filosofia pop rss
da alquimia de totem e tabu
sobre | arquivo
 
entrevista para uma amiga
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 9/6/2006 22:22  

1
overponto
Que legal é quando você vê alguém que você admira conseguir conquistar seus objetivos. Que legal é pra quem trabalha como professor ver ex-alunos alcançando faculdades legais, fazendo trabalhos bacanas, trabalhando e superando obstáculos...Tenho orgulho de ter muitos ex-alunos hoje em universidades e melhor: fazendo diferença.
Uma ex-aluna, uma amiga, que hoje faz jornalismo me pediu uma entrevista. Fiquei lisonjeado e muito orgulhoso também. Posto entao o trabalho dela...Obrigado Dona Karen Terossi: fez perguntas bem legais! Como diria meu avô: estraiu leite de pedra...




Marcos Carvalho Lopes é filósofo e possui especialização em Formação Sócio-econômica do Brasil. Trabalhou como professor de Filosofia e História em escolas públicas de Ensino Médio de Jataí, em Goiás. Atualmente, está cursando o mestrado em Filosofia pela UFG. Como professor, Marcos decidiu utilizar-se de músicas da MPB e do Rock Nacional para ?comunicar-se? com seus alunos, de diferentes classes sociais. Através dessa via, abria-se a reflexão crítica e o debate de argumentos na sala de aula, integrando muito dos alunos que, à primeira impressão, não se identificavam com o pensamento filosófico. Nesta entrevista, Marcos fala sobre sua experiência na educação, tanto como professor quanto na Universidade, e de como ela influenciou na sua visão dos meios e finalidades da discussão filosófica.


Karen: Que dificuldades você encontrou quando trabalhou numa escola pública de ensino médio como professor de filosofia?

Marcos: A primeira dificuldade era o meu próprio despreparo: mesmo licenciado e teoricamente apto para dar aulas, a realidade se mostrou um pouco mais ácida que a teoria. Outra dificuldade está no fato de que, na maioria das vezes, as direções das escolas não estão preparadas para lidar com filosofia: colocam-na no mesmo saco de ensino religioso e da extinta educação moral e cívica. Como são poucas aulas, fica sempre mais fácil não contratar um professor especificamente para essa matéria: ela serve então para completar carga horária de outros profissionais. Além disso, no ensino médio, até o ano passado, os alunos não recebiam livros didáticos, então para se trabalhar filosofia, geralmente o professor ficava sem recursos além do quadro-giz. Muito se fala de preconceito por parte dos alunos, mas isso não foi para mim uma dificuldade: na verdade, os alunos em sua maioria entram no ensino médio sem nenhum conceito do que seja a matéria. Então temos carta branca. O professor de filosofia tem a liberdade e a responsabilidade de apresentar a filosofia aos alunos.

Karen: E, mais especificamente, ao apresentar a filosofia aos alunos que tipo de problemas você teve de enfrentar?

Marcos: Geralmente, a filosofia surge como algo muito distante do cotidiano dos alunos: dizem que na Grécia Antiga a filosofia nasceu do ócio. Então, como apresenta-la a alunos que trabalham durante o dia todo e pouco tempo têm para refletir sobre o tipo de questões que a metafísica propõe? Existem alunos que chegam ao ensino médio como analfabetos funcionais, frutos de projetos de aceleração de ensino que melhoram as estatísticas da educação no país, mas, que na prática tem resultados pífios. Os alunos não são culpados e se o professor quiser ser democrático - como deve ser - deve procurar falar a todos os alunos. As aulas de filosofia então devem servir como um momento de reflexão, devem ser uma pausa na grande engrenagem que move nosso "mundo do trabalho": um momento para pensar. Não é o caso que devamos trazer para os alunos doutrinamentos marxistas, tentando inspirar consciência de classe. Os alunos sabem quem são e o que querem Devemos sim, dialogar tentando ampliar os horizontes de compreensão, questionando valores que antes passavam como verdades absolutas, fazendo com que os alunos possam por eles mesmos avaliar sua realidade. A função da filosofia talvez esteja em fornecer alguns conceitos, que são como ferramentas para os alunos ampliarem sua visão de mundo.

Karen: E, entre os meios de que você se valeu pra enfrentar esses problemas e realizar discussões filosóficas na sala de aula, está a música. De que modo você a "encaixava" nas aulas?

Marcos: A Música Popular Brasileira é considerada um verdadeiro patrimônio nacional. É comum que se busque "visões do país" tanto em Gilberto Freyre quanto em Caetano Veloso, em Sérgio Buarque de Hollanda e no seu filho Chico Buarque. Na hora de trabalhar filosofia, pensei que poderia me utilizar desse mesmo patrimônio que, na verdade, não é uma peculiaridade do país: a partir da década de 1950 a música passou a ocupar um lugar privilegiado na formação dos valores culturais, influenciando desde o modo de vestir ao comportamento cotidiano. Se as canções têm esse valor na vida cotidiana, porque não partir delas para trabalhar a filosofia?
Minha idéia foi, com as canções, incentivar a curiosidade do aluno que geraria abertura para o diálogo. De repente, eles questionavam porque eu havia escolhido aquela canção e não outra, mas ouviam, reagiam, debatiam e ? provavelmente - aprendiam alguma coisa. Poderia partir de filmes ou mesmo da internet, mas a verdade é que nas escolas públicas, além do quadro-giz, geralmente os recursos são poucos e com uma aula de filosofia por semana qualquer outro caminho se torna muito difícil.

Karen: Então você conseguiu alcançar seu objetivo, de ajudar os alunos a pensarem sua realidade, a partir de coisas próximas a eles, no caso a música?

Marcos: Dizer isso seria um exagero. Mas de vez em quando aparece um aluno e te diz que gostava das aulas, que aprendeu alguma coisa, que não esquece ou que começou a gostar de tal grupo musical por conta de suas aulas. Não há um mecanismo para saber se as coisas estão dando os resultados esperados: o professor pode se dedicar ao máximo e depois o aluno, no fim do ano, aprovado, pode dizer que ele não aprendeu nada. Não existe nenhuma garantia, o que resta ao professor é inventar seu próprio método, tentar se aproximar dos alunos e oferecer a eles o que pode de melhor. Acho que a maioria dos meus alunos gostava do meu "método" de trabalhar, outros se diriam indiferentes e outros ainda diriam não gostar. Mas com certeza, todos se lembrariam de alguma canção. Com certeza a música mobiliza mais sentimentos do que os discursos. Quando o aluno se lembrar dessa canção que um dia ouviu na aula e de algum tema que foi discutido, então, nesse instante, todo o trabalho faz sentido.

Karen: De alguma forma, essa experiência na sala de aula influenciou na afirmação que você fez no seu blog de que a carreira acadêmica é uma masturbação intelectual, uma vez que "os medievais" se ocupam em discutir "questões bizantinas" e não se ocupam da realidade?

Marcos: Sim, totalmente. Nossa sociedade tende a reproduzir certa essência platônica. Explico: na velha história do Mito da Caverna, Platão fala de uma grande maioria que vive acorrentada no escuro de uma caverna, vendo apenas as sombras dos objetos reais. De repente, "por um milagre" alguém consegue sair das correntes, por curiosidade acaba saindo da caverna e contempla o Sol, que seria algo como a verdade. Platão diz que voltando à Caverna o "filósofo" pode corrigir o olhar dos acorrentados. No entanto, estes são ignorantes e não reconhecem a autoridade de quem sabe a Verdade. Pois bem, essa historinha de Platão, funda o mito da autoridade (tanto política quanto intelectual): alguém sabe, enquanto outros ignoram e vivem num mundo de aparências. É confortável para os professores universitários pensar que estão discutindo questões fundamentais quando se preocupam com sutilezas do "idealismo alemão" ou constroem trabalhos sobre o conceito de X em Y (onde Y é sempre uma autoridade estrangeira). Por sua vez, os professores de escola pública quando saem para fazer Mestrado devem reproduzir o caminho de quem sai da caverna: criticando a escola e suas condições e mostrando que a solução está em um autor estrangeiro que foi muito bem interpretado por um professor brasileiro, ou seja, ninguém questiona diretamente a realidade em que vive. As autoridades intelectuais se valem de sua posição para corrigir o olhar de quem quer investigar a realidade. O que sobra é reprodução de sombras, a caverna ao quadrado e mais gente querendo ser autoridade e nunca mais voltar a conviver com a estupidez da "caverna". Acho que esse é o mecanismo.

Karen: Se você considera que na universidade falta espaço para o debate filosófico sobre a realidade, então não estaríamos na contramão dos objetivos que estão na origem da própria filosofia? Como sair desse esquema?

Marcos: A única saída estaria em admitir que "ninguém tem acesso privilegiado a Verdade". Não existe Verdade eterna e imutável nem pessoas que possuam o dom de dizê-la. Se pensarmos assim, passaremos a ser mais democráticos, a respeitar os que pensam de forma diferente, a parar de tentar "corrigir o olhar das pessoas" e tentar entender o mundo a nossa volta. Para isso as pessoas teriam que começar a ser democráticas de uma forma que no Brasil ainda está longe de ser comum. A Universidade, cada vez mais, cai nos paradigmas de mercado e por isso, mais e mais se quer dela resultados. Até aí não vejo problema. Mas para existir inovação é necessário correr riscos e a universidade atual não está preparada para isso. Projetos considerados "diferentes" não recebem financiamento e quem avalia o que deve ser pesquisado são professores que julgam "racional" algo que compreendem de forma tranqüila, ou seja, algo que não traz muitas novidades. (Provavelmente Einstein não sobreviveria à universidade brasileira e acho que, talvez, a nenhuma universidade). Parte dos recursos da universidade deveria então ser aplicada em "projetos de risco". Muitos desses projetos não dariam nenhum resultado, mas com uma patente interessante provavelmente conseguiríamos a recompensa financeira pela ousadia. Na área de humanas o problema talvez pareça mais simples, no entanto, poucos professores se arriscam a orientar ou mesmo dar espaço para projetos que não lhes parecem desprovidos de qualquer sentido inovador. Sem correr risco a questão passa a ser a de: como administrar nosso atraso, de quem compraremos patentes, de quem importaremos verdades.

Karen: Paulo Freire afirmava que a educação deveria permitir ao aluno ler a realidade para poder transformá-la. A partir disso e do que você disse até aqui sobre as práticas na universidade, você pensa que os "riscos" corridos no apoio a projetos "diferentes" seriam recompensados apenas financeiramente?

Marcos: Não, acho que seriam recompensados também financeiramente. Não dá pra fugir da idéia de que temos que formar mão de obra qualificada, o que hoje significa, talvez, ser apto a aprender e desaprender: com criatividade para se reconstruir, para inovar. Por outro lado, fugindo de aspectos mercadológicos, estaríamos trabalhando num modelo de cidadania mais democrático e com isso desconstruindo o autoritarismo clientelista que não deixou de ser marca da sociedade brasileira.

Karen: O deputado do PL Sandro Mabel declarou recentemente que desaprova a disponibilização de recursos do ?Bolsa Universitária? [um programa do Governo de Goiás] para estudantes de matérias abstratas. Isso porque, para o deputado do PL, essas matérias, como por exemplo a Filosofia, que ele cita, não geram retornos para a sociedade. Você pensa que essa declaração advém desse academicismo e da falta de diálogo da filosofia com a realidade?

Marcos: Não. Acredito que essa declaração advém de uma visão míope de quem considera que ser liberal é usar o estado em benefício das empresas: uma nova espécie de clientelismo. O academicismo é um sintoma de nossa sociedade, formada por valores importados, onde a erudição e o acumulo de citações dariam mostra de autoridade e competência. Nesse sentido a questão transcende a filosofia: o modo como esta é encarada no país só repercute esses preconceitos. Na medida em que a sociedade se torna mais democrática existe uma necessidade maior de questionar os valores que fundamentam sua própria estrutura. Acho que o diálogo maior da filosofia com a sociedade é um desses sintomas de democratização.

tags: mais marcos-carvalho-lopes filosofia

canto_esquerdo comentários rss postar novo comentário canto_direito
 
conde de monte cristo E ae professor marcos valeu pelo email q vc me mandou pra eu poder conferir essa entrevista sua a karen, q por sinal ficou otima,parabens pelas respostas,tudo q vc disse la eu concordo(logico a respeito da filosofia pois dos outros assuntos eu quase nao entendo mais estou me esforçando pra entender).
Flosofia é um assunto meio complexo,eu tenho admiraçao por aqueles profissionais q transmitem esse assunto tao bem,como os filosofos e varios outros,dentre esses eu destaco dois profissionais os quais tive a honra de ser aluno o euclides e vc(marcos).
Tudo o q vc disse em sua entrevista acontece realmente so faltou a dos alunos desinteressados,eu era um dos alunos desinteressados(se pudesse voltar o tempo me dedicaria mais nesse assunto mais...),hoje ainda lembro de nossas aulas das musicas e por ae vai,bons tempos.
Espero um dia poder ser seu aluno novamente ou mesmo participar de uma dessas discuçoes q as vezes vc promove por ae q é bem legal.
Abraçao de um cara q é seu fã te curte pra "cacete".
Ah se vc tiver alguma informaçao sobre o socrates maquiavel de uma forma diferente q os livros apresentam manda ae vei flw.
PARABENS..
conde de monte cristo · Jataí (GO) · 10/6/2006 22:25 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil

Cara..valeu a força. Obrigado mesmo!
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 16/6/2006 13:52 
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião: Útil
 



  Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

 
canto_esquerdo   canto_direito

Fórum do Observatório

Um fórum aberto para a discussão dos temas levantados no Observatório. > participe