde então, ela colou nele. E ele nela. Que nem arroz e feijão mesmo. Mas eu avisei pra ele:

— Aí, parceiro, abre o olho. Essa mina é mercenária...

— Qual foi, Perneta, tá me zoando? A mina é sangue-bom, tá ligado?

— Perneta é o caralho! Já te falei pra me chamar de Jorge! Eu sou aleijado, porra!?

Maurinho Capeta era foda. Ele me chamava assim só pra zoar. Ele sabia que eu não gostava. Mas me chamava assim desde moleque, só porque lá na pelada do rala-coco eu jogava na direita, mas só chutava com a esquerda. A direita era cegueta mesmo, daí a galera toda me zoava: “cruza, Perneta”, “toca a bola, Perneta”... Nunca gostei mesmo. No máximo eu admitia Jorge Perneta... Porra, eu tenho família, tenho nome: Jorge Santos. É nome de santo, santo guerreiro. Como meu velho, seu Jorge da Birosca, que Deus o tenha... Bom pai, honesto, honrado, trabalhador... assassinado por um alemão do Dendê, por motivo à-toa: futebol. Quer dizer, futebol e cachaça, né?, porque o X-9 só deu seis tiros no velho porque tava muito doido. A cada tiro, gritava: “Zico”, “Adílio”, “Leandro” e ia desfiando o nome de cada um que marcou na goleada. Ainda vejo o resultado piscando no placar do Maraca: Flamengo 6 x 0 Vasco. Porra, com esse placar, ele queria o quê? É claro que meu pai, mengão doente, zoou pra caralho o mané – como ele ia adivinhar que o maluco era doido mesmo!!!? Num gosto nem de lembrar, que fico assim, ó, arrepiado, meio de emoção meio de raiva mesmo do filho da puta. Foi a única vitória do Flamengo que ninguém no morro comemorou. Foi uma goleada sem foguete, sem festa, sem birita. O enterro do velho não me sai da cabeça: o caixão descendo enrolado no manto glorioso e o morro todo cantando o hino. Papai era muito querido, que nem o Flamengo, tá ligado? Mas vou te falar, irmão, esse jogo ainda não terminou não. Juro. Pode escrever, tô sempre ali no Baile do Dendê, lá no meio da poça, no Cocotá, e no dia que a gente se cruzar, eu e o alemão, mesmo que seja no inferno, eu acabo com ele: pá, pá, pá, pá...

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Nivaldo Lemos
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arlindo fernandez
 

salve comprade!
Experiência e critividade.Taí uma narrativa contundente que somente Nivaldo Lemos, por ser poeta e escrevinhador, poderia nos dar...
Ficamos sentados ali no alto do morro dividindo a mesma paisagem, o mesmo destino. “Visto assim do alto, mais parece um céu no chão...”, (isso é coisa de nobel de literatura).
Meu amigo,seus contos são fantásticos.Sempre
saudações pantaneiras

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 7/3/2007 09:20
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Nivaldo Lemos
 

Salve, Arlindo, e obrigado.
Mas menos, amigo, menos...
Um forte abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 7/3/2007 10:40
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