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Os Dez Melhores Discos do Rock Gaúcho: Graforréia Xilarmônica
Eduardo EGS, Porto Alegre (RS) · 26/6/2006 09:25  

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overponto
Divulgação: Todos os Direitos Reservados.

Nada pode ser mais clichê do que usar o termo "seminal" pra descrever o trabalho duma banda. Quando eu lia a Bizz, nos idos da década de 90, sempre que se falava de alguma obra importante, aparecia esse termo. Mas mesmo assim, sou obrigado a utilizá-lo aqui. Porque, realmente, a Graforréia é seminal pro dito rock gaúcho, não tem jeito.

A influência deles sobre a gurizada é brutal e foi responsável pela descoberta da Jovem Guarda, mesmo antes desse maldito revival sessentista. E ouvir esse primeiro disco deles, o Coisa de Louco II, de 1995, é entender o motivo disso tudo. É só clássico, um atrás do outro. Até porque as músicas não foram compostas na época do lançamento e sim reunidas a partir do vasto repertório da banda, ainda do tempo em que o Marcelo Birck era compositor e guitarrista do grupo. Tanto que quase todas as faixas do álbum são de autoria da dupla Frank Jorge e Marcelo Birck.

Começando por Literatura Brasileira, com sua letra inspiradíssima: "Eu quero escrever um livro sobre literatura brasileira/Nem que seja enchendo morcilha/Nem que seja dizendo besteira/Eu quero colocar meu primo/Na academia de letras brasileira/Nem que seja mascando capim/Nem que seja plantando bananeira". O solinho é puro rock and roll, diria até redondinho, perto da normalmente caótica guitarra do Carlo Pianta. Bagaceiro Chinelão é doença pura, das barulheiras do Pianta até a letra com versos tipo "Suas velhas roupas em farrapos/Mostram mais de vinte mil perebas/Por toda a extensão de seu corpinho/Furúnculos, feridas e fimoses/O seu nome era Moisés". Bizarra.

Você foi embora foi composta apenas pelo Frank. Mas isso nem precisaria ser dito. É só prestar atenção nos versos românticos pra sacar: "Você nem imagina/O quanto gosto de você/Minha menina/Esteja onde estiver/Há tempo ainda/Se você quiser". A meiguice da Jovem Guarda com todas as letras. "Grito de Tarzan" faz uma bela dobradinha de temas do coração, com a diferença que essa tem humor na letra. O comecinho com dedilhado jovemguardístico já entrega o jogo. "Vou chamar o meu benzinho/Com o meu grito de Tarzan/Não importa a distância/Por mais longa que seja a estrada/Ainda tenho esperanças/De esperar pelo grito de Jane da minha namorada", diz o Pianta. O verso seguinte consegue ser ainda melhor: "E nem tão pouco me importa/Se quem me ouve vai acreditar em mim/E o telefone é tão fora de moda/Não vejo a hora de ouvir os seus gritinhos/Pertinho de mim".

Minha Picardia inaugura uma série de faixas com trocadilhos sexuais, uma marca característica da banda. "Ardia tanto, o meu pobre coração/Por não ter sua companhia, por viver na solidão/Minha picardia, picardia, picardia/Em função do sofrimento/Por isso eu canto todo dia/Esse lamento". A música seguinte, Patê, pega ainda mais pesado: "E andam dizendo que a garota quer/Não custa nada dar pra quem não tem/Mas não precisa dar se não quiser/E andam dizendo que a garota quer/Agasalhar o patê". Pra fechar, os impagáveis versos: "Eu não acredito que você não gosta mais de mim/Eu não admito que você me troque por outra mulher".

Nunca Diga, outra só do Frank, mostra bem o caminho que ele seguiria na carreira solo. Romantismo rasgado, arranjo bonitinho e sem barulhos: "Fui lhe mostrar um disco que eu comprei/De um cantor que eu sempre gostei/Mas você não me deu atenção/E voltarei pra casa pelo mesmo caminho/Escutarei o meu disco sozinho/Dentro do meu quarto na escuridão". Pra contrapor, Denis retoma as bagaceirices de praxe: "Inês, o que você fez Inês/Para curar, a cabeça do Denis/Inês, porque você não beija/Um beijo supimpa/Na cabeça do Denis". Pura Graforréia.

Eu Digo 7 é pura alegria. Na música e na letra: "Eu digo sete/Sete anões para uma branca de neve/Ela diz não agüento mais me sinto cansada/Depois das sete/Lá vem eles com o estômago roncando/E lá vai a branca de neve preparar o rango". Só a Graforréia consegue ser meiga e bagaceira ao mesmo tempo. Só. Encerrando o disco, o hino chamado Rancho. "Vamos para o rancho/Vamos para o rancho/Se você não for para o rancho/Não sabe o que está perdendo", convoca o Frank. "É no meu rancho lá em Alvorada/É onde eu tenho um harém de empregadas/Sim, oh yeah, meu amooooor, coração". Sensacional. Melhor forma de fechar uma estréia mais do que tardia duma banda que, realmente, é seminal. Com o perdão do clichê.

tags: musica graforreia-xilarmonica frank-jorge marcelo-birck jovem-guarda rock-gaucho


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