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VIVER DA VIDA REAL

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Inês de Sampaio Pacheco · Brasília, DF
3/2/2009 · 128 · 17
 

Fernando Pessoa declara ser o poeta um fingidor. E o artista dos palcos e telas representa personagens. Personagens tomados à vida real pelo dramaturgo. O fato é que toda a arte é um imitar da vida real; e vive da vida real.

Cabe investigar até que ponto a arte é uma honesta imitação da realidade e quando passa de imitadora a usurpadora. Pois exatamente neste ponto se dá a fermentação do drama do artista, do poeta, do dramaturgo, do escritor, do pintor e todos os demais imitadores da vida. Neste ponto específico arma-se o cenário do pecado original da arte, em que o artista pretende enganar a si mesmo e ao mundo a respeito de sua condição de criatura para assumir a pose de Criador e a real condição de impostor.

O drama do impostor envolve a angústia da impostura. Esta implica em constante medo da queda da redoma de endeusamento, onde é colocado pelos admiradores e público, a partir da descoberta da farsa. Pois o impostor pulsa ao ritmo da mendacidade. Ainda que todos não alcancem ver, ele definitivamente sabe e conhece as entranhas da mentira que alimenta e de que se alimenta. E por outro lado, o assédio incrementa o constante angustiar-se, já que impõe um indefectível enfrentamento com o barulho da bisbilhotice e incessante vigilância pública.

Daí que, vez por outra, a mídia nos surpreende com a notícia de que a pop star tal é gravemente viciada em drogas. E que o cantor tal, idolatrado por uma legião mundial de fãs, cometeu suicídio. O bom senso atesta que não se pode fingir a vida inteira, o tempo todo, inclusive para si mesmo. É mesmo um osso do ofício vorazmente insustentável.

E a impostura incide fundo no âmago do mais sagrado do ser: ao artista é preciso, além de fingir que a interpretação é um dom inaccessível ao comum dos mortais idólatras (e como diz meu filósofo de direita preferido, Olavo de Carvalho, isso é uma falácia, já que fazer caras e bocas e imitar sensações e emoções é um carisma natural em crianças e nas pessoas em geral; e requer apenas um treino ordinário para ser afinado); que o canto e a música popular (já que os eruditos sim, exigem mais esforço e dedicação) é um dom raro; que a poesia é resultado da espontânea inspiração e não dos esforços de educadores e genitores dedicados (e nesse caso o poeta é devedor de todo um povo cuja labuta é condição para que uma elite possa se dedicar às letras e ciências) -, é preciso ainda, por motivos de marketing pessoal, agir como se lhe fosse permitido cultivar uma vida de instabilidade afetiva, de troca de parceiros, de atenção dividida aos filhos, como se nada lhe viesse a ser cobrado, como se a felicidade lhe fosse garantida, como se os conflitos não lhe atingissem. Uma perversão atual que grassa no mundo dos astros. E tem feito muitas vítimas, como é notório.

E o público, os idólatras, enganam-se e são enganados sobre o dever do culto... A eles é que se deve gratidão, mais que culto. A eles deve-se a verdade nuclear: mais que acenos, beijinhos e agrados periféricos. A eles é preciso fazer a confissão cabal, a exposição da nudez da humanidade e vulnerabilidade do suposto ídolo - infeliz, em conflito, inseguro, insano...

O artista agoniza em praça pública "com um sorriso no rosto e uma lágrima no olhar". É a apologia da esquizofrenia. Um turbilhão em que ninguém se encontra, nem o ídolo consigo mesmo ou com os idólatras; nem os idólatras com a delícia de ser único, com talentos próprios e inconfundíveis: um bouquet de aroma incomparável e irrepetível, colhido da infinita criatividade do Artista Supremo. E por isso mesmo, fonte de toda a arte, que vive do cotidiano suado dos anônimos.

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José Cycero
 

Amiga de tanto espetacular este texto denso e profundo adquiri ipso facto o valor de quase um postulado. Valeu... folgo em saber que a figura do nosso Zé Sozinho te inspirara a produzir tal pérola. Abraços. Que Allá te proteja e ilumine sempre e sempre.

José Cycero · Aurora, CE 30/1/2009 23:29
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

texto belíssimo, parabéns amiga poetisa.
depois eu volto.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 31/1/2009 11:00
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José Carlos Brandão
 

Não acredito na angústia da impostura (como não acredito "ipsis literis" na angústia da influência de Bloom). O artista sabe que precisa enganar (fingir) para dizer a verdade. Importa a autenticidade da emoção. O que, por outro lado, leva-o a sofrer mais. "Chora, coração, tristíssimo palhaço."
No entanto, bem oportuna reflexão. Parabéns.
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 31/1/2009 11:31
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Claudia Almeida
 

Inês,

O artista se encontra, mesmo com desordem social e desumano em que vivemos externamente ou internamente com tratamento caps, temos o exemplo da grande obra de Nise da Silveira, para os transtornos...penso que os profissionais se escondem diante do opressor, muitos não venceram a barreira do medo.
Gostei da postagem grata por me chamar,bjs.

Claudia Almeida · Niterói, RJ 31/1/2009 16:15
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joe_brazuca
 

joe_brazuca · São Paulo, SP 1/2/2009 22:11
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lady sophie
 

"com um sorriso no rosto e uma lágrima no olhar". Coisa que somente os artistas fazem com maestria, assim como seu texto que deslifa elegancia.
Parabens querida, como sempre meu voto e minha eterna admiração!
beijos, muitos beijos

lady sophie · Porto Alegre, RS 2/2/2009 08:53
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Ailuj
 

Um texto profundo e de reflexão
Ainda não conhecia seus escritos e adorei ler você
Um beijo

Ailuj · Niterói, RJ 3/2/2009 00:08
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

votando.abraçosssssssssss

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/2/2009 09:27
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peninha
 

(que assunto fantástico)

Não sei quem disse uma coisa assim:
"A arte existe porque a vida nâo basta"

voce diz que :
"Cabe investigar até que ponto a arte é uma honesta imitação da realidade e quando passa de imitadora a usurpadora" .

Eu penso que :
Se ela de alguma forma "imita' ela "usurpa" e, se ela "usurpa" ela não é "honesta".

Por outro lado , voce completa:
"... implica em constante medo da queda da redoma de endeusamento, onde é colocado pelos admiradores e público...,
Correto.
Então a investigação deve mudar seu foco (no meu modesto enteder).
Se o artista farseia, imita, engana, fato aceito, comprovado, então deve haver uma estreita faixa, uma margem de interpretação, de criação, de apresentação desta realidade que o público se permite deixar ser enganado e a aceita como se realidade, presumivel relidade ou mesmo impossível realidade fosse.

O que estiver fora desta margem nos seus extremos, será descartado, execrado.

Caberá ao artista identificar esta faixa de atuação.

E cabe ao investigador prospectá-la.

O assunto é fascinante.
Parabens por provocá-lo.

peninha · Butão , WW 3/2/2009 11:23
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Robson Coelho
 

Uma boa análise do papel do artista e como ele pode adquirir uma série de problemas por estar vivendo uma vida de fantasias. Pois todos nós sabemos que uma mentira mesmo que bem elaborada não dura tanto quanto uma verdade, e além disso pode trazer resultados horríveis para vida. Muito boa sua análise é preciso saber encenar mas é preciso saber deixar isso apenas nos palcos, pois essa fantasia uma vez extrapolada para vida real pode trzer sérias consequencias. Votado.

Robson Coelho · Trindade, PE 3/2/2009 11:39
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Inês de Sampaio Pacheco
 

Queridas overmanas e queridos overmanos,
Ando correndo muito e sempre que tenho um tempinho passo para me deleitar com a presença de vocês em meu modesto espaço. Obrigada pelos comentários, sempre muito bem vindos e carinhosos. Beijos e abraços.

Inês de Sampaio Pacheco · Brasília, DF 3/2/2009 12:11
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Cláudia Campello
 

o artista (bom) é tao louco q acredita até em seus devaneios, né?

eu adoro a loucura dos poetas e me junto a galera e aplaudo \o/

bjsssssssss

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 3/2/2009 12:56
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delen
 

Vindo lendo e gostando muitoooo , parabéns . Beijos...

delen · Cotia, SP 3/2/2009 13:02
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Inês de Sampaio Pacheco
 

Querida Cláudia e querido Delen. Muitíssimo grata pelos comentários e votos. Bjs.

Inês de Sampaio Pacheco · Brasília, DF 3/2/2009 17:54
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  Gorete
 

Texto profundo e belissimo!
Desculpe o atraso qrida; estou viajando e com pouquissimo tempo disponivel!
Rapidamente passei para visitar vc , deixar meu voto e meu abraco!!!

Gorete · Ipatinga, MG 18/2/2009 16:00
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Inês de Sampaio Pacheco
 

Ando com problemas com a rede e também viajando aqui e ali. Não se preocupe. Um beijo e grata, querida.

Inês de Sampaio Pacheco · Brasília, DF 18/2/2009 21:39
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SABINO MARQUES
 

Desculpe ter chegado atrasado pra dá minha partição e contribuir pra mandar seu texto pra publição... mas a verdade é q o texto é tão real, que nem precicou mesmo da minha interferencia... VOTO NESTE, MESMO EM ATRASO, E VOLTO A TEMPO PRO PROXIMO!...
BJOSSSS

SABINO MARQUES · Itaituba, PA 19/2/2009 10:27
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