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Acordou naquele dia decidida a mudar. Sempre quis que sua mudança coubesse num Jeep, para acordar de repente, como naquela manhã, fazer as malas e partir. Acontece que durante anos vinha acumulando registros da sua pequena fração do mundo. Suas revistas, e poemas e fotografias. Som, TV e DVD e a cama Box? O que faria dela? Suspirou fundo. Não cabia. Mas a vida toda tinha almejado sobreviver de maneira simples. Nada a carregar além das memórias que, seletivamente, deletara. Sorria ao imaginar seu cérebro como um imenso queijo suíço em tiras. Cheio de buracos. As lembranças que não queria mais carregar haviam deixado buracos nos seus lugares, como a dizer que sempre estariam presentes na ausência. Sorriu daquela idéia bizarra.
Cansada daquela mesma vida, passar pelas mesmas ruas, sofrer com o calor insuportável no Corsa quatro portas sem ar.Não tinha um Jeep, nunca conseguira comprar um. Ninguém deixava. Os argumentos eram sempre os mesmos: “Jeep é casamento, compra e depois não consegue vender”. Fazia pelo menos 15 anos que ouvia a mesma ladainha. E agora, beirando os 40, percebia que nunca tinha cometido algumas irresponsabilidades que a teriam feito mais feliz. Por exemplo, ter um Jeep. Mesmo que não pudesse ser aquele traçado, importado, lindo. Jeep era sinônimo de liberdade e afinal rimava com estradas, todo tipo delas. Nunca tinha comprado um. Parou estarrecida. Quis fazer um breve balanço de todas as decisões dos outros que acatou na sua vida por julgar que eram afinal sensatas. “Putz, mas joguei dinheiro fora com tantas outras coisas”, pensou, balançando a cabeça.
Levantou-se decidida a fazer outro caminho naquele dia, e a comprar um celular novo, cheio de funções. Tinha um “pé duro”, com 100 lugares na memória. Detestava aquilo. Sempre deletando alguém pra acrescentar um outro nome. Queria outra vida, urgente. Outro carro, outro telefone, outra locadora, outra cidade. Mesmo que fosse dentro da mesma cidade. E... ah, queria outros amigos. Adoraria encontrar os velhos amigos blasés e olhar pra eles com um ar de indiferença, como quem diz: "nossa!! Eu lembro de você de onde mesmo?” Sorriu antecipadamente saboreando a reação. A verdade descoberta aquela semana, dias antes, no seu aniversário, é que pouca gente a quem chamava de amigo, e esperava ouvir algo interessante, tinha ligado. Então, que tal um mundo novo, uma realidade nova. Que tal outra cidade?
A idéia ruminava em algum lugar da sua mente enquanto se vestia. Também estava cansada das roupas. “Acho que vou querer uns tênis novos, e andar de tênis, sandália de lona, só coisa confortável” – pensou, olhando as caixas de scarpins na prateleira. Terninhos combinando com eles estavam no armário. Mas naquele dia não usou nenhum. Queria um macacão, ou jardineira. Não tinha. Outra coisa que quis muito comprar e nunca. Quem sabe agora. Desceu as escadas cheirando uma essência de águas marinhas. Não carregou nada. De repente, teve um estalo, e subiu de volta correndo. “Onde você vai?” ouviu chamar. “Pegar umas umas roupas pra deixar na lavanderia” – respondeu. Abriu o guarda-roupa apressada. Juntou camisetas e dois jeans. Deu um “limpa” na gaveta de calcinhas. Deixou a escova de dentes. Compraria uma nova.
Debaixo do primeiro colchão retirou o envelope. Devia ter uns três mil reais. Escondidos dela mesma para emergências. Sorriu. Juntou os dois porta-cds. E dois tênis. Chinelo tinha um no carro. Sentiu um aperto no peito. Era muita coisa para deixar pra trás. Mas, não estava a fim de pensar. “Beijo, fiquem com Deus”, gritou antes de sair, como fazia todo dia.
Dobrou a esquina de olho no marcador de combustível. Ainda atendeu uma ligação no celular. “A senhora demora a chegar? Tem um relatório aqui pra assinar” (...)
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