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A Beat Generation e o aprendizado na highway
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?A estrada é a vida.?Jack Kerouac no livro On the Road (1957)
?Todo mundo é sério menos eu.
Passa pela minha cabeça
Que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho?Allen Ginsberg no poema América
Nem todos estavam satisfeitos com o ?estilo de vida americano? (american way of life ), nem todos estavam contentes com a prosperidade consumista da Era de Ouro do capitalismo. O desconforto do poeta flanêur ganha estrada nos EUA do pós-guerra através de um grupo de jovens que buscava desvendar a verdadeira América (ou ser devorado por ela) através da literatura: era a geração beat.
Para Elio Gaspari ?a juventude, criada na prosperidade, desenvolveu um ?complexo de ilegitimidade?, flagelando-se por privilegiada e redimindo-se em propostas de combates às injustiças sociais.(1) ?. A visão de Gaspari serve bem para falar dos hippies, mas não me parece a mais adequada para os beats, já que, eles cresceram entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial e, seriam parte ainda da chamada Geração Perdida ? nas palavras de Jean-Paul Sartre ? que guardava resquícios da angústia, do abandono e do desespero daquele período (2) .
Pode-se falar em dois grupos beats: o primeiro teve origem em Nova Yorque na década de quarenta, com uma poesia urbana na qual narravam experiências próprias, num linguajar que vinha diretamente das ruas e criticando os valores instituídos e a cultura oficial; nesse primeiro grupo estavam nomes como Jack Kerouac, Allen Guinsberg, Willian Boroughs, Gregory Corso, entre outros.
Quando Kerouac e Guinsberg se mudam para San Francisco na década de cinqüenta encontram e influenciam outros poetas e artistas que expandem a ?visão beat? para outras áreas, como a pintura e a escultura, e também desenvolvem a temática apontando para além do ambiente urbano: então o beat se tornava verdadeiramente um movimento. Nesse grupo de San Francisco estavam Lawrence Ferlinghetti, Gary Snider, Normar Mailer, entre muitos outros.
Por meio de recitais gratuitos em bairros periféricos, para um público repleto de negros e latinos, os beats começaram a tornar-se conhecidos a partir de 1955.Numa época marcada pela censura anti-comunista do marchatismo, os beats tiveram que enfrentar a postura conservadora da sociedade norte-americana: Lawrence Ferlinghetti foi acusado de promover pornografia ao publicar o livro Howl and other Poems de Allen Guinsberg. As batalhas judiciais e os debates foram longos e avidamente acompanhados pela imprensa o que gerou uma grande publicidade para os beats. A vitória dos beats foi acompanhada de novas publicações que se confrontavam com os valores vigentes na sociedade norte-americana, resultado: novos processos e mais divulgação para a literatura beat.
Juntamente com a popularidade da literatura beat ocorreu uma espécie de pressão, muito comum por parte da crítica, para que se definisse o que era o movimento: essa é a forma pela qual o estabilishment domestica e limita os movimentos culturais. A razão é simples: domesticada ela poderia ser mais um produto na estante.
Para Clellon Holmes o movimento beat seria uma versão americana para o existencialismo europeu. Realmente, o ?estar jogado? da filosofia existencialista, o estar-a-caminho, definido como a essência da filosofia para o pensador alemão Karl Jaspers, pode muito bem ser comparada com a postura de Jack Kerouac, que afirma em On The Road que ?a estrada é a vida?. Para Holmes a essência da postura beat não é o fato desses escritores serem vistos como ?vagabundos boêmios que criticam os valores instituídos?, mas na ação de ?buscarem?, de ?procurarem?. Esse ?buscar? seria um traço de espiritualidade, de beatitude. Jack Kerouac via nos beats: andarilhos solitários e solidários que peregrinavam pela América em sua busca. Os traços de individualismo e alienação da postura beat são romantizados nas palavras de Kerouac e Holmes.
O ?caminho da beatificação? da geração beat passava pelas religiões orientais e seguia pela highway: ?se referia a um estilo de vida aventureira adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se do american way of life. (3)? .Com e contra o ?estilo de vida americano?, desenvolvido naquele período áureo do capitalismo, os beats se aproximam do zen-budismo crentes de que ?uma vida de riqueza e prazer é uma existência vazia e sem sentido(4)? , por isso, assim como Buda, abandonaram tudo e partiram para uma vida de andarilhos em busca da ?iluminação?.
A idéia budista de que todo o sofrimento humano se origina do desejo acaba por levar os beats a defenderem um ?desenganjamento em massa?, ou mesmo, a ?inércia grupal?(5) . Tal posição ratifica o individualismo e a indiferença política, assim como dialeticamente, apontam para a busca de uma forma alternativa de vida, numa sociedade movida pelo desejo de consumir.
A popularização da cultura beat marcava os traços da nova geração de jovens de década de cinqüenta: apondo-se aos squares (?os caretas?): eles eram como ?negros brancos? , como bem definiu o escritor Norman Mailler. Esse novo grupo também se opunha aos valores da sociedade consumista e preconceituosa, e viviam à margem numa atitude de revolta, numa atitude que era admirada por Mailer pela coragem de aceitar os desejos ?de se desligar da sociedade, de existir sem raízes, de empreender uma viagem sem rumo pelos rebeldes imperativos do ego. Em suma, seja ou não uma vida criminosa, a decisão está em encorajar o psicopata que existe dentro de si mesmo, de explorar aqueles domínios de experiência em que a segurança é tédio e portanto doença (...). (6)? Seja através das costeletas de Elvis Presley, seja por meio das jaquetas de couro imitando James Dean essa nova postura ganhava espaço. O nome dessa nova geração de inconformados foi retirado diretamente do poema ?Howl? de Allen Guinsberg: denominavam-se hipsters.
A trilha sonora do movimento beat originariamente era o jazz: Jack Kerouac chegou a comparar o som do trumpete de Miles Davis com ?longas sentenças escritas por Proust(7)? . No entanto, na década de 60, o encontro entre rock e beat produziria resultados grandiosos: a cultura beat se somaria as drogas pesadas a ao rock dando origem ao movimento hippie na década de sessenta. A formula seria: beat + drogas + rock = hippie. A influência da geração beat para o rock é inestimável: Bob Dylan, Rolling Stones, The Clash, David Bowie, Lou Reed, Kurt Kobain, estão presentes na lista de seus herdeiros. Pode-se dizer que, no plano geral, o movimento beat foi um dos responsáveis pela grande mudança nos padrões de comportamento e cultura que ocorreu nas décadas de 50 e 60.
No Brasil, no começo dos anos 60, Jorge Mautner, com sua Mitologia do Kaos (Deus da Chuva e da Morte, Kaos e Narciso em Tarde Cinza) fez repercutir a obra beat em nossa literatura. Depois o pensamento beat foi dissolvido e reapareceria como fonte de inspiração para artistas diversos, como os compositores Caetano Veloso, Raul Seixas, Cazuza, Renato Russo, Humberto Gessinger,
etc.
Notas:
(1)Gaspari, Elio. A roda de Aquarius in: A Ditadura Envergonhada/ São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Página 214.
(2)O que é ser Beat? http://whiplash.net/forceframe.html?/especiallist.mv?rec=358
(3) Brandão, Antonio Carlos. Movimentos Culturais de Juventude/Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte. São Paulo, Moderna, 1990. Página 26.
(4) Gaardner, Joestien. O livro das Religiões. Pág. 52.
(5)http://www.joplin.hpg.ig.com.br/princ_introducao.htm 09/03/04
(6)Pereira, Carlos Alberto. O que é contracultura? Col. Primeiros Passos ? Nova Cultural/Brsiliense, 1983. citado em http://www.joplin.hpg.ig.com.br/princ_introducao.htm 09/03/04
(7) Bivar.A. O que é punk? Pág. 15.
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