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Tropa de Elite, Globalização e fronteiras sem lei
Marcos Carvalho Lopes, Jataí (GO) · 21/2/2008 00:07  

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overponto
“O que sentem repugnância pelo vagabundo que encontra na rua simpatiza de todo o coração com o vagabundo Carlitos, no cinema. Enquanto na vida cotidiana, somos quase indiferentes às misérias físicas e morais, sentimos a comiseração, a piedade e a bondade, ao ler um romance, ao ver um filme.” Edgar Morin

No sábado, dia 16 de fevereiro de 2008, o filme Tropa de Elite recebeu em Berlim o Urso de Ouro, como melhor filme no prestigiado Festival de Cinema daquela cidade. O prêmio foi entregue pelo presidente da comissão julgadora, o diretor franco-grego Constantin Costa-Gravas, famoso por fazer filmes de denúncia política, como Estado de Sítio (1972) em que criava um país imaginário para fazer uma alegoria do estado de exceção então existente em diversos países da América Latina com suas Ditaduras, nas quais a legitimação da tortura e o desrespeito aos direitos individuais haviam tornado-se regra. Não por acaso, em segundo lugar no mesmo festival, foi premiado o documentário de Ersol Morris, Standart Operating Procedure, que tratava da tortura de presos iraquianos no presídio de Abu Ghraib.

Diferentemente do Estado de Sítio descrito por Costa-gravas na década de setenta, advindo da instituição da repressão, os dois filmes premiados nas primeiras colocações em Berlim, tratam da migração do Estado de exceção para as periferias das grandes cidades, assim como, dos abusos do uso da “violência preventiva”, que marcam a estratégia de luta contra o terrorismo em termos globais defendida pelos EUA depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Trata-se agora de contextos formalmente democráticos onde a violência e a tortura são denunciadas. Como aponta o filósofo Giorgio Angambem, é como se hoje se multiplicassem “campos de concentração”, que excluem seres humanos, a tal ponto que qualquer ato cometido contra eles não seja considerado um delito. É assim que são tratados muitos dos que vivem nas periferias das grandes cidades (só das grandes cidades?), é assim que os EUA mantêm presos políticos sem julgamento em sua base militar em Guantánamo, é assim que os muçulmanos são tratados por Israel etc.

Estes exemplos de segregação apontam para um perigo que não está tão distante de nós: os excluídos de nossa sociedade de consumo muitas vezes são tratados de forma semelhante. É assim nas penitenciárias (onde meninas podem ficar presas junto a homens ante a indiferença dos que aplicam as leis), é assim que muitas vezes se trata os trabalhadores sem terra, ou os índios, os que habitam a fronteira de nossa civilização e são considerados perigosos. Os que não podem comprar a boa vida proposta pelo mercado, os consumidores falhos, são os novos impuros a ameaçam a ordem da civilização atual.

Como os educadores podem lidar com esse tipo de questão? Eles podem lidar com esse tipo de problema? Antes eles precisam enfrentar as pressões no sentido de tornar a educação também um produto e não um direito. Esse processo de transformação de direitos em privilégios atingiu em cheio o sistema de saúde públicos do Brasil: para ser (bem) atendido em um hospital é necessário ter um plano de saúde qualquer. A educação pública, ameaçada por uma visão administrativa que privilegia a quantidade, deixa os que querem qualidade livres para procurar escolas privadas: e multiplicam-se os programas de aceleração de ensino, emergenciais que se tornam permanentes etc.

Para tentar sobreviver a esse processo de instrumentalização temos que buscar ressaltar a dimensão humanista do saber. Devemos tentar contar histórias que ressaltem as diferenças sociais e de costumes e possam servir para ampliar nosso horizonte de identificação moral. Somente pela mobilização dos sentimentos podemos construir pela educação a possibilidade de identificação/ projeção que torne possível a aceitação do outro como um de nós.

A idéia de identidade planetária leva em conta o destino comum que todos nós como seres que vivem num mesmo planeta compartilham. No entanto, seu apelo torna-se vazio quando não são oferecidas as mínimas condições de cidadania. A justiça é um fator de sociabilidade e aponta para nossos horizontes de lealdade. Sem certas condições mínimas de existência não poderemos perceber o outro como um mesmo, e, assim o ressentimento dos excluídos tende a explodir de modo violento. E justificado?

tags: cultura-e-sociedade globalizacao educacao filosofia cinema marcoscarvalholopes


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