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Os Dez Melhores Discos do Rock Gaúcho: Lovecraft
Eduardo EGS, Porto Alegre (RS) · 4/7/2006 14:16  

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overponto


Pra algumas pessoas, ecletismo é sinônimo de mau gosto ou falta de convicção. Pra mim, é justamente o contrário. E o ecletismo desse disco da Lovecraft é o que faz com que ele seja tão bom. É Plato Divorak na melhor forma, com letras inspiradíssimas e uma banda de feras como Régis Sam no baixo, Beto Nickhorn na guitarra e Vilson Picco na bateria.

O álbum abre com a sugestiva A História do Roque Gaúcho, uma viagem no tempo e na cabeça do Plato: ?O Liverpool veio das cinzas do seu coração/Trilhei o IAPI com anéis e flores na mão/Entrei no sovaco da Elis e chorei/Pois um anãozinho morto estava lá?. Na segunda estrofe, mais história: ?Aí veio a onda do tchê-milonga/Almôndegas, alaskas e castiçais/Prefiro a lucidez dos velhos novos xamãs/Mas encontro eles travestidos de rock inglês?. No meio dos versos aparentemente sem sentido, tem muita verdade sobre o som feito aqui, podem apostar.

El Relikário é psicodelia das boas, com guitarra arrastada e efeitos espaciais. ?Sob os domínios da astronomia/Decifraste o meu plano astral/Hydra, não pense nas coisas que eu não fiz/Algum dia um delírio tropical, que legal?, canta o Plato. O refrão carrega no surrealismo: ?Todos usam batom/Menos eu/El Relikário de las visiones/Todos esmerilham/Até você/E tudo vai bem com Bardahl?. Em Just the Best o inglês é falhado, mas a melodia não tem erro. Ótima guitarra, mesmo. ?I made my fight to fly high and I?m not satisfied/Honey all this people wanna knows/Who are you gonna fuck tonight??. O solo é muito bom, econômico sem ser pobre. E um dos versos finais é uma pérola: ?Smashing my sex in summertime/Rocking my head in a crossroad/A blonde is the price of her cruel hate/It?s like many other ways to follow?.

Mulheres Executivas (cilíndricas, tortas) é sensacional. Guitarrinha marcada e bateria pegada. A letra é singela ao extremo: ?Mulheres executivas pegando carona com que não é/E essa sombra é/Um cara que vai enfiando o dedo no cu delas?. Depois do solinho rock and roll, a música vira um baião, com a guitarra simulando um triângulo. Mas em seguida o rock volta com tudo: ?Mulheres executivas pegando carona com quem não é/E essa sombra é/Esse clip infernal/Com tamborins de pele de mulher/Lembrava o Grande Otelo/E as vedetes da Cinédia?.

Pop perfeito tem nome. E aqui ele atende por Amônia. O Frank Jorge toca teclado e dá um clima sessentista pra faixa. E o Plato se encarrega dos absurdos na letra: ?Quebrei o vitral que eu mais gostava/Mas prefiro pensar em uma guerra de lava/Tudo diz que ela voltará/Terei trapaceado sem me lembrar/Que havia um terráqueo no seu olhar?. Quem toca bateria aqui é o Gésner Mess, quebrando tudo. No final a letra fica ainda mais impressionante: ?Tudo diz que ela voltará/E atrás do palco móvel vai se atirar/Com lágrimas andróginas de rubi?. É, amônia.

O Frank também aparece em Unisex Girl, só que não tocando e sim como compositor ao lado do Plato. Mais uma letrinha daquelas: ?Eating bees/In sixties/A top of the pop sees/Your unisex girl/Eating mouths in nineties/The fool dress you all/I?ve been right/Or almost wrong/But I?ve been with you?. E com refrão genial: ?I love you, more or less/O-oh gi-rl/How ride my english lessons?? Convite irrecusável, esse. Vinho Tinto, Suíngue & Osíris é suingada, como diz o nome. ?Ligue o canal 7 dos delírios/Disse uma criatura/Do alto de um poste de neon/Ela olhava pra dentro de mim?, viaja o Plato. E continua: ?Às vezes você me trata/Impiedosamente/A bordo da puta que eu fui/Como se fosse a fé/Só que mais flower/Só que com outra mulher?. Baita música.

Geração X é um popzinho dos bons. ?Uma noite Jelly se viu no rolling playing game/Depois de tudo que aconteceu/Entre você e eu/Posso acreditar em aventuras/Que não me levam a lugar algum/Senão a imitar velhos gestos sacanas?, diz a letra. E o refrão afirma: ?Não sou real nessa Geração X?. We are the Flintstones já seria curiosa pelo nome, mas a letra consegue superar a estranheza do título: ?We are the mushroom of war/We are the strawberry fields/Why we are so romantics?/We are the Flintstones to kill, kill, kill, kill you?. Dispensa comentários.

Não sei viver foge da doideira freqüente das letras do Plato e tem uma melancolia não encontrada em nenhuma outra música dele. É realmente bela. ?No começo era só você/E as microfonias de verão/Mas veio a chuva e apagou/Não sou cruel/Pra sentir teu fel/Você é linda, até demais/Já estou perdendo a razão/Olha a mudança da estação/Juntei tudo, eu não saberia/Dizer-te o novo endereço/Só sei que o longe não existe?. E o refrão é sucinto: ?Não sei viver?. Simples assim.

Com uma qualidade inexistente nas gravações do Plato até então, esse disco da Lovecraft prova que boas idéias e bons músicos conseguem fazer obras-primas quando querem. E eles quiseram.

tags: musica frank-jorge lovecraft platodivorak krakatoa-records psicodelia rock-gaucho


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