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Luz, onde estão teus olhos
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 12/11/2006 16:26  

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overponto


Ultimamente -depois de Nietzsche- é comum que se critique as perspectivas platônicas que permeiam a filosofia. É que as perguntas por essências atemporais levaram a filosofia para um caminho que parece hoje ter se tornado improdutivo: como lembra o filósofo norte-americano Hilary Putnam, ninguém pode alcançar a perspectiva de um ?olho de Deus?. Mas, deve ficar a dúvida: Platão não era Platônico! É que hoje alguns identificam Platão com a figura do rei-filósofo, aquele personagem que no Mito da Caverna consegue contemplar a luz da verdade e volta para tentar libertar os que estão acorrentados em meio as sombras. Essa idéia de que o filósofo teria uma acesso especial à Verdade tem uma dimensão mais religiosa do que algo que se possa justificar quando se mantém um diálogo aberto.

Mas o Mito da Caverna, como bem mostrou Heidegger, funda a autoridade da teoria, quando Platão, ao falar do caminho de ascensão do filósofo fala em verdade (aletheia), mas, quando se refere a volta dele para a caverna passa a falar em ortótes , a idéia de correção do olhar: o sábio deveria corrigir o olhar dos acorrentados de modo a levá-los a direcionar-se para a luz do saber. Não é um diálogo: o filósofo tem autoridade porque sabe onde está a Verdade! Teoria seria contemplar o que é, olhos humanos deveriam se voltar para as essências ao invés de ficarem presos as aparências. Ficar preso as aparências seria ficar preso as coisas fugidias, a vida prática: a vida do filósofo deveria ser contemplativa, ou seja, sua função seria olhar o mundo.

Pense num professor que faz seu mestrado/doutorado no exterior e volta apara o Brasil para dirigir o olhar de seus alunos para as verdades mais reluzentes. Pense na necessidade que existe de justificar qualquer trabalho recorrendo-se a certo cânone que nos garantiria acesso à verdade: o negócio nesse jogo de ócio não é debater idéias, mas citar gente que concorda com a gente. Como diz o professor Barzotto a fórmula parece ser citar 3 estrangeiros, um brasileiro que se alinha a um estrangeiro, outro que discorda e pronto. Mestrado e Doutorado garantidos por ter dado prova de poder olhar para a luz que advém do exterior. Nossa cordial desconversação! Um exotismo inventado...

Fazer teoria é dirigir o olhar para algum lugar. Então deveríamos parar de tentar fazer teoria, parar de tentar atingir essências absolutas e passar a conversar, a aceitar o debate e o diálogo, assim como, a imperfeição do inacabado, o acaso que sempre pode acenar. Assumiríamos, assim, nossa finitude e, com ela, a finitude de tudo o que é humano. Os que nos pedem para tentar esse outro caminho, de dialogo, pedem que abandonemos as metáforas visuais: ver, contemplar, etc.; já que não existe nenhuma Realidade pura e imaculada para ser desvendada. A marca da serpente humana está em toda parte...

Se a idéia é dialogar, podemos partir de qualquer elemento de nossa cultura. Ao invés de tentar falar todas as línguas vivas e mortas, poderíamos dialogar a partir de diversas linguagens. É o caso desse texto: decidi fazê-lo depois de ouvir a demo de uma canção dos Engenheiros do Hawaii ? leia-se Humberto Gessinger. A letra de Luz põe em cena essa necessidade do olhar que permeia nossa cultura:


Onde estão teus olhos
agora que tô bem na foto
agora que achei o foco
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
queimo o filme rasgo a foto

onde estão teus olhos
agora que domei a fera
agora que a dor já era
onde estão teus olhos

sem eles não existo
fico cego invisível
só enxergo o silêncio

juntos para sempre
objeto e observador
física moderna
velhas canções de amor

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe

(solo de gaita)

onde estão teus olhos(2x)
longe deles nada existe


Luz é uma metáfora recorrente na tradição filosófica para se falar em razão. Trazer à luz algo para que possa ser visto: teorizar tudo e dominar qualquer acaso! Somos os observadores que querem objetificar tudo, reificar tudo a nossa volta. É isso que a modernidade quis; matematizar a realidade, partindo do Plano Cartesiano, da física moderna de Newton, etc., inspiraram-se em buscar a função que descrevesse toda a Realidade (noutra das canções demo divulgadas por Humberto Gessinger a letra de Pra quem gosta de nós diz: ?Mapearam o genoma/ O acaso vai dançar/Sem a senha só em sonho/ Impossível disfarçar?). Mesmo a relação amorosa na modernidade passa a ser crivada desse ideal; o romantismo amoroso em sua contradição fundamental denunciada por Jurandir Freire Costa: ao tentar combinar ?amor eterno? e ?prazer constante?. Sem esse olhar de autoridade poderíamos sobreviver?

Quando pensamos na prática, as teorias que buscas princípios eternos acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo refutadas pela realidade. Deveríamos então ser mais flexíveis e abandonar essas questões platônicas que buscam por essências. Saber e querer não bastam: o difícil é agir e aí, nenhuma teoria pode nos salvar de nossa própria contingência. Humanitas tem fome, diria Quincas Borba. Melhor dos mundos: impossível...

Por outro lado, acho que esse ataque as metáforas visuais é um tanto vazio. Não podemos deixar de ter esse sentido, tais metáforas correspondem mais a nossa condição física do que a qualquer teoria. Deveríamos arrancar os olhos, como Édipo, para viver sem complexos? O olhar também é uma forma de identificar-se com o outro. Olhar nos olhos, olhar para o chão, os olhares das personagens de Machado de Assis... o olhar pode tanto transformar em pedra quanto dar vida. Precisamos ouvir o silêncio, sentir as diferenças, farejar novidades? Sim... Mas não vejo nada intrinsecamente negativo nas metáforas visuais se tomamos alguns cuidados para não repetir antigos erros. Lembro de um poema de Camões, nosso poeta que perdeu um olho, que diz algo que me interessou:

MOTE
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão
por vingar o coração.

VOLTA
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso.
Venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.

Os olhos podem nesse caminho de identificação levar uma pessoa para habitar nosso coração. O que trazemos dentro do peito. É algo para o qual temos respeito. Olhemos então os problemas que nos comicham todos os dias: não faltam motivos pra se respeitar nossas vidas finitas e humanas.

tags: cultura-e-sociedade enhenheirosdohawaii platao marcoscarvalholopes filosofia

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Os tecnocratas estão sempre criando condições para que os pensamentos "aconteçam". eles acreditam que é deles , e unicamente deles, a responsabilidade de levar a verdade aos seus dicípulos. eu acho mais interessante que alguem descubra a verdade por si só. O rei filosofo num deve querer libertar ninguem da escuridão, ele conhece a luz e deve dar testemunho dela, mas nunca querer que os outros o sigam pois a verdade é um pouco subjetiva, parte das condições e percepções de cada um.
eric renan ramalho · Belo Horizonte (MG) · 19/11/2006 15:49 
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Linda foto!
Laura Lessa · Rio de Janeiro (RJ) · 26/11/2006 19:58 
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Acho que aos poucos vamos descobrir que interpretamos de forma epistemológica Platão...o Mito da Caverna tomado como caminho individual gera um fracasso místico...Obrigado pelos comentários!
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 26/11/2006 20:26 
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Brasil Teu blog me fez sentir um inútil, que apenas ocupa mais um endereço na internet...isso é bom.

Essa música já fez fãs antes mesmo que o disco saísse...
`
Ótimo texto.
Brasil · Brasília (DF) · 7/12/2006 15:40 
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Valeu o comentário...é sempre bom saber que alguém gostou!
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 8/12/2006 22:04 
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Adorei, o texto e a letra do Humberto. Preciso ir correndo ouvir a música.
Roberta Tum · Palmas (TO) · 28/3/2007 16:39 
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