Logo no primeiro ano de colégio fiz ballet.
A roupa das bailarinas tão linda!
Tudo parecia tão leve...
Não aos pés.
Cansei.
Mudei de idéia
Ah! Capoeira!
Se jogar no chão, passar rasteira, bater palmas...
Durou um tempão.
Só que o Tito luta judô e disse que é o máximo.
Mudei de idéia
Futebol da rua com as meninas.
E não venha me dizer que é coisa para os meninos
A Seleção Brasileira está aí para desmentir.
Microfone e 'karaokê".
É cantora que eu quero ser.
Só que se o grupo ganha gente,
pai, tio, tia, querendo ver,
mudo de idéia no primeiro compasso,
como não poderia deixar de ser.
Vou ser cabelereira,
minhas bonecas ficam lindas!
Nunca reclamam.
Meu primo também já decidiu:
Por enquanto, vai ser piloto de corrida.
Pronto!
Tinta, lápis, papel:
Desenhista
Um jogo novo de montar:
Engenheira
Uma câmera na mão:
Jornalista
Num segundo, médica, dentista
No outro, artista.
Minha professora diz que posso ser o que quiser,
o que sonhar...
O tio do Tito diz que ele não quer nada com a vida.
Que não leva a vida a sério.
Preocupei-me
O que vou ser quando crescer?
???????????????????????????????????????????
Pensei até a cabeça esquentar.
Mudei de idéia.
Resolvi não pensar.
Falta muito tempo.
Até crescer vou mudando:
de roupa,
de tamanho,
de canções,
de fotos,
de figurinhas,
de livros,
de cabeceira.
De mudança em mudança,
esse gostoso jogo de descobrir...
Quem sabe encontre
esse tal levar a vida a sério
de que tanto se fala.
Ou quem sabe encontre
outra forma de levar a vida
que tenha tantas formas e cores
quanto eu conheci no caminho...
Mudando de idéia.
Este é um texto leve e bem humorado que fala de se ter a infância como período de experiências. Da angústia que os adultos criam quando impõem rotinas, quando querem seriedade e escolhas precoces. Estão, por pecar por zelo, privando o futuro adulto de experiências que fazem toda a diferença.
Não somos mais ermitões no alto da serra, não existem mais caças para todos, a moradia está pela hora da morte (mesmo a última morada)... Não podemos nem mais brincar de deixar pra depois.
Legal o poema, tem um "quê" drumoniano no meio, o cotidiano gerando poesia.
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