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O samba nasce do coração: muitas vozes de Mais um Samba brasileiro
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Fiz esse texto para um jornal de Jataí, para divulgar o sitio do Itibiri Sá Burunga na net (que o Murilo fez depois de colocar as canções nesse Overmundo).
Não me atrevo a lhe dizer do que é feito o samba. Noel Rosa bem que nós dá uma pista ao lembrar, na letra de Feitio de Oração, que "Quem acha vive se perdendo" e, para viver essa procura é necessário malandragem. É preciso saber sambar: "e quem suportar a dor de uma paixão sentira que o samba então/ nasce do coração." Seguindo o coração, não seremos escravos dessa gente que cultiva hipocrisia, "que tem dinheiro, mas não compra alegria".
Se a Filosofia nasce do ócio, o samba tem o ócio como ofício, por isso, se a sociedade é inimiga do cantor, Noel Rosa podia retrucar com "razão": "mas a Filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim/ Nesta prontidão sem fim/ Vivo fingindo que sou rico/ Pra ninguém zombar de mim". O chamado "filósofo do samba" concede a si mesmo esse título na letra de Com mulher não quero mais nada: "Eu tenho fama de filósofo amador/ Quem diz que ama nunca sabe o que é o amor/ Amar jurando nunca foi jurar amando/ é por isso que eu juro que o amor não dá futuro!".
Mas a malandragem mudou: se em Memórias de um Sargento de Milícicas e no samba da década de 30, malandragem era se equilibrar entre as classes sociais, mais e mais essa tarefa ficou difícil: o malandro que não trabalha, vive de bicos e pequenas transgressões, perdeu seu romantismo e se tornou na letra de Cazuza, Billy Negão, um mané. Malandragem para Cazuza é buscar outro equilíbrio: é tentar sobreviver sem o clientelismo ("da caridade de quem me detesta"), é tentar viver honestamente/decentemente num Brasil que não lhe convida mais para a festa (na época de Noel, o problema era não ter roupa para ir, agora, sem convite, resta ao malandro-mané, estacionar os carros). Malandragem é viver a realidade, ainda que seja preciso se perder para encontrar, ainda que sejamos poetas e não saibamos amar...
O "samba" virou um mistério: saiu do morro e ganhou o mundo como uma forma de metáfora do que é ser brasileiro. Mas dizer "o que é ser brasileiro" nesse caso, não é dizer algo verdadeiro ou falso: coloque um samba bom pra tocar, que ele mesmo se traduz fazendo os "bons sujeitos" sambarem.
Mas, tem samba em Goiás? Tem sim, O Bira (Itibiri Sá Burunga, o Itibira, o It´s Bira ) tem Mais um Samba, que é bem brasileiro e faz jus a trajetória desse ritmo, que se confunde com a história recente do país. Com a cara e a coragem, ele faz um samba "coralinizado" (de Cora Coralina ), um samba goiano. Se Noel se dizia filósofo amador, Bira humildemente se diz compositor amador e brinca tecendo referências, como à canção bossa-novista Samba de uma nota só, de Tom Jobim e Newton Mendonça. Como um fio puxa outro nas redes do interdiscurso, olhando mais atrás, na década de 30, temos Mais um samba popular, de Noel Rosa, que, assim como as canções de Tom Jobim e Bira, usa o recurso de pedir a indulgência de quem ouve para os ?defeitos? do samba que cantam. Depois de solicitar esse perdão, a canção ganharia de quem ouve um olhar participativo. Assim, Bira pode malandramente dizer que: "Agora o samba não tem mais jeito não/ Correu o mundo a pé ou de avião/ eu vou é já buscar meu violão/ Pra cantar".
Já que pra saber o que é o samba é preciso se perder para encontrar, se filosofia também é estar a caminho e nunca saber com certeza aonde se quer chegar, talvez ouvir um bom samba seja uma forma de filosofar. Talvez não e isso só seja desculpa pra gente ociosa cantar/pensar/malandrear. E pensar o mundo a nossa volta, pensar na vida que se leva, ou que a gente queria levar, ou que nos leva, seria muito diferente de filosofar?
Esses dias ouvi de novo dizer que não existe Filosofia no Brasil. Pensei: ainda bem, essa coisa com letra maiúscula cheirando a teologia nunca fez bem a ninguém. Nunca vamos ter um sistema filosófico que tudo explique: só a ironia de Machado de Assis para os que tentam montar sistemas assim. Só temos filosofia, com letra minúscula, que é a sem grandes poderes, mas é como a conversa de um ser vivo mortal com outro igual. Essa filosofia não precisa de Academia, como disse Tom Zé em Complexo de Épico: "Todo compositor brasileiro é um complexado,/Por que então essa mania danada,/Essa preocupação de falar tão sério (..)/E por que então essa vontade/De parecer herói ou professor universitário/(Aquela tal classe/ Que ou passa a aprender com os alunos/ " Quer dizer, com a rua "/Ou não vai sobreviver )"/Porque a cobra já começou/a comer a si mesma pela cauda/sendo ao mesmo tempo a fome e a comida,/ Ah e lá vem ele sério(...)." Se essa MPB rimou com democracia, a filosofia deve procurar rimar também.
Meu inconsciente musical brasileiro às vezes me pega desprevenido: vou saber o que sinto, desvendando a canção que não sai de meu pensamento. Como diz bem o pessoal do Skank, Uma Canção é pra isso: "Pra acender o sol no coração da pessoa/ fazer brilhar como um farol/ o som assim que ressoa/ pra celebrar, pra reunir a cidadela/ pra celebrar, pra reunir/ bairro e favela". A Música Popular Brasileira sempre quis isso mesmo sem querer: traduzir o que é o Brasil e pela música que toca A Banda que passa fazer todo o povo mais feliz. Uma Utopia que começa no coração de quem ouve uma canção dessas e se identifica. Que bom que aqui também tem samba!
Quem não sabe tocar violão ou cantar, pode comprar o CD Sombra Azul e ouvir Mais um Samba, que é uma de suas faixas. Quem não puder comprar, pode ouvir no sitio do Bira na Internet suas canções (http://www.inf.ufg.br/~muriloferraz/bira.html). Quem gostar e quem não gostar, pode ficar atento pra conferir ao vivo esse artista jataiense, que vêm se apresentando junto com o cantor Marcelo Resende e trazendo uma sonoridade que caminha entre a MPB e o pop rock, com espaço para bons sambas.
tags:
musica filosofia samba itibiri marcoscarvalholopes cultura-e-sociedade
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