A  LASCIVIDADE  DA  LUA, NO BRASIL

                                                      “a lua é mui prejudicial à saúde e corrompe

                                            muito as coisas”  - Pe. Fernão Cardim. {1584?)}  (1)                                                             

                                                       

 

Quando Pe. Fernão Cardim veio  “mandado pras terras do fim do mundo”, em 1583, a  Igreja Católica

passava pela segunda decepção com  o Brasil:  As mulheres.  Das trazidas da África, a fama de fogosas de longe superior ao que se falou das levadas para a Europa há mais de 150 anos.  Na ponta das preocupações -  as nativas, sem noção alguma de guardar segredo. As “européias” nascidas aqui, todas “aluadas”.  E, como  desgraça pouca é bobagem – tinha a exata soma das três: as mulheres “mestiças”, nascidas em meio e por conta da desordem (de céus e terras) aqui reinante!. Estas formavam o que se poderia chamar de “lagadiço”. Bonito de se ver, de longe; necessário, mas traiçoeiro; “furta-cor”,  um jeito para cada gosto; indefensável, tocou ficou. -  “Muitas filhas de padres”, diziam tanto os bêbados, nas tabernas das cortes;  quanto os pingunços, nos botequins ordinários, das novas terras.

 

           O prelado, (quase um araponga, negava até a idade), (2)  cônscio dos seus deveres,  pensamento e ambição firmes: manter o  celibato nas hostes da Igreja; tornar-se inquisidor; já que a possibilidade de ser cardeal, estava enterrada de vez, nestas terras. E, a grande cartada, a primeira das desventuras,  descobrir o ouro, compensar aos cofres  da Coroa português e da Igreja   pela ausência de tesouros a céu aberto, como os encontrados na América Espanhola.

 

            As festas  de boas vindas, aos  prelados já estavam no seu segundo dia. Os 80 anos de experiência ensinavam:  qualquer autoridade, civil ou eclesial, tinha de ser apanhada no contra pé.  Recepção calorosa. As chuvas, a ventania em  alto mar, fizeram atrasar  a chegada. Mas, o Gov.  Teles Barreto, não podendo comparecer, determinara aos “fidalgos” locais, muito empenho e nenhuma economia:  As três recomendações, rolando de boca em boca:

 

a)  mesa farta – variedade jamais vista;   esquecer as festas  portuguesas, regadas à mesquinhez,  rescaldo da destruição deixada pela peste negra, “cruz credo”. E a máxima - “A primeira impressão é a que fica”.

b)   Naqueles 80 anos, quem veio para cá  não pediu para voltar – quer fosse padre, militar ou aventureiro;  literalmente embalados no frescor das redes, dando asas à preguiça...  acudidos no xamego das mulheres, mesmo que fosse à força. Ah! As redes... a distância, a preguiça... a lua, as mulheres...

c)   E a chave, prende-los pelos “quibas”: nunca  deixar faltar as mesuras, os dengos das mulheres – todas. – Assim, mostrariam logo no primeiro dia, aos clérigos,  a ausência total de degredados ou ex-degredados. Aqui, só  fidalgos. Se alguém não gostasse de mulher, tinha alcovitice pra chibungo também.

 

            A recepção foi antes e acima de tudo uma falta de respeito: a começar pela lua entrando pelo teto, pelas frestas das paredes trançadas com palha – um liame nojento entranhando-se palhas e varas;  gravetos e folhas. A lua lançando olhares, roçando os seios das mulheres; dando recados. Aquele frenesi - gargalhadas, risos, cuchichos, fuxicos, nos terreiros. Para todos os lados a cachorrada latindo. A lua orientando, iluminando os caminhos do local do “coito, mata adentro”;  ao mesmo tempo  tapando  a visão dos que ficavam. Para frente iluminava os carreiros, apontava as “camas de palha” feitas em comum.  E o comentário - “O pé de garrafa, hoje está terrível Padre... lua cheia é assim...” Estava ali, terceira das desventurasA lua:  homem cravado no peito, mostrando, insinuando, descaramento! Por isto – Terras de Santa Cruz - aqui estava a pior trindade. Séculos depois, o cantador – miscigenado (por sinal), vem e canta: – “lua bonita se tu não fosses casada, eu...”, - e lamenta, desejoso, o cafuso, “aluado” - “ Porque casaste com um homem tão sisudo  que come, drome e faz tudo dentro do teu coração”: descaramento – praguejou.

 

    Da festa, duas  hipóteses e  uma certeza:

a)  Para Pe. Fernão Cardim, a Corte sabia: as mulheres destas terras, uma ameaça  à prosperidade e até mesmo à vida da igreja.

b)  Para Pe. Cristóvão Gouveia –  “a distância entre o Poder Central e a Colônia levava as pessoas a se sentirem desobrigadas de nada; a certeza de nunca serem  alcançadas por regra nenhum” (3)     “a impunidade”, dizia o visitador, como que uma maldição – “Terra da impunidade”, a “distância”.

c)  A certeza: naquela noite muitas moças solteiras se emprenharam; muitas casadas cornearam seus maridos e vice-versa, logo nasceriam filhos sem pais certos; pais hipotéticos; e o falatório, “será  chibungo aquele padre?”.  Ora,  “quem disse que celibato e virgindade  são a mesma coisa”?.

 

-       “Dom Gouveia, o senhor viu  aquelas galiotas, que eu despachei hoje, entupidas de madeira?” – 

perguntou o sr. Henrique Tourinho, degredado, aqui chegado aos 25 anos e já com duas décadas. Fortuna considerável - exímio contraventor de toda ordem, aliado de quantos piratas aqui aportassem.

-       “Padre, me renderam 25 mil libras esterlinas. Tiradas as despesas, do que me restar,  vou comprar título

de nobreza. Brasão. Sabe Padre, brasão de família!”.

             -  O “fidalgo”  como que adivinhando o pensamento do visitador, não dar-lhe trégua, “amparado pela distância”    “o Sr. terá mil libras só para fazer uma carta de recomendação ao Conselho Ultramarino”...

             -  Dom Gouveia pensou na distância. “Que posso fazer?  a quem vou denunciá-lo?... Estou refém deste bandido!... é melhor tê-lo por aliado” sem deixar parecer preocupado...”A justiça aqui será sempre distante. Nunca a nobreza a trará para perto de si. ... Mesmo que isto algum dia vire uma nação...”.  Aceitou.

       A realização daquele negócio tirou a vergonha do visitador, e abalou a afoiteza do Sr. Henrique Tourinho. O vigário nem mais temia aos ouvidos de Padre Cardim; o Sr. Henrique apanhado pela maldição, praga do Visitador – “desde aquele dia ‘os quibas” não obedeciam mais aos comandos do seu desejo”,  por mais que insinuasse os infelizes não irrigavam a estrovenga, que permanecia afogada naquelas pelancas quase sem calor.

 

             O visitador protegido pela “distância”, requisitava a Gertrudes, negra “angolana”, mucama predileta do Sr. Tourinho, agora também noites a fio, nos terreiros, debaixo da luz da lua,  festejando ao anteceder do frege, com o som instigante do berimbau de frei Barnabé... Com tantas das mulheres desta terra...

-       “Uma aluada”;  ele é de lua mesmo”...

-       Padre Cardim difundia amiúde estes eufemismos e derivados. Também  atribuía às noites de lua cheia

toda sorte dos gravames, de toda e qualquer enfermidade. Não sair ao sereno, é uma prudência recomendável; em noite de lua - nem pensar... Até hoje eles circulam, crédulos, Brasil  afora, rompendo já na internet, no Overmundo.

 

N. do autor:  1, Tratados da Terra e Gente do Brasil, Pe. Cardim; 2, Rodolfo Garcia, Prefácio da obra citada;

                         3, Rocha Pombo,  Historia da América, 1900.