Picar a banana silenciosa
a maçã gelada como um deus morto
a goiaba a pera as passas já murchas
antecipando na doçura concentrada
o que há de vir de repente
O leite frio e branco
de mármore e chuva e vento
de uma tarde esquecida de outono
as farinhas as aveias tudo já pó
(como o tempo esfarela o momento!)
O liquidifica-dor estremece
e faz seu trabalho impassível e feroz
como se esperasse de nós
olhar de aprovação
O telefone toca
desliga-se a máquina
depois de momentos
o que havia de frescor nas frutas no leite
e nos farelos desagrega-se decompõe-se
num sabor estranho de mortália das coisas
esquecidas abandonadas ao tempo de si.
Toda a questão é o tempo.
Os chicletes as balas as salivas
as águas as flores as velas
os amores as lembranças as carnes
tudo despenca no abismo das horas.
Que dia é hoje?
Tempo de comer uma fruta fresca
Mascar um chiclete bem doce
Ler aquele livro que espera sozinho
abandonado e triste quase pó
Antes que nada mais tenha tempo
para encontrar um pequeno momento
que faça sentido
que dê um sorriso
Renovar a saliva
Explodir o cimento
o peso as vigas
do tempo.
Tempo de negar-se a si mesmo e deixar-se levar ao vento... a engrenagem moendo, a mó moendo, o dia moendo, a dor moendo e a gente virando pó... (tô q só o pó da rabiola) rsrsrsrsrsrsrsr
Muito bom o seu texto, maravilha! Bravo!
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