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O existencialismo como moda e clima cultural
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 18/7/2006 19:31  

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overponto
Segundo Nicolau Abbagnano, o existencialismo seria das correntes filosóficas contemporâneas a única que se apresenta como um clima cultural. Pode-se mesmo procurar dentro da literatura, nas obras de grandes autores como Fiódor Dostoievski (1821-1881) ou Franz Kafka (1883-1824) elementos que seriam marca do pensamento existencialista. Mais tarde as obras literárias de outros autores, não formalmente existencialistas, como Albert Camus (1912-1960), ou mesmo, as obras do existencialista Jean-Paul Sartre, serviram para divulgar uma forma de perceber a existência onde o homem estaria lançado no mundo, tendo que lidar com suas possibilidades.
Nisso existencialismo tornou-se literalmente uma moda: na chamada ?Era de Ouro? do pós-guerra o esbanjamento do new look na moda assinada pelo francês Cristiane Dior, se contrapunha a uma forma de vestir chamada existencialista: marcada por cores opacas e tonalidades escuras. Nessas cores tentava se traduzir o ?despojamento?, o estar jogado/lançado, da filosofia existencialista.


O existencialismo alastrou-se pelo mundo nas décadas de 40 e 50 do século XX, atingindo tal amplitude que, de teoria filosófica, passou a se apresentar também como um modismo. Em resumo: ?os mais sérios mergulhavam na filosofia do movimento; os mais levianos apelavam para o que o existencialismo tinha de mais óbvio: a moda.? .

Surgiram na imaginação popular uma imagem distorcida do que seria o existencialista: ?aparência descuidada, cabelos abundantes e desgrenhados; brusco nas maneiras; mal asseado; avesso às normas estabelecidas; amoral, sobretudo, pois o existencialista típico, inimigo da hipocrisia, recusava a moral tradicional, depravado e promíscuo promovia orgias, entregando-se aos prazeres mais degradantes.? Logicamente, essa imagem, apesar de cheia de ironia e humor, não pode ser tomada como algo mais que uma caricatura (qualquer semelhança com a imagem caricata de um roqueiro ou de um hippie não é mera coincidência ). O existencialismo tornou-se sinônimo de pessoas que fugiam as regras usuais da sociedade: ?tudo que infringisse as regras estabelecidas, a linha divisória entre o certo e o errado, era considerado existencialista? .

Nesse ponto o existencialismo tomou ?uma tal amplitude e extensão que já não significa[va] absolutamente nada.? . Definir o que é existencialismo é então uma tarefa muito complicada já que esse, além de ter-se vulgarizado, possui diversas correntes. No entanto, pode-se dizer que seria um ponto comum entre os diversos autores, o fato de partir de uma análise do homem enquanto ser que vive em uma determinada situação e tem que se decidir entre suas diversas possibilidades : o homem estaria lançado/jogado em um mundo no qual se lhe apresentam diversas alternativas com as quais ele tem que lidar, ante as quais ele deve decidir. A relação homem-mundo, tomada nesse sentido, constituiria o tema único de toda a filosofia existencialista .

O existencialismo retoma, ao seu modo, a angústia fundamental descrita pelo pensador dinamarquês Soren Kierkggard, que destaca o desespero e o desamparo do homem diante da liberdade/necessidade de escolher entre as alternativas que para ele se apresentam. Também, busca no século XIX, no perspectivismo individualista de Friendrich Nietzsche uma forma ou formula para negar qualquer fundamentação ?externa? ao homem: para Nietzsche ?Deus está morto?, não podendo mais servir de alicerce para os valores que agora deveriam ser (re)criados pelo homem.

Outro elemento que serviu de base para o existencialismo foi a fenomenologia de Edmund Hurssel.

É necessário fazer um recorte para tentar esclarecer mais o que seria o existencialismo, para tanto vamos no deter em mostrar alguns aspectos da obra do francês Jean-Paul Sartre, aja visto que foi o mais popular dos autores existencialistas.

Sartre escreveu ensaios, romances, peças de teatro, obras sobre política e filosofia. Seu sucesso como escritor ajudou a popularizar (e mesmo vulgarizar) o existencialismo. Sartre tornou-se a personalidade filosófica mais influente no século XX, tendo sempre ao seu lado sua companheira e também filósofa, Simone de Beauvoir.

A angústia e o sentimento de desolação, ante o qual o mundo parece não ter nenhum sentido, dentro do clima vivido durante os anos da Segunda Guerra Mundial, aparecem de forma forte no pensamento existencialista, como no romance-tese de Sartre A Náusea: ?A Náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro; a Náusea sou eu.?

Em certo sentido, o mal-estar é causado pela própria liberdade de ter de decidir sobre o seu ser: o homem para Sartre ?se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais do que o que ele faz.? Essa ênfase ao fazer do homem não simplesmente traz a filosofia do céu à terra, como a joga no cotidiano. Na visão existencialista, a dor, o fracasso, a morte, a angústia, o sexo, elementos que fazem parte da ?mundanidade? antes desprezados pela filosofia, passam a ser aspectos de grande interesse. Por isso mesmo, (ess)a filosofia entra no cotidiano.

O peso dessa liberdade aparece, para Sartre, em certas situações-limite: onde o homem tem de decidir. Por isso mesmo, justifica-se sua afirmativa de que a França nunca foi tão livre como no período de ocupação pela Alemanha nazista: então os franceses tiveram que decidir diante de uma situação-limite, ou se arriscavam lutando na resistência, ou se deixavam invadir. O conteúdo da decisão não importa objetivamente, o primordial é saber que nesse exemplo fica calar a necessidade qie permeia a liberdade.

O existencialismo de Sartre foi duramente criticado por ser visto como uma forma (burguesa ) de individualismo. Esse individualismo seria também amoral. Na década de 40, explica Bivar, ?fosse moda ou filosofia, as boas famílias da época queriam que seus filhos fossem tudo menos existencialistas. Tudo que é rebelde tem um não-sei-quê de excessivo. Excesso de pessimismo, excesso de álcool, excesso de droga. Quando não excesso de violência. E promiscuidade (amor por demais livre). E falta de dinheiro. Sim, por que se o cara pensa ou sonha muito, ele não ganha dinheiro. Assim pensa a família.? Num mundo sem Deus parece que tudo seria permitido, como afirmou Dostoievisk no romance Irmãos Karamazov.
Sartre se esforçou para tentar demonstrar uma dimensão ética no existencialismo: o homem seria livre e responsável também por todas as suas escolhas: ?Sozinho ? e sem desculpas -, o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; mas livre, porque, lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer.? No entanto, Sartre que prometeu dedicar um livro a explicar a ?moral existencialista? nunca cumpriu seu intento. Dessa forma as críticas ao existencialismo continuam pertinentes.

O preconceito contra a moda existencialista desembarcou também no Brasil nalgo que não poderia ser mais popular: uma marchinha carnavalesca. Chiquita Bacana, de Alberto Ribeiro e João de Barro dizia:

Chiquita Bacana
Lá da Martinica
Se veste com uma casca
De banana nanica

Não usa vestido
Não usa calção
Inverno pra ela
É pleno verão
Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração

O existencialismo, embora um tanto desenraizado e vulgarizado, sobreviveria por longo tempo, seja na moda do jazz, café e roupas escuras, seja porque cada vez mais as pessoas lutassem pela liberdade de ?fazer o que manda o coração?.

tags: cultura-e-sociedade filosofia existencialismo sartre moda marcos-carvalho-lopes

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Todo "ismo" tem esse problema, quando é uma boa idéia ou se torna moda ou é esquecida. É uma maldição, ou uma forma de defesa da sociedade atual contra o uso da inteligência, que poderia destruir sua forma de ser.

Pessoalmente, eu não poderia discordar mais com a idéia de que estamos "jogados no mundo", porém também não devemos estar estáticamente infusos nele, como na filosofia hegeliana. Como sempre, filósofos dão bons críticos de teorias alheias mas péssimos propositores de novas teses, caem facilmente na tentação de fazer uma teoria sobre o universo, a vida e todas as coisas. Então lá vai mai uma, bem resumida pelo menos:

Não estamos jogados no mundo, em nós carregamos a herança genética de toda a vida na terra, desde o primeiro organismo. Estamos ligados profundamente à vida neste planeta, fazemos parte dele. Isso não significa que não temos "responsabilidade" por nossas ações. Sim, suas glândulas às vezes falam mais alto que seu cérebro, qual o problema? Ela também faz parte do seu corpo, está sujeita a tudo que ele está sujeito, pela seleção natural uma glândula "não vai querer" colocar o corpo em riso, porém é "livre para decidir" quando fazer você se apaixonar ou perder o controle. O conceito de auto-poieses na biologia da aos homens suficiente liberdade de ação e de interferência em se desenvolvimento, sem a necessidade de que ele se veja como um "estranho no ninho" para poder ter sua individualidade, responsabilidade e liberdade. A ética também está respeitad
Janos Biro · Goiânia (GO) · 3/8/2006 14:16 
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Não sei...nesse ponto acho que ainda sou um tanto cético: acho que por mais que exista uma natureza, o homem a muito está desafiando seus designios..não podemos fugir do corpo: mas podemos viver sem proteses? queremos viver sem proteses? Acho que teria poucos dentes..acho até que certas ferramentas que modificam nosso modo de ser no mundo são proteses (vide o celular, ou sei lá...) o existencialismo está vivo no apelo pela autocriação que não acho que seja contraditório a nenhum darwinismo: os dois podem conviver bem como na filosofia de Rorty...acho
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 31/8/2006 18:31 
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uma provocação....Já pensaram na possibilidade do existencialismo como um "decadentismo" do século XX ?
ronaldo machado · Porto Alegre (RS) · 1/12/2006 18:13 
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