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Valeu a pena: O Ciclo de Porto Alegre, de Erico Verissimo
Fábio Fernandes, São Paulo (SP) · 1/6/2006 07:57  

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overponto
Recentemente, lendo o excelente Os Varões Assinalados, de Tabajara Ruas, deparei com um prefácio interessantíssimo do Prof. Paulo Seben, Dr. em Letras pela PUC-RS, comparando o épico de Ruas com a saga O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Sem desfazer de Erico, Seben aponta o que considera uma certa passividade do escritor centenário (se fosse vivo, completaria 100 anos de nascimento em 2005) em comparação com o espírito aguerrido de Ruas na descrição das cenas de batalha (os adjetivos aqui são todos meus, o Prof. Seben não tem nada a ver com isso). Não há como não concordar com o elogio ao épico Os Varões Assinalados, mas, como Ezra Pound já disse muito bem (em relação à poesia, mas extensível à prosa), isso é uma questão de adequação ao objetivo. A intenção que move a escrita de Ruas (sobre o qual falarei com mais detalhes outro dia) parece bem diferente da que moveu a literatura de Erico.

Para conferir, uma dica: aproveitando a comemoração do centenário, a Companhia das Letras está reeditando toda a obra de Erico Verissimo. O Tempo e o Vento já foi republicada, e agora está sendo a hora e a vez do chamado Ciclo de Porto Alegre. Composto por sete livros (Clarissa, Música ao Longe, Caminhos Cruzados, Um Lugar ao Sol, Olhai os Lírios do Campo, Saga e O Resto é Silêncio), o Ciclo de Porto Alegre foi escrito entre 1933 e 1943 - O Tempo e o Vento só seria escrito entre as décadas de 1950 e 1960.

O pessoal da minha geração (casa dos quarenta) deve ter lido os dois primeiros como leitura obrigatória na escola. Não é nenhum sacrifício, embora esteja bem longe do que se convenciona chamar de literatura hoje em dia. Em Clarissa e Música ao Longe, Erico traça perfis de personagens que ele, num arroubo de modéstia, viria a considerar depois estereotipados, mas que são esboços muito bem delineados. A narrativa é lenta, devagar-quase-parando, e isso não é nenhuma crítica, pelo contrário: a lentidão do compasso permite uma leitura mais atenta, uma atenção maior às figuras de Clarissa, Vasco, Dona Zina e Tio Couto, Amaro Terra e outras, umas mais fortes, outras mais tênues. Mas em Erico Verissimo até as sombras são sólidas, e isso nos garante uma boa leitura.

De todos os livros desse ciclo, o que mais mexeu comigo, confesso, foi Um Lugar ao Sol, lido há poucos dias. (Clarissa, Música ao Longe e Olhai os Lírios do Campo foram lidos por mim na adolescência e relidos agora. Belos de doer: Olhai os Lírios do Campo me fez chorar na época e repetiu a reação hoje. Em Erico a palavra pungente não tem vergonha de reaparecer no vocabulário do leitor.

Mas é Um Lugar ao Sol o livro mais forte do ciclo, que retoma diversos personagens dos livros anteriores. Clarissa e Vasco estão lá, bem como Noel e Fernanda, um também jovem casal que surge pela primeira vez em Caminhos Cruzados e com Clarissa e Vasco seguirá até Saga (mas não estou estragando nenhuma surpresa com essa revelação). O Ciclo de Porto Alegre, na verdade uma mini-Comédia Humana (que está mais para o livro homônimo de William Saroyan, bastante conhecido na época em que Erico escreveu esses livros e hoje praticamente desconhecido do público brasileiro, do que a série de mesmo nome de Balzac), conta as vidas de personagens que simplesmente lutam para sobreviver. Não há gestos grandiosos (a não ser no território do desejo, de onde eles nunca saem), mas sempre há uma esperança de que as coisas mudem. Eventualmente os discursos (em Erico bastante coloquiais, coisa que não era muito comum na época) resvalam no panfletário, mas isso é por conta dos personagens (como o infeliz Gervásio, o desnorteado Vasco, o anarquista-festivo Pablo), e Verissimo acreditava na predominância dos personagens pelo escritor: uma vez que os personagens escolhessem seu caminho, nada do que o escritor fizesse poderia alterar seu curso.

Em Um Lugar ao Sol, entretanto, o que mexe mais com a cabeça do leitor são as figuras aparentemente mais simples do livro, Fernanda e Noel. O rapaz, um escritor em formação, que ainda vive mais no mundo da fantasia do que na realidade. Sua esposa, o cérebro do casal, a pragmática que cuida da casa, da filha, da mãe, do irmão parasita e ainda tem tempo para sugerir mudanças na estrutura narrativa do romance do marido. É Fernanda que dá o tom do livro: atua e sonha ao mesmo tempo, em contraposição aos demais personagens.

Seria Fernanda um alter-ego de Erico? Talvez a verdadeira pergunta devesse ser: e isso importa? Importa, sim, é ler Erico Verissimo, e com urgência.

tags: literatura livro erico-verissimo porto-alegre


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