| |
segunda parte do artigo sobre Hirundo Medicinalis
|
|
HIRUDO MEDICINALLIS
ou o romance da indiferença (II)
Para contar a história de Hirudo Medicinallis, Ademir Luiz usa a técnica da narrativa em primeira pessoa. Os olhos de Lord Düsseldorf serão nossa ?câmara?, através deles veremos o desenrolar da história. Para ser coerente com a técnica adotada só saberemos o que Lord Düsseldorf souber, e dele, é bom lembrar, jamais saberemos o nome ?real?. Jamais saberemos sua real identidade, e a perda da identidade é um dos temas que subjazem naquele romance. A narrativa em primeira pessoa funciona, neste romance, para introduzir verossimilhança, o que é habitual, mas também incerteza. O narrador não se explica, não se decifra, na verdade não sabe de muita coisa. Em sua principal aventura, o roubo da Mona Lisa, tem apenas um papel de coadjuvante, mas pagará um preço por esse papel. Ele não tem certeza quanto a muitos aspectos da história que narra. É uma narração em primeira pessoa, mas com repercussões da técnica conradiana que consiste, basicamente, em introduzir elementos de dúvida, quebrando a figura do narrador onisciente. Lord Düsseldorf, está longe de ser onisciente, e, como qualquer um na vida real, tem dúvidas, não tem explicações ou certezas para tudo.
Uma das melhores ironias do romance é que essa incerteza é construída através da infiltração em um denso aparato de informações. Todas aparentemente muito precisas, muito confiáveis, entre as quais abundam os comentários sobre filmes, muitos filmes ? afinal um dos cenários principais é o Cinematógrafo Kubbrick ? e muitas, muitas obras literárias. Os filmes, para maior credibilidade, são citados sempre em seus títulos originais. Datas de filmagens, atores, diretores, tudo está ali: preciso, claro, conferido em fichas de cinéfilo. Mas, o cinema é só ilusão. Lembremos. Lembremos também que a biblioteca de Alexandria, onde Lord Düsseldorf trabalha, tem o apelido de Torre Cega de Babel e o nome de Jorge Luis Borges, autor que sempre utilizou o recurso de citar livros que jamais foram escritos. E o autor define seu livro, como já fizera antes um dos personagens, Lord Byron, ao encerrar uma narrativa: ?este livro é, na realidade, um filme?. Farsa, paródia, pastiche, citações literárias, que se acumulam sobre citações cinematográficas, essa técnica de montagem do texto cria seu estilo, mas também cobra seu preço. Por conta dela vários personagens do romance não são propriamente personagens, mas apenas nomes, figurantes para usar outro termo do cinema. O excesso de citações torna longos trechos do livro bastante áridos, às vezes parecem ser apenas uma exibição de erudição. Mas também isso pode ser só uma ilusão, afinal aquela aridez combina-se com precisão com o caráter de Lord Düsseldorf. Aqueles defeitos e imprecisões narrativas se encaixam na lógica geral do livro, fazem parte de sua coerência interna, afinal, lembremos uma última vez, nossa câmara são os olhos de um vampiro de brinquedo. Uns olhos pós-modernos por excelência. Pós-moderna é a tribo dos vampiros bem como sua bebida cerimonial, o rubro, uma curiosa mistura de vinhos e ?uma gota de sangue humano?, mas também, groselha e morango. Na bebida uma síntese comum nos dias de hoje, quando proliferam as mais estranhas seitas: antigos rituais e tradições misturados em ajuntamentos improváveis, atualizados para consumo, quando sequer se percebe qualquer problema em jogar, numa mesma panela, elementos completamente estranhos, quando não auto-excludentes, alguma coisa como um tarot cabalístico dos orixás.
O endereçamento a Orson Welles da carta aberta ? o que dá forma a todo o romance ? é também simbólico. Welles ficou estigmatizado na indústria cinematográfica como o consumado mestre dos filmes inacabados. A exceção, a gloriosa exceção é ?Cidadão Kane?, seu filme de estréia, depois vieram os fracassos, todos cobertos por uma reluzente aura. Aura forjada por fortunas perdidas, filmagens inacabadas ou filmes que, considerando que eram obras do genial Orson Welles, poderiam ser melhores do que foram, talvez não. Welles tornou-se uma espécie de espectro de si mesmo, um personagem de si mesmo.
Hirudo Medicinallis pode ser descrito como um romance da indiferença. Reflete a indiferença generalizada, anestesiante, que se espalha pelo mundo, favorecendo o comodismo, a aceitação da violência, do absurdo. O excesso de informações, notícias, mensagens, meios, imagens, símbolos, signos, sons, ruídos, cores, gera uma resposta de defesa: a indiferença. Lord Düsseldorf, o personagem central de Hirudo Medicinallis, exibe exatamente essa indiferença contemporânea. Ele simplesmente se deixa arrastar pelos acontecimentos. Toda a ação do livro passa através de Lord Düsseldorf, do sempre irônico e frio Düsseldorf, acima de tudo frio, emocionalmente frio. Assim ele se apaixonará ? se o termo não for excessivo ? por Ariadne, uma mulher no qual confluem dois rostos cinematográficos: Isabele Adjani e Bibi Anderson. Mesmo então a baixa temperatura se mantém. Um sintoma: o modo como Lord Düsseldorf descreve seus encontros sexuais com Ariadne. Existem muitos verbos, na verdade umas boas centenas, que nomeiam o ato sexual, Lord Düsseldorf escolherá, sempre, sem qualquer variação, a mais neutra e técnica de todas: copular. Ao escolher o verbo mais técnico nosso vampiro de brinquedo não escapa da clássica cisão que opõe físico e espiritual, corpo e alma.
A repetição daquele verbo não é um descuido do escritor, mas resulta de um traço essencial do personagem. Ele nos fora apresentado, logo no início do livro, como um estudante que faz longas caminhadas noturnas por Alexandria. Ao fim do livro, após todas as peripécias, novamente está só e caminhando pela noite da grande cidade. A negação do autor de situar, em uma cidade real, com ruas, praças, língua e história, a ação do livro é coerente com o caráter artificial de todo o romance. Numa guerra preventiva, o autor assume Hirudo Medicinallis como um ?romance colonizado?, supondo, assim, responder a um tipo de crítica a seu livro, uma crítica que poderia apontar o caráter artificial de toda a trama e de seus personagens. Mas nesse artificialismo, nesse mundo fabricado, up date, é coerente com a história narrada. É, mais ainda, coerente com uma fase atual de desenvolvimento, em que todas as grandes cidades vão tendendo a se tornar Alexandrias. O caráter colonizado é menos do livro, que do mundo sob o mando de um império.
Alexandria: uma cidade que é apenas um nome, uma cidade que se tornara, num projeto de reformulação urbana global, cada vez mais indiferenciada, cada vez mais padronizada: os mesmos anúncios brilhantes, as mesmas bebidas, roupas, cores, os mesmos bens de consumo, exclusões e violências. Tanto faz: Londres, São Paulo, Cingapura, são todos lugares-espelho de uma espécie de Los Angeles, não a cidade real, mas a de Blade Runner. Aliás, leitor, outro sentido para indiferença, é a ausência de marcas identificatórias, ou seja, falta de identidade.
Sim, os vampiros de Ademir Luiz projetam seu reflexo no espelho, seguem girando por cidades escuras e sem marcas, num mundo que abole a identidade local, regional, nacional, para, num mesmo movimento dialético, preserva-la em formas novas e vê-la reerguer-se, violentamente, em fundamentalismos, em seitas, em neo-nacionalismos Por mais indiferente e frio e cínico que seja Lord Düsseldorf, por menos que simpatizemos com esse personagem com ele compartilhamos o mesmo mundo cindido e artificioso, o mesmo tempo escuro, que não foi criado por nenhum escritor, mas com o qual todos temos de nos haver. ?Essa criatura da escuridão a reconheço como minha? parece dizer o romance, repetindo o que dissera Próspero a Caliban.
tags:
literatura
|
|