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Dizem que, certa noite, voltando de uma temporada em Berlim, Raymond Aron expunha para Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre as boas-novas de um método que poderia trazer o filosofar ?para o cotidiano?: era a fenomenologia de Edmond Hurssel. Estavam em um bar e Sartre teria ficado assombrado/entusiasmado com a possibilidade de pensar filosoficamente a partir do copo de suco que estava tomando.
A fenomenologia de Hurssel, paradoxalmente, pretendia dar ?caráter científico? para a filosofia. Seu método pedia que o analista ?colocasse o mundo entre parênteses?, buscando descrever o objeto tal como ele é: o analista deveria tentar suspender qualquer atribuição de valores externa ao objeto em análise, para, daí adquirir sua ?exatidão?.
Sartre costumava freqüentar um café onde o dono reservava o pavimento superior para que os escritores continuassem a escrever, mesmo fora do horário de funcionamento do estabelecimento. Sartre escrevia mesmo quando o café estava cheio, o que, segundo João da Penha, pode ser uma explicação para as constantes referências para situações típicas desse ambiente em sua obra filosófica mais importante, O Ser e o Nada.
Nessa obra, Sartre se vale da imagem de garçons, casais de namorados, mesas de bar, etc.. para expor sua filosofia em caudalosas 750 páginas. Um dos muitos exemplos instigantes e o da mão-boba para explicar o que seria má-fé. Diz Sartre: ?Eis, por exemplo, o caso de uma mulher que vai a um primeiro encontro. Ela sabe perfeitamente as intenções que o homem que lhe fala tem a seu respeito. Também sabe que, cedo ou tarde, terá de tomar uma decisão. Mas não quer sentir a urgência disso: atém-se apenas ao que de respeitoso e discreto oferece a atitude do companheiro. Não a apreende como tentativa de estabelecer os chamados ?primeiros contatos?, ou seja, não quer ver as possibilidades de desenvolvimento temporal apresentadas por essa conduta: limita-se ao que é no presente, só quer interpretar nas frases que ouve o seu sentido explícito, e se lhe dizem ?eu te amo muito?, despoja a frase de seu âmago sexual: vincula aos discursos e à conduta de seu interlocutor significações imediatas, que encara como qualidades objetivas. O homem que fala parece sincero e respeitoso, como a mesa é redonda ou quadrada, o revestimento da parede azul ou cinzento. E qualidades assim atribuídas à pessoa a quem ouve são então fixadas em uma permanência coisificante que não passa de projeção do estrito presente no fluxo temporal. A mulher não se dá conta do que deseja: é profundamente sensível ao desejo que inspira, mas o desejo nu e cru a humilharia e lhe causaria horror. Contudo, não haveria encanto algum em um respeito que fosse apenas respeito. Para satisfazê-la, é necessário um sentimento que se dirija por inteiro a sua pessoa, ou seja, à sua liberdade plenária, e seja reconhecimento de sua liberdade. Mas é preciso, ao mesmo tempo, que tal sentimento seja todo inteiro desejo, quer dizer, dirija-se ao corpo como objeto. Portento, dessa vez ela se nega a captar o desejo como é, sequer lhe dá nome, só o reconhece na medida em que transcende para a admiração, a estima, o respeito, e se absorve inteiramente nas formas mais elevadas que produz, a ponto de já não constar delas a não ser como uma espécie de calor e densidade. Mas eis que lhe seguram a mão. O gesto de seu interlocutor ameaça mudar a situação, provocando uma decisão imediata; abandonar a mão é consentir no flerte, comprometer-se; retirá-la é romper com a harmonia turva e instável que cosntitui o charme do momento. Trata-se de retardar o mais possível a hora da decisão. O que acontece então é conhecido: a jovem abandona a mão, mas não percebe que a abandona. Não percebe porque, casualmente, nesse momento ela é puro espíto. Conduz seu interlocutor as regiões mais elevadas da especulação sentimental, fala da vida, de sua vida, mostra-se em seu aspecto essencial: uma pessoa, uma consciência. E, entrementes, realizou-se o divórcio entre corpo e alma: a mão repousa inerte entre as mãos cálidas de seu companheiro, nem aceitando, nem resistente ? uma coisa.?
Nesse caso, nossa senhorinha está de má-fé, se deixa transformar em objeto, desfrutando do prazer daí advindo, no entanto, faz todo o possível para manter-se ausente, numa passividade consentida: representa, por isso age com má-fé (o que para Sartre na trás nenhum sentido moralizante: as pessoas na maior parte do tempo agem de má-fé, não reconhecendo a própria liberdade ).
Por conta desse tipo de coisa Sartre foi o pensador mais popular do século XX e (também por isso) um dos mais contestados.
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