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Tá legal, eu tô ligado! O Paradoxo de Marta e outras interrogações
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 21/1/2007 15:10  

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overponto
Ímagem de Divulgação
Lília Cabral interpreta a Marta na novela Páginas da Vida
Ultimamente tenho escrito poucas coisas para esse blog. Dois motivos comunicáveis servem como desculpa: (1) estou mergulhado na construção de minha dissertação de mestrado; e (2) estou em crise com meu trabalho anterior. Quando digo ?trabalho anterior?, me refiro a tentativa que tenho feito de pensara tópicos de filosofia a partir de letras de canções, filmes etc. A minha grande questão hoje é o que chamo de paradoxo de Marta: a personagem interpretada pela atr´s Lília Cabral, que é a vilã da novela das 8 é contraditória, vive de festas infantis, mas odeia crianças, se emociona e vai as lágrimas assistindo filmes, no entanto, é incapaz de se identificar e agir de forma solidária com as pessoas que estão ao seu lado. De passagem, vi uma dessas cenas e fiquei impressionado. Isso, junto com outras experiências, me levou a questionar sobre até que ponto livros, filmes, novelas etc., podem ajudar na educação moral. Será que essa perspectiva estetizante, em que buscamos nos recriar constantemente mais do que manter constante uma identidade, pode se combinar com uma idéia de moralidade pública? Será que o discurso que espera que a arte, os esportes etc., mudem nossa realidade, não serve mais de mecanismo de cartase, em que descarregamos nossas emoções e deixamos as coisas como estão? Que outro caminho teríamos para a educação moral?

Você pode dizer: ta legal, eu to ligado e celebrar da distância de quem assiste os problemas que nos cercam. É a posição de espectador que faz crescer as teorias. As teorias nos dizem sobre o possível e o impossível, mas na hora da ação, o que vale são as crenças que conseguem gerar prática. Na perspectiva pragmatista crenças são hábitos de ação. Mas devemos observar que nem toda crença gera ação imediata: podemos esperar a hora certa para agir ou mesmo, nunca agir. Acho que é assim na maioria das vezes quando se abordam questões ecológicas: ?todo mundo sabe? da urgência dos problemas, mas... não sente que é hora de traduzir isso em ação.

Explicando a obra do fundador do pragmatismo, Charles S. Peirce, John R. Shook afirma que ?a linguagem não é o melhor guia para conhecer as crenças reais de uma pessoa. Apenas observando o que uma pessoa faz é que podemos compreender em que ela realmente acredita. Às vezes as pessoas não dizem a verdade sobre suas crenças. E às vezes, quando elas tentam descrever com sinceridade aquilo em que acreditam, suas palavras não são suficientes para elas se expressarem com clareza? (SHOOOK., J. Os pioneiros do pragmatismo americano. Rio de Janeiro: DP & A, 2002. P. 54 ).

Ta legal, eu to ligado: ?saber todo mundo sabe/ querer todo mundo quer/ é mais fácil falar do que fazer?. Na hora de agir, não existe plano B, não existe uma teoria que sirva para todos os contextos e, mesmo para sobreviver é preciso que modifiquemos constantemente nossas crenças, descartando as que não funcionam. Na hora mais radical, na prática e em seus efeitos é que podemos entender a importância de uma crença.

Você pode dizer, ?tá legal, eu tô ligado?, e na hora de agir posicionar-se como espectador de coração blindado. ?Com a coragem que a distância dá?, comentar em tom diferente: ?ta legal, eu to ligado?!

Tanto faz, como os racionalistas, tentar buscar uma visão superior, ideal acima dos sentimentos humanos, ou, como os românticos, mergulhar nas profundezas do coração do homem, tentando desvendar a essência do humano: nos dois casos a direção é vertical, a procura é por um lugar privilegiado para ver o que acontece. Contemplar e dizer o que é. Fica mais fácil!

Ainda não sei como sair do Paradoxo de Marta, nem sei se é possível sair dele. Mas acho que é importante levantar a questão. Por enquanto continuo no mesmo caminho: esse texto foi construído em diálogo com três canções dos Engenheiros do Hawaii (que devem aparecer em seu próximo álbum, mas já podem ser ouvidas em versões demo em seu site): Vertical, Plano B e Coração Blindado.

Tá legal, eu tô ligado: é o mesmo caminho estetizante...mas por hoje só tenho as questões e a dúvida radical: estamos à caminho. Melhor assim.

É isso.

Inté.

tags: cultura-e-sociedade engenheiros-do-hawaii educacao marcoscarvalholopes filosofia

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Legal o texto... faz tempo que tava na cabeça, né?
Murilo Ferraz Franco · Jataí (GO) · 22/1/2007 17:40 
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Salve meu bom Marcos! fico feliz que sua criatividade não tenha se abalado....
mas sobre o texto: As pessoas até tentam sabe? elas querem superar seus problemas e, de fato, se estabelecerem como pessoas boas... entretanto, tem a tal busca da felicidade pra impedir...
No "mau estar na civilização", Freud afirma haver três fontes de sofrimento, e que sãoo eles o resonsaveis, pelo grande mau estar dos homens: A fragilidade diante da natureza, a fragilidade do corpo e as frustrações nas relacões sociais. Eles estãoo sempre presente no cotidiano, e as pessoas que não conseguem se assumir diante deles, sofrem por nao se aceitarem e consequentemente se tornam o "paradoxo" que vc citou....
eric renan ramalho · Belo Horizonte (MG) · 22/1/2007 20:29 
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Valeu Murilo e Vetruviano Renan pelo diálogo...A idéia tava aí faz tempo...o tempo é que não tava de colocar as coisas no papel. Como diz dona Julia Kristeva, toda imaginação demanda melancolia e toda escrita demanda amor...mesmo quando o suícida escreve sua carta, deseja por fim ser compreendido pelos demais...etc..etc...
Vetruiano, sua idéia "é legal, eu tô ligado", mas não quero usar esse caminho porque de certa forma pressupõe um "eu interior verdadeiro" que não se consegue aceitar, que não consegue lidar com o mundo a sua volta...se deixarmos de lado a idéia de eu interior verdadeiro e pensarmos que o homem é formado em sua relação com o mundo, as fragilidades fazem parte dessa interação..talvez a busca de valores eternos e atemporais, para além da finitude humana seja também alimento desse paradoxo...não sei, mas valeu por continuar fazendo tabelinha comigo e fazendo o jogo correr. Filosofar é estar à caminho e como diria um incerto poeta beat "a estrada é a vida"
Marcos Carvalho Lopes · Jataí (GO) · 22/1/2007 21:12 
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Marcos,
"Vejo" a Marta quase diariamente. Me interessa, e muito, a pobreza/riqueza de personagens criados e desenvolvidos sabe-se lá baseados em que ou em quem, mas que de qualquer maneira, invadem nossas casas/vidas/costumes/ações. Incrível e frustrante é que quando penso que achei o fio da meada, o personagem "troca" de personalidade o que resulta no confinamento do absurdo. Realmente não sei como ao menos tentar responder a questão sobre até que ponto livros, filmes, novelas etc., podem ajudar na educação moral. Óbvio que nos livros, filmes (alguns) e musicas (algumas raras) desfrutamos sim de informações que não se deve rejeitar, que merecem nosso apreço e que nos embrenhemos em investigações minuciosas. O que observo nas novelas é que, apesar do poder indiscutível de influência sobre o comportamento, não vejo como a grande maoria dos personagens possa ajudar na "educação moral" (nessa observação me esforcei para não usar meu escapismo). A Marta é um exemplo disso. No meu dia-a-dia já ouvi, diria até por várias vezes, a seguinte observação: "ela (fulana) é igualzinha a Marta!". Conclusão: Marta virou sinônimo de loucura. Assim simples.
Você considera, e eu concordo, que as pessoas de uma forma ou de outra tentam buscar uma visão superior na procura de um lugar privilegiado...contemplar e dizer o que é!! Eu ousaria completar com um "da maneira mais fácil, sem comprometimentos".
Acho que ninguém sabe como sair do Paradoxo de Marta. Nem o autor!!!
Obrigada pelo seu texto.
Um abraço,
smbarcellos.
smbarcellos · São Paulo (SP) · 27/1/2007 02:26 
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Concordo contigo, minha cara! os personagens são apenas retratos de situações, não sendo uteis, demos observá-los e admitir sua realção com o real. entretanto naum somam a nossa vida uma experiencia critica, embora eu acredite que aos intelectuais eles surjam como abjeto de reflexão...
eric renan ramalho · Belo Horizonte (MG) · 12/2/2007 20:25 
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