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reportagens sobre os terminais de ônibus de Fortaleza de madrugada
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Carlos vai apontando, avisa que daqui a pouco chega uma lôra
Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A., Fortaleza (CE) · 18/7/2006 11:03  

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overponto
Grupo TR.E.M.A.

Capítulo 4: ...Carlos vai apontando, avisa que daqui a pouco chega uma lôra que toda noite tá aqui tentando arrumar um namorado entre motoristas e trocadores... e lá está. Branca, quase albina, o nariz avermelhado, os olhos meios repuxado por cima de olheiras. Rodando pelos terminais, conversando com fiscais, motoristas, trocadores... O sorriso rebenta sem mais nem menos, deixa ela com cara de coelha, olhar faceiro de cúmplice de alguma traquinagem. A voz fina, espontânea, de contar histórias como viu e sentiu. As unhas com um esmalte marrom ruído e o cabelo mestiço, feito menino novo que ainda está escurecendo os pelos, preso por uma liga verde, fazendo um cocozinho caprichoso.
?Mônica Monteiro Cavalcanti, deixa eu escrever, é que Cavalcanti no final é muito complicado. Cavalcanti com i é de algum país de fora. Eu perguntei pro meu pai, ai ele começava a me dizer que era de Itália. Pelo entender dele, a história da família do meu avô tem um descendente que é da Itália, um negócio de Itália assim sabe. Ai ele dizia: ?coisa chique importada dos Estados Uunidos.?? Na Itália?, não, não, ali mesmo no Conjunto Ceará, segunda etapa, um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina. Na época, 1979, uma casa da Cohab.

Roda pelos terminais há 10 anos, desde quando o pai, sua companhia, saiu de casa. Conhece de tudo, mas roda mais pelos terminais da Lagoa, Conjunto Ceará e Papicu, onde a gente tá agora sentado nesse banco de concreto conversando, pra se contar de forma mais certa, deixando ela falar.

Acorda 9 e meia. Toma café, abre a televisão, já deixa no canal de 17 pra escutar um musiquinha, gosta mais de escutar spispi. Britney Spi? É. Ai aperreia a mãe pelo café. 4 bolachinhas com um suco. Ou de maracujá ou de goiaba. Quando não tem suco é chá de capim santo ou sidreira. Às vezes aparece bolo em dia de festa. ?Não me convite pra festa não que eu levo só a barriga?. No final da tarde parte, faz escala no terminal do Conjunto, joga conversa fora com os amigos. É nesse terminal que tem os amigos mais antigos. Depois parte para o do Papicu, onde tem uns gatinhos só o filé. O supervisor é bem bonitinho... Lá no conjunto só tem peba.


― Tu é muito vaidosa Mônica?
― Mais ou menos, isso quando quero arrumar um gatinho.
― Pois me diz ai. As histórias que eu sei é que você anda atrás de um namorado aqui.
― É mermo?! Quem que escarrou?
― Eu ouvi assim...
― Ah! O irmão. Eu mato o irmão.
― Quem é o irmão?
― É o vandame ali... ô... o Paulo.
― E o Luiz ai?
― Aquele ali, eu fui ajeitar uma loirinha, queixei a menina e disse que ele trabalhava de fiscal. Cheguei pra ele, ai ele disse ?mulher não era pra ter dito que eu trabalhava de fiscal não, era pra dizer a verdade que eu era zelador?.
― Porque que ele queria que tu falasse que era zelador mesmo?
― Porque ela já sabia que ele era zelador, mas ela não sabia que ele tava afim dela. Ai eu fui dá os toque...
― Ai ela se tocou e saio fora...
― Foi.


Sabe do nome do motorista da linha Conjunto Ceará/Papicu, até a lista dos números das empresas de ônibus. De empresa por empresa. Já foi de sentar do lado do motorista novo na linha e ir ensinando o rumo que tem que ser decorado. Aprendeu só olhando. Pegando aos poucos. Porque tem aquele ditado ?É na experiência da vida que o homem se evolui?.

De rodar, conversar aqui e ali, não paga passagem, mas de vez em quando pede os dois conto a mãe pra não dar cabimento aos usuários. ?As vezes eu peço, pra não ficar entrando pela frente, pra não dá cabimento ao passageiros, ai eu falo mãe me dá dois reais pra pagar a passagem, ai ela pensa que eu to raparigando , ai ela me bota pra baixo, mas eu não tô raparigando, ela me bota mais pra baixo ainda, ai eu fico mais pior ainda. Uma dia eu disse assim, ?mãe vai vê se eu tô raparigando, vai olhar o que eu tô fazendo no terminal, chega qualquer dia desses lá no terminal e me olhe, se eu tiver raparigando você vai deixar de ser minha mãe.

?Às vezes minhas amigas me arranjam dois reais ai eu chego lá em casa ela pensa que eu to roubando. Ela pensa que eu to roubando, é assim, a minha vida é assim lá em casa. Eu só me sinto bem por aqui mesmo, só me sinto bem entre meus amigos?.Gaguejando, olhos vermelho, cena de close nos olhos, mas o mais fiel seria na boca salivando com os fios de saliva ligando os dentes, enquanto fala.

Educação rígida a da dona Francisca. O avô batia na avó mesmo grávida de 8 meses, dava pesada na barriga. A mãe de dona xica abortou 5 filhos, ficou com deficiência, teve que tirar o ultero, ?ficou como um vegetal, tudo morto dentro?, fala Mônica em um tom poético e ingênuo que parece não dá conta da imagem brutal.

Não é difícil entender porque nos terminais. Com uma passagem de R$1,60 você roda por várias partes de Fortaleza, diversifica as companhias e depois de um tempo parte pra outro, e outro, até chegar em casa cansada, dormir e acordar com mais um dia de passeio por Fortaleza.

Não tão fácil. Mônica é de uma simplicidade que suas palavras parecem bem um menino correndo atrás de uma bola quando faço as perguntas. Fala, chora, a voz vai afinando, se misturando com alguma outra coisa que lhe pára no meio da garganta dela. Da minha. (segue no próximo capítulo)


Capítulo 1 e 2
Capítulo 3

tags: cultura-e-sociedade papicu terminal britney-spears mae-rigida coelha monica


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