"Barbosas" Pedro Felipe Ferrari ferrari.pedro@gmail.com Era mais um dia para o Barbosa daqueles que ele fica em pé na rodoviária com outros tantos Barbosas gritando vale vale vale vale com uma calculadora no pescoço agüentando o sol das dez e das onze e das três e trinta e sete sempre abanando o rosto suado e repetindo vale vale vale vale para qualquer um e para tantos que ele sabe pela cara que não vão comprar nada porque Barbosa e todos os seus amigos Barbosas vivem essa vida de vale vale vale vale há muito tempo e já conhecem a cara daqueles que compram e a cara dos que não compram e que viram o rosto e fazem parecer que o Barbosa não existe e fingem ler algum cartaz e fazem o Barbosa ter vontade de brigar e dizer olha pra mim caramba porque eu estou aqui mas quando Barbosa vai reclamar só consegue repetir vale vale vale vale o que faz as pessoas olharem ainda com mais vontade pro outro lado mas tudo isso não faz diferença porque às oito e quarenta e três o Barbosa pega o ônibus cheio de Barbosas e no caminho vê sempre engarrafamento e gente encolhida nos viadutos e sinal vermelho e outros Barbosas atravessando e sinal verde e o motorista gritando e o apito apitando e o ônibus parando e gente descendo e o outdoor da moça bonita e a estrada aberta e a noite fria e o ônibus vazio e o motorista bocejando e as mãos frias e a sua casa de Barbosa e apita o apito e o ônibus pára. Porta. Sala. Quarto. Cama.