|
| |
O que seria a ?filosofia? da Legião?
|
|

Renato Manfredini Jr. (1960-1996) ficou famoso como cantor e compositor utilizando o nome artístico de Renato Russo. Juntamente com Marcelo Bonfá (bateria), Dado Villa-Lobos (guitarra ) e Renato Rocha (baixista, que deixou a banda em 1988) formou a Legião Urbana, a banda de maior sucesso artístico e comercial do rock brasileiro.
Renato escolheu o sobrenome Russo como forma de homenagear os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russel, assim como, o pintor francês Henry Rousseau. Com o pensador francês Rousseau, Russo compartilhava uma desconfiança quanto à idéia de progresso e uma valorização profunda dos sentimentos. Em verdade, referências a filósofos, escritores e cineastas podem ser encontradas em toda obra da Legião Urbana. No primeiro trabalho do grupo, o álbum Legião Urbana de 1984, que apareceu logo depois de reprovada no congresso a medida que propunha eleições diretas para presidente, já podemos encontrar desconfiança quanto ao progresso da técnica, numa visão filosófica que combina a descrença no futuro dos punks (no future ) com a busca romântica por alguma Utopia.
No refrão da música Petróleo do Futuro encontramos referência a filosofia:
filósofos suicidas
agricultores famintos
desaparecendo
embaixo dos arquivos
A afirmação da existência de ?filósofos suicidas? e de ?agricultores famintos? funcionam como antíteses, figura de linguagem que age unindo idéias que seriam opostas, apontando assim para uma contradição (como o próprio nome diz anti-tese ). Se é contraditório, quando sabemos que a atividade do agricultor é produzir alimentos, falarmos em agricultores famintos, deve ser também assim quando falamos em filósofos suicidas, donde depreendemos que a atividade do filósofo é oposta a do suicida. A filosofia se ligaria à vida, à valorização da vida.
Qual seria a origem da contradição que a música aponta?
Aristóteles dizia que a filosofia começa pelo espanto. O que nos espantaria hoje? Provavelmente as contradições que acontecem em nosso dia-a-dia. Perceber algo para o qual não temos explicação, perceber que as respostas que recebemos prontas muitas vezes são falhas, perceber nossa finitude... Quando não temos esse espanto, nos deixamos simplesmente levar pelo que é comumente aceito, deixamos de buscar qualquer resposta.
Nossa sociedade não prima por querer esse tipo de espanto. As contradições da realidade tendem a ser encobertas, a ?desaparecer embaixo dos arquivos?, como apenas números em estatísticas. A regra pede que esqueçamos tais teoremas e não nos espantemos.
A letra de Petróleo do Futuro começa assim:
Ah, se eu soubesse lhe dizer
o que eu sonhei ontem à noite
você ia querer me dizer
tudo sobre o seu sonho também
e o que é que eu tenho a ver com isso?
Os versos marcam bem a distância que cotidianamente vai separando as pessoas de seus próprios sentimentos e da comunicação desses. Se uma pessoa abre para outra os segredos de seus sonhos o que garante que a outra pessoa teria essa mesma disposição para contar/ouvir? Assim, cresce a indiferença e as pessoas se afastam cada vez mais um das outras: ?e o que é que eu tenho a ver com isso?? (verso repetido várias vezes na letra).
A solução talvez estivesse em se encaixar em uma tribo, onde as pessoas se identificassem e pudessem ser sinceras. Mas, onde existem essas tribos? Seria um devaneio:
Ah, se eu soubesse lhe dizer
o que fazer p?ra todo mundo ficar junto
todo mundo já estava a muito tempo
e o que é que eu tenho a ver com isso?
É claro o teorema, porém, não se desvenda solução. Ninguém toma posição e todos aceitam as coisas como são impostas:
sou brasileiro errado
vivendo em separado
contando os vencidos
de todos os lados.
O individualismo se impõe: a regra é a indiferença e esse é o Petróleo do Futuro.
Como vencer essa distância que cada vez mais afasta as pessoas de uma verdadeira amizade? Como pensar nosso país? Como buscar sentido para nossa vida? Essas questões movem toda a obra da Legião Urbana
P.S.:Esse texto foi publicado na Revista Discutindo Filosofia de numero 3, no entanto, o trabalho editorial da referida revista cometeu diversos equivocos que descaracterizaram o texto. Aqui ele apqrece como o escrevi originalmente...Na revista ele aparece com o estranho título A doutrina do Legião Urbana. Nunca diria que a Legião Urbana tinha uma doutrina, muito menos que queria doutrinar alguém...Falamos a Legião Urbana e não o Legião Urbana!
tags:
musica marcos-carvalho-lopes legiao-urbana filosofia
|
|
 |
comentários  |
postar novo comentário |
 |
| |
|
..Renato Russo nao se preocupava tanto em ser emblematico , mas sim em falar o que pensava e acreditava.
Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes (PE) · 28/11/2006 20:16
1 pessoa achou útil
Sua opinião:
|
|
Não sei bem o que você quer dizer com "emblemático" (pressumo que seja algo como"altamente significativo; exemplar" ) mas Renato Russo tinha total consciência do que uma banda de rock poderia fazer em relação ao seu público. Crenças são hábitos de ação, mas esntre falar e fazer existe uma distância...Renato não era "exemplar" em suas ações, nem queria ser: tentava mudar as coisas e a si mesmo pelas canções...e elaborava esse trabalho de forma muito esmerada, ebora seja dificil reconhecer isso no formato pop em que trabalhou: é difícil combinar elaboração com popularidade...
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 28/11/2006 21:49
1 pessoa achou útil
Sua opinião:
|
|
Antes de mais nada, quero parabenizá-lo pelo excelente texto. Venho lendo alguns de seus textos (com o advento adorável do Overfeeds, que os trouxe à luz do cantinho escondido que eram os blogs do overmundo), e um elogio que se aplica a todos é o de que são muito bem escritos, em um estilo ao mesmo tempo leve e muito consciente e preciso. Meus sinceros parabéns.
Sobre este texto em específico quero também pontuar que tenho, ou tive durante todo o tempo, a impressão de que Renato Russo era algo como uma mescla de filósofo muito consciente com explorador um tanto porralouca de sua própria inconsciência (e note, eu falei inconsciência, não inconsciente). Penso que seus versos são, portanto, uma mistura de colocações poéticas extremamente precisas com palavras jogadas de forma apenas semi-consciente, e nunca sabemos quando estamos nos deparando com um ou com outro. Mas é isso que fascina e assombra na arte. Quando estamos frente à obra de um grande artista, podemos descobrir nesta mesma significados e nuances que nem mesmo ele pretendia, e nem precisava pretender. Seu papel é criar a matéria prima, acabada ou não, para a experiência estética e reflexão. Se ele sabia o que estava dizendo, eu não sei. Mas ele segurametne estava dizendo muitas coisas.
Há uma entrevista do Renato, feita pelo próprio Hermano Vianna, que está hospedada nos arquivos do Banco de Cultura do Overmundo. Confesso que sua leitura me trouxe mais perguntas do que conclusões, mas me reforçou um bocado a idéia de que -- soubesse ele ou não exatamente o que estava fazendo e o que devia fazer, ele sabia muito bem que DEVIA fazer e que estava certo. Não sei se me faço claro, mas creio que o Renato captou uma certa veia e soube que, mesmo não sabendo ao certo o que estava dizendo, sabia que precisava ser dito. Eu acho que é isso, por trás de toda a erudição de Manfredinni, que deu a suas letras tal poder e profundidade. Ele era, entenda como quiser, meio iluminado mesmo.... :)
Abraços do Verde.
Daniel Duende · Brasília (DF) · 14/2/2007 03:10
1 pessoa achou útil
Sua opinião:
|
|
Valeu Daniel Um comentário desses salva o dia! Cara, tornei a Legião uma espécie de obcessão privada e não sei o que está lá e o que invento. Bem...começei nessa pista ao perceber a ligação entre Russo e Rousseau: estava dando aulas de filosofia no estágio e queria arranjar um caminho para fazer com que os alunos se ligassem ao tema...li sobre esse "link" e pensei: será que "Índios" lembra o bom selvagem? De certa forma sim..."Sou um animal sentimental", diz um verso de Sereníssima, pra depois desdizer "Não estou mais interessado no que sinto". Acrditei no quebra-cabeça e não surpreendeu saber que em certas letras Renato trabalhou por mais de 8 anos...criei uma "lógica" e encaixei tudo: será que inventei tudo..rs. Não sei...
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 14/2/2007 11:05
2 pessoas acharam útil
Sua opinião:
|
|
|
|
| |
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
|
|
 |
|
 |
|
|
Fórum do Observatório
Um fórum aberto para a discussão dos temas levantados no Observatório. > participe
|