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ANALOGIA E IRONIA (1): Engenheiros do Hawaii:da engrenagem à mandala
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Analogia e Ironia. Lógica Catatau. Octavio Paz anunciou a importância dessa dupla na construção de um pensamento na América Latina. Ou na pós-modernidade? Ou na hipermodernidade? è preciso analogia, comparar e construir semelhanças, lincar. è muito mais ironia: essa negatividade que seca os excessos, que ri e traz o contraponto cético. Inventamos metáforas: inventamos sínteses. Inventamos saídas?!?!? Não quero perder a negatividade: ainda preciso entender isso melhor...
Trago aqui um primeiro texto dessa que pretende ser uma série...trata-se de um texto sobre os Enegenheiros do Hawaii, banda que muitos adoram detestar, outros detestam adorar, outros ainda ficam só com uma das opções...Aviso de Magritte: isso não é filosofia. Nem precisava avisar!....dá pra entender! Talvez nem tanto; tem muitas referências que remetem aos álbuns dá banda...mas dá pra pensar algo..talvez.
Das Engrenagens às Mandalas
?A serpente come a própria cauda.Mas é só depois de um longo tempo de mastigação que ela reconhece no que ela devora o gosto de serpente. Ela pará, então...Mas ao cabo de um outro tempo, não tendo nada mais pra comer, ela volve a si mesma...chega então a ter a cabeça em sua goela. É o que se chama ?uma teoria do conhecimento??Paul Valéry, Ébauche d´un Serpent.
A serpente que engole a própria cauda: a contracultura alimenta a indústria cultural. Engrenagens do sistema impessoal. O palhaço deve aprender a rir do próprio riso, deve representar seu papel para ser ele mesmo o palhaço. Paradoxos existencialistas: os dois lados da moeda; liberdade e angústia, autenticidade e má-fé, reticências. O conflito não se resolve: o homem está lançado no mundo e tem que lidar com suas circunstâncias; ele é o que faz e por isso se angústia: porque é livre. Não há sentido pré-estabelecido. Não há hospitalidade, nem lar: o homem é estrangeiro ( e se sente assim). Contradição: o dândi zen protesta ateando fogo às próprias vestes.
As engrenagens começam a rodar. É a Revolta dos Dândis e a mesma dialética (luta de opostos ) sem solução, o mesmo estrangeirismo. Se não existe hospitalidade continua a existir o caminho e Jack Kerouac avisou em On the road: a estrada é a vida. Como beat(tle), beatnik, somos um sputinik em busca de sentido. Estar à caminho é filosofar. Já existe consciência estamos andando em círculos. Chamamos esse círculo engranagem. A engrenagem move o sistema, a máquina que faz do artista produto que deve ser consumido pelo consumidor (que se consome se não consumir). A serpente que engole a própria cauda.
A estética é a repetição e a repetição faz o gosto (o ?gosto? e o ?não gosto? quando se coloca a questão). As rimas na antiguidade tinham poder mágico, encantatório. Mantras. Slogans da publicidade. Refrão para a canção. A repetição faz-se método e denuncia a repetição: Ouça o que eu digo: não ouça ninguém. Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter....ter? A serpente que engole a própria cauda.
(Alguns já levantaram críticas negativas quanto a obra dos Engenheiros, apontando pra a auto-referência presente em muitos de seus trabalhos. É verdade, nos discos dos Engenheiros os versos e as músicas muitas vezes fazem auto-referência. Duas ?versões? de o Exército de Um Homem Só, de Revolta do Dândis ...porém, isso, longe de ser uma mera repetição, é marca da consciência da polifonia e polissemia de uma ?sociedade do espetáculo? ( ?nós somos pop também? ) louca por novidades, que, em sua essência são repetições (sem falar na homogeneização que faz todos iguais na indiferença e na crença em deus nenhum ). E disse Gessinger em Variações Sobre um Mesmo Tema (por exemplo): ?Eu tenho os meus problemas/ Você tem os seus/ Variações de um mesmo tema/ Ateus procurando deus?.
A repetição dos Engenheiros não é, evidentemente, algo como a retomada de um pequeno refrão meloso, ou sem sentido, ou de duplo sentido, que repetido indefinidamente, infinitamente, sendo martelado de tal forma que fura a resistência e acaba ?pegando?, e sendo repetido de forma mecânica e sem espaço para crítica de qualquer forma. Não. Procedimentos da estética da repetição ?contra? essa mesma estética. Gessinger retoma as mesmas perguntas, dialoga com seu próprio trabalho (de forma muitas vezes a reconstruí-lo ). )
Mas, os sonhos são os mesmos, lugar comum: grana, engrenagens. Imagens, imagens, imagens, imagens; que de tão repetidas não dizem mais nada. A promessa da propaganda que nunca é cumprida, os crentes descrentes reivindicam justiça: surge a violência como excremento do próprio sistema de exclusão/insatisfação. Várias Variáveis (no mesmo Teorema ).
Individualismo e Anarquismo. Individualismo e indiferença. ?se tornar eteno e depois morrer?, sonhava uma personagem de Godard. A história se repete (mesmo de cabeça para baixo ): a luz néon programa dramas iguais/banais; muitos heróis sem virtude correndo atrás da própria satisfação, rolando pedras como Sísifo. Somos iguais. Somos diferentes. Mais uma noite em Porto Alegre. Estamos divididos ( e todas as promessas dizem para sempre ) e precisamos nos encontrar. Adivinhar porque O Papa é pop. (Engrenagem Zen, busca de simetria..mais promessas?!?).
Os cara-pintadas vão as ruas cumprir a evolução da escola de samba. Fantasias e adereços: Revolução dos Bichos de George Orwell. Depois, o planeta completa a órbita; re-volução e tudo no mesmo lugar: com-tradições e (in)diferenças. Se fossemos iguais tudo seria mais fácil: a perfeita simetria não existe. Concreto ?concretismo?: tudo ?quase? igual. Noites mal dormidas e satélites sem órbita; a conquista do espelho e a conquista do espaço em um mesmo salto... ?o homem começa a dangerosíssima viagem de si para si? (ver Drummond: O homem e as viagens) . A serpente sente o seu próprio gosto, e...continua....
Entramos no Túnel do Tempo, aceleramos esses passos que ligam necessidade e liberdade, como karma, DNA...as repetições, as várias variáveis, as promessas: minas no chão. Seguimos à caminho nessa estrada, dançamos como Nietzsche: sorrindo e ironizando o próprio fado. Órfãos de utopia: na segunda-feira voltamos para a rotina e mundo continua igual. Perdemos a viagem? Não, somos Dom Quixote e vamos Até o fim. As folhas caem em Porto Alegre: os frutos estão maduros?
Do círculo fizemos a casa!? A viagem continua... mas, seria mais fácil fazer como todo mundo faz. Muita expectativa por ?quase nada?. Não havia armas químicas. Existirão poemas? De qualquer forma a mudança é evidente: a engrenagem tornou-se mandala. Não podemos ficar presos ao passado, olhando sempre para o mesmo lado :?O futuro se impõe, o passado não se agüenta?.
tags:
musica analogia filosofia ironia engenheiros-do-hawaii marcos-carvalho-lopes pop
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