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Kant, Renato Russo e o Fato da Razão
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 24/5/2006 22:33  

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overponto


A questão de se existe ou não liberdade é fundamental para se pensar a ética. Se o homem não é livre para agir, não pode ser responsável por sua ação. Se não existe liberdade ninguém pode ser considerado criminoso. Com isso, cria-se a ?ética dos coitadinhos? que diz que a culpa pelas coisas que não estão certas não é de ninguém determinado, nem de todos em conjunto: o culpado é o ?sistema?, o impessoal. Seguindo esse discurso as pessoas podem reivindicar para si todos os direitos sem carregar consigo nenhum dever: afinal, ?todo mundo quer tirar vantagem em tudo?, e, por conseqüência, ninguém quer ser responsável por nada.
Acontece que, como percebeu Kant, a liberdade não é um fato exterior, é sim, um fato (feito) da razão: o homem pode prescrever para ele mesmo regras de conduta, ante as quais ele mesmo é legislador e executor. Ou seja: quem se obriga a si mesmo é livre para se desobrigar. Isso acontece na prática: quem assume um compromisso perante consigo mesmo não esta comprometido com ninguém: então é livre (ou ?você não pode jogar essa folha longe e esquecer esse texto??, ou ?você não é livre para escolher isso??).
Essa idéia foi reafirmada na letra da música Há Tempos da Legião Urbana, nela Renato Russo diz: ?disciplina é liberdade?. Falar em disciplina como sinônimo de liberdade pode ser visto como algo fascista, mas Russo explicou sua posição em entrevista: ?eu estou falando de autodisciplina. Se você pensar numa relação sujeito-objeto é fascista, mas numa relação sujeito-sujeito, não é. Não é: ?eu vou disciplinar você?. A natureza é disciplinada. Eu preciso de muita disciplina! Fica tão bonito escrito ?Disciplina é liberdade?. E é uma inversão do double think do 1984: ?Liberdade é escravidão?, ?Ignorância é força?. Se você tiver um conceito legal de liberdade, imediatamente surge uma idéia positiva.?
Se ?disciplina é liberdade?, o homem é livre e responsável por suas ações. Disso pode deduzir que para viver em grupo deve agir como se sua ação pudesse ser comum a todos os demais, ou seja, seguir a regra do senso comum de ?não fazer aos outros o que você não quer que seja feito a você?.
Kant não pensava numa sociedade de anjos: regras são necessárias mesmo em uma sociedade de demônios. Os homens são racionais, livres e responsáveis pelo seu agir (ou não agir). O Estado, a televisão, ?o sistema?, não são sozinhos os culpados pelos problemas sociais, afinal, a sociedade é feita também de homens individualmente responsáveis. Como diria Ortega y Gasset: ?eu sou eu e minhas circunstâncias, se não me salvo a elas não me salvo a mim mesmo?, ou seja, o homem esta sempre imerso em circunstãncias que não escolheu, mas pode decidir entre lidar com elas ou se deixar levar pela correnteza, como uma bóia jogada no rio. Pode decidir compreender sua circunstãncia, sua responsabilidade e sua liberdade ou cantar o samba do ?deixa a vida me levar?. O fato é que você (também ) decide.

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faço questão de ser o primeiro.
seja benvindo a trazer a filosofia para desencapsula-la aqui.
Esso A. · São Paulo (SP) · 25/5/2006 00:23 
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Valeu a força Esso! Obrigado.
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 25/5/2006 05:52 
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ótimo.
é um grande mal a disseminação da idéia de liberdade associada ao "tudo pode, pode tudo", determinada pela volatilidade dos desejos.
Interessantíssimos teus posts.
Rômulo Ar. · Porto Alegre (RS) · 7/6/2006 15:44 
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É interessante quando alguém pega um autor como Kant, e arranca dele boas idéias. Digo isso porque não gosto da maior parte das idéias de Kant, mas as que são boas são realmente boas. Porém ainda prefiro, ao invés de dizer "se vi longe é porque estava no ombro de gigantes", dizer: se não vi tudo, é porque gigantes estavam direcionando minha cabeça para um lado apenas.
Janos Biro · Goiânia (GO) · 29/6/2006 14:02 
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michelinha Parabens Marcos, sempre acreditei que vc iria longe e ainda vai.. Gosto muito de vc, e tenho orgulho em poder dizer que ja fui sua aluna... Bejos e Esse texto esta maravilhoso.
michelinha · Rio Verde (GO) · 19/7/2006 15:59 
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Que bom que a liberdade é tomada em seu verdadeiro sentido.E mais interessante quando vem pela filosofia Kantiana. Na verdade ,sua leitura Marcos, é altamente instigante. Não creio ser possível simplesmente dizer que não gosta de Kant,como afirmou o Janos de Goiânia. Gostaria de saber por que? Fiquei curiosa...Marilia Beatriz, Cuiabá,MT-4/11/06
Marília Beatriz · Cuiabá (MT) · 4/11/2006 20:38 
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maravilhoso o texto!!

muito bom mesmo!! ;DDD
Mitchel Bruno · Recife (PE) · 13/11/2006 17:31 
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Não sei se é o motivo de Janos: mas Kant pressupõe a idéia de um "verdadeiro eu", uma consciência que se preserva. Essa idéia não anda na moda porque não leva em conta a intersubjetividade e Nietzsche mostrou mesmo a contingência do "eu"...então fariamos uma promessa e amanhã, se não nos agradasse mais: por que não mudar de idéia? Mesmo Nietzsche não exclui daí a responsabilidade...
Valeu pela força Michel e pelo comentário Marília!
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 13/11/2006 21:27 
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