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Faz de conta que o mundo não está ficando Cinza
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 19/8/2007 19:33  

1
overponto
O filósofo norte-americano Richard Rorty, depois dos atentados de onze de setembro, passou a temer que o Ocidente renegasse o ideal democrático e desse espaço para atitudes totalitárias na busca pela manutenção da hegemonia econômica. Pior ainda do que essa mudança na vida política seria o fato de que as pessoas, diante da ameaça eminente e fantasmagórica, perdessem qualquer interesse em arregaçar as mangas para buscar reformar a sociedade. Rorty capta bem esse perigo quando cita as palavras do jovem Theo, protagonista do romance Sábado de Ian MacEwan, que com seus 18 anos renega qualquer utopia política: ?Quando pensamos nas coisas grandes - a situação política, o aquecimento global, a pobreza mundial-, tudo parece realmente terrível, nada está melhorando, não há nada a esperar. Mas, quando penso pequeno, mais perto - você sabe, numa garota que acabei de conhecer ou na canção que estou compondo com Chas ou em fazer "snowboard" no mês que vem, tudo parece ótimo. Por isso, este será meu lema: Pense pequeno?.(1)

Nesse ?pensar pequeno?, a separação entre vida privada e vida pública se torna tão grande que qualquer idéia de responsabilidade não mais se sustenta. O cimento que sustentaria e manteria os laços sociais estaria ausente, com isso, qualquer discurso que tenta transcender os interesses individuais imediatos parece cair no vazio da indiferença.

Richard Rorty tentou com sua filosofia colocar a imaginação no lugar antes ocupado pela razão: só assim poderíamos construir uma sociedade democrática em que autoridade de quem corrige o olhar do espectador seria substituída pelo diálogo constante. É difícil não considerar que Rorty tenha sido influenciado pelas pequenas utopias do anos sessenta e pela idéia de ?imaginação no poder?. O filósofo americano lembrava que o mundo não tem legenda, ele não fala: é com nossa linguagem que o descrevemos. Assim, as metáforas trariam consigo a possibilidade de criação de novas visões de mundo. Rorty queria abrir espaço para novas formas de pensar e para a esperança de uma vaga utopia de um mundo diferente. Para ele a imagens teriam maior poder de convencimento do que as narrativas: ?por esta razão que o romance, o filme e o programa de televisão vieram a substituir, de forma gradual, mas constante, o sermão e o tratado, enquanto veículos principais de mudança e progresso no plano moral?. (2)

Quando Bob Dylan cantava, no início dos anos sessenta, que havia uma ?resposta sendo soprada pelo vento? ou anunciava ?as mudanças dos tempos?, não era possível entender claramente o que isso poderia significar, contudo, naquele momento a frase ganhou um sentido social na luta pelos direitos civis. Em verdade, as canções de Dylan tiveram maior impacto do que qualquer discurso poderia conseguir, justamente porque com a música sua mensagem pedia de quem ouvia certa participação afetiva, completando seu sentido. Somente na medida em passamos a ver os outros como um de ?nós? e não como ?eles? podemos, tocados inicialmente pelos sentimentos, alargar nosso horizonte de identificação moral. Só então o velho imperativo de ?não fazer com o outros, o que você não quer que seja feito com você? pode ganhar vida em nossas ações como uma crença.

Essa perspectiva de Bob Dylan quanto à canção repercutiu no mundo todo. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação: em vários países, o poder da música popular em relação às possibilidades de transformação política, ganhou vida. A banda de Chico Buarque queria contagiar a cidade e fazê-la em conjunto cantar o amor. No ano seguinte, em Alegria, Alegria, Caetano Veloso encarnou a banda em sua atitude de flanar pela cidade ?sem lenço, nem documento?. Com o golpe militar e o pequeno desenvolvimento de nossa ?indústria cultural?, as possibilidades de questionamento político foram cerceadas. Por isso nos anos oitenta o rock nacional tratou de retomar a perspectiva de Bob Dylan, como mostram as palavras de Renato Russo: ?O que a Legião Urbana tenta fazer é provar que os anos 80, no Brasil, você ainda pode tentar seguir o caminho que eu aprendi com o Dylan e os Stones e quem quer que seja. Que a gente possa ser a trilha sonora verdadeira, factual, para quando tiver o programa sobre ecologia eu não precise ir lá debater ecologia. Basta colocar as crianças cantando a nossa música, eu acho que se a gente conseguiu fazer isso já é uma coisa muito importante.? (3)

O filósofo Renato Janine Ribeiro, ao analisar a obra de Chico Buarque de Hollanda, fala em Utopia Lírica: a idéia de que o cantor poderia contagiar pelos sentimentos as pessoas em direção a uma perspectiva de transformação social utópica. Acredito que as esperanças em torno da democracia continuaram sendo o norte da dimensão utópica da canção brasileira, até mesmo porque, o fantasma da ditadura deu para nossa sociedade um inimigo bem real para combater. Contudo, depois do desastre que foi a Era Collor, a tendência de nossa canção foi em geral, deixar de falar da política de forma utópica e abandonar a perspectiva lírica: passamos ao domínio da prosa e a uma separação mais nítida entre público e privado. Quando se trata de falar de questões sociais elas são colocadas do lado de fora, como um objeto exterior: por isso mesmo o rap mais e mais se coloca como o formato musical mais utilizado para o questionamento social e político. A dimensão lírica da canção popular alienou-se na vida privada.(4)

Uma das poucas anomalias nesse discurso sobre a música popular brasileira me parece ser a posição dos Engenheiros do Hawaii, que ainda hoje tentam manter as lições de Dylan. Essa posição transparece no álbum Dançando em Campo Minado de, onde nas canções Segunda-feira Blues, se faz um balanço das esperanças perdidas desde a década de sessenta e lança questões como:

? onde estão os caras que lutavam dia-a-dia sem perder a ternura jamais ?
? onde estão os caras que desmaterializavam moedas de dez mil reais ?
? onde estão os caras que desconheciam limites ... universal e singular ?
? onde estão os caras que desenhavam novas cidades
em guardanapos na mesa de um bar?


Apesar de ?acordar? em uma segunda-feira melancólica (blues), a banda confirma sua posição utópica na canção Dom Quixote, que reafirma a esperança romântica de transformação da realidade, em detrimento do senso prático ?sanchesco? de aceitação das coisas como estão:

tudo bem...até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
tudo bem...seja o que for
seja por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas


Na canção seguinte deste álbum, a banda lembra a posição de resistência de Cuba e reafirma que seguira Até o fim na busca por alguma transformação:
a ilha não se curva noite a dentro vida afora
toda a vida, o dia inteiro
não seria exagero
se depender de mim eu vou até o fim

cada célula, todo fio de cabelo
falando assim parece exagero
mas se depender de mim
eu vou até o fim

A última canção do álbum, Outono em Porto Alegre, fala de uma transformação do olhar individual: a pessoa olha ao redor e percebe que amadureceu e que apesar de tudo é feliz. Podemos caminhar pela cidade e reconstruí-la com um olhar otimista

o mundo fica para outro dia
andar por aí era tudo que eu queria


No novo álbum, Novos Horizontes, a canção Cinza busca falar do aquecimento global tomando uma perspectiva lírica, como explica Gessinger: ?Em vez das grandes corporações, o foco é a maneira infantilizada como vivemos, querendo tudo e querendo agora?. O mergulho alienado na vida privada, que o jovem Theo considera ser a solução para sua felicidade, é o alvo da crítica dos Engenheiros do Hawaii:

o mundo é teu, é teu umbigo
chapado e aquecido
deve ser o fogo amigo
queimando tudo, joio e trigo

corre mundo um aviso:
corre risco teu umbigo
se correr o bicho pega
se ficar corre perigo

bruxas dançam na fogueira
inimigos na trincheira
um calor infernal congela teu sorriso
e o paraíso tropical (nada mal)


Nesse mergulho alienado na vida privada, as pessoas colocam qualquer questão social numa posição muito distante (separadas, por muros e grades). A idéia do aquecimento global aponta para os limites da terra em relação ao desejo do homem e cobra um quastionamento mais amplo acerca de nosso modo de vida.

Parece que hoje, idéias universais não têm o mesmo apelo que há tempos lhes eram conferidas. É preciso considerar as diferenças e o contexto para que se justifique uma afirmação. A física clássica foi tomada como modelo tanto para a ética (como vimos na análise de Esportes Radicais), quanto na economia. Como explica o economista Hugo Penteado: ?todas (5) as vertentes da economia assumem ainda hoje, corajosamente, que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que este é inesgotável. Robert Solow, o pai da teoria do crescimento, dizem que as economias podem se ver livres dos recursos naturais, dado que o capital é um perfeito substituto da natureza. E foi além: afirmou que o ser humano será capaz de produzir outros fatores materiais que não os da natureza?

Para Penteado é fácil perceber que esse discurso não se sustenta: a natureza continua sendo a fonte de qualquer recurso. Sentencia então: ?a economia está em xeque com a realidade. Propor crecsimento sem avaliar as condições necessárias e sem mensurar os resultados sócio-ambientais não se justifica mais, tanto pelas descobertas ambientais quanto pelas questões sociais, como a concentração de riqueza forte dentro e fora das nações?.
Podemos nos aproximar dessa necessidade de cuidado com as conseqüências e a responsabilidade tomando com mais seriedade a noção de irreversibilidade. A canção Faz de conta ilustra essa questão na perspectiva de uma relação afetiva: assim como uma pedra ao caia n?água produz ondas, nossas ações repercutem tanto no ambiente quanto em nossas vidas pessoais. Quando uma atitude nos faz perder o encanto, não adianta pedir algo como, ?faz de conta que eu fui mais legal...?.

A irreversibilidade é o preço que pagamos por não vivermos em um universo em que todas as ações correspondem a uma ordem pré-estabelecida (como o universo descrito na canção A Fábula). Para o físico Marcelo Gleiser ?o preço do novo é o declínio da ordem?, e a idéia de irreversibilidade ilustraria nossa relação com o tempo. Exemplifica ele: ?um cubo de açúcar dissolve-se espontaneamente numa xícara de café, mas jamais observamos os grãos de açúcar se reorganizarem espontaneamente voltando à forma de cubo. Uma omelete não se transforma espontaneamente em ovos crus. Moléculas de perfume escapando de um vidro aberto não retornam ao seu interior. Água morna não se divide em água fria e água quente?. (6)

Aplicando essa idéia em termos ecológicos: do que adianta desmatar uma floresta e depois plantar o equivalente em eucalipto? Mais radicalmente: por mais que tentássemos, a floresta original se perdeu para sempre. Quanto mais complexo o sistema, mais pertinência ganha o conceito de irreversibilidade.
Aplicação do conceito de irreversibilidade em termos de relações interpessoais deve ser considerada com cautela. Para o filósofo alemão Jurgen Habermas (pensando no contexto dos atentados de 11 de setembro): ?O que antes de mais nada na verdade nos intranquiliza é a irreversibilidade do sofrimento passado, a injustiça em relação aos inocentemente maltratados, desonrados e assassinados, injustiça que ultrapassa toda escala de reparação humana possível?. (7)

Acho que aqui entra em cena novamente nosso horizonte de identificação afetiva. No meio da barbárie, dos problemas que parecem nos tragar para o universo da indiferença, a existência de uma pessoa com a qual nos identificamos sentimentalmente surge como uma mágica que nos salva do ceticismo, como aparece na canção No meio de tudo você:

selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é demais
quando chega em casa do trabalho
quase vivo
selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o máximo
liberdade pra escolher a cor da embalagem
nessa selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o normal
entrar na fila, pagar ingresso
pra levar porrada
no meio de tudo, você
me salva da selva

selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é demais
um pouco de silêncio
um copo de água pura

selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o máximo
se o cara mente
mas tem cara de honesto
nessa selva
a gente se acostuma a muito pouco
a gente fica achando que é o normal
finge que não vê, diz que não foi nada
e leva mais porrada
no meio de tudo, você
me salva da selva
no meio de tudo, você
acima de tudo
no meio de tudo você


O que era impessoal se torna importante na medida em que existe identificação. Para Habermas, por conta desse tipo de relação pessoal, podemos diferenciar o plano da descrição (em termos de causa e efeito, perspectiva observadora) e o da justificação (perspectiva participante). Só quando tratamos de justificar nossas ações para um ?você?, podemos encarar de forma direta a questão da responsabilidade e desenvolver consciência em relação aos efeitos de nossas ações. O filósofo alemão apela pra um tom emotivo quando afirma que ?o amor não pode existir sem o reconhecimento em um outro, a liberdade não pode existir sem admissão mútua?. (8)

Para Rorty o que podemos fazer é contar histórias que atentem para os pormenores do sofrimento de outras pessoas, para os problemas de nossa forma de agir: só assim, pelo sentimento, teríamos uma identificação moral que levaria a mudança na forma de agir. Não existe para Rorty lugar para o papel ideal da ?consciência?, nem para a divisão entre descrição e justificação: o que muda é o público, o contexto.

De qualquer forma ambos apontam na mesma direção. Acredito que as canções, os filmes, a arte em geral, podem ser usados para ajudar na tentativa de educação moral. Na medida em que ouvimos uma canção e buscamos desenvolver uma narrativa que a leve a fazer sentido dentro de nossa vida, ela pode servir para nossa autoformação. O cineasta russo Serguei Eisenstein falava de um caminho da imagem para o sentimento e deste para a idéia. Não existe a necessidade de desenvolver esse tipo de questionamento. Não existe uma resposta certa que fecha o interrogatório: o lance é que estamos a caminho e podemos sempre nos aprimorar. Tudo bem que uma vida não meditada não merece ser vivida. Também é verdade que uma vida não vivida não merece ser meditada. A filosofia existe para questionar pressupostos e propor diálogo. A filosofia só serve pra quem está a caminho, por isso é bom pensar que podemos ?sentir com inteligência, pensar com emoção?... e seguir viagem.

Notas:
(1)MacEwan, Ian. Sábado Citado por RORTY, Richard. ?Náusea em Londres?. Folha 05/02/2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0502200616.htm
(2) RORTY, Richard. Contingência, Ironia e solidariedade. p.19
(3) Conversações com Renato Russo. Campo Grande (MS): Letra Livre. Pág.73.
(4)No meus Ensaios Legionários, que estão prontos e na gaveta, tento explicar melhor estas questões. Por hora o melhor é afirmá-las de modo dogmático sem cuidar de nuances e explicar deatlhes.
(5)Um amigo me alertou para a radicalidade da afirmação de Penteado: afinal ele mesmo não é economista? Então não são ?todas as teorias econômicas? etc.
(6)GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos de Criação ao Big Bang São Paulo : Companhia das Letras, 1997. p.219.
(7)HABERMAS, J. Fé e conhecimento. Folha de São Paulo 06/01/2002. Disponível em: http://www1folha.uol.com.br/fsp/mais/fso601200206.htm. Consultado no dia 11/08/2007.
(8)HABERMAS, J. Fé e conhecimento. Folha de São Paulo 06/01/2002. Disponível em: http://www1folha.uol.com.br/fsp/mais/fso601200206.htm. Consultado no dia 11/08/2007.

tags: cultura-e-sociedade engenheirosdohawaii filosofia marcoscarvalholopes rorty habermas educacao

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helder1987 Muito boa a reflexão...
helder1987 · Belo Horizonte (MG) · 27/10/2007 23:03 
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Valeu helder.. Tô com um probleminha com esses textos mais antigos: as aspas viraram ponto de interrogação por alguma mudança no overmundo... coloquei este texto revisado junto de outros que fiz sobre os Engenheiros do Hawaii em um PDF aqui nesse mundo: se quizer dar uma olhada é este o link. Abraço
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 27/10/2007 23:24 
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Mica Lopes Gostei...
Mica Lopes · Rio de Janeiro (RJ) · 4/12/2007 13:18 
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