Sinhá Dona estava só, no alpendre da casa assobradada, cosendo roupa para si mesma. Não cosia para vestir homem de casa, como seria comum à sua idade e posição, nem para aformosear algum filho de faces róseas. As comadres da rua, entre curtos olhares, se compadeciam daquela pobre alma desafortunada. Filhos, o Senhor não lhos deu, ainda que as ancas largas causassem impressão de ser boa mulher parideira. Marido forte e polido, Deus deu, Deus tomou ainda cedo, por força de uma tosse que não findava. Ficou assim, viúva prendada e bonita de dar pena, nesse mundo de Jesus. Quando fazia doce era para invejar o ponto. Quando cantava, noite adentro, era ternura e desperdiçar de voz, de não ter a quem ninar naquela casa vazia. Só uma criada, forra, cuidava de ocupar os olhos e as ordens de Sinhá Dona. Homem novo não pisava acolá, nem que fosse padre, para que a carne não estremecesse debaixo do luto. As comadres diziam que carne é coisa do maligno, e mulher deixada ou viúva não pode descuidar da saia. Deus quis assim. Seria uma viúva a mais. Uma alma caridosa na vila, uma beata casta na paróquia. Passava as tardes no alpendre, alinhavando e cosendo como uma aranha na teia. Às vezes, despertando de um sono que parecia tomar-lhe a vida e a graça, levantava os olhos para ver os burros que subiam vagarosos até a rua do comércio, com barris de água e cangalhas abarrotadas de farinha. Meninos brincavam na rua, em meio às poças de lama, entretidos com galinhas e bacorinhos. Assim foram passando os anos e as novenas, enquanto Sinhá Dona perdia o brilho. Viúva enjeitada, só no mundo. As roupas que ela cosia eram como um fio de novelo sem fim. No termo do dia, à luz trêmula da lamparina, Sinhá Dona andava descalça pela casa vazia, levantando os olhos para ver nas paredes a sombra dos quadris largos - sinal da mulher que haveria de ser parideira e senhora de um homem bom. Apagando os candeeiros, velava por si mesma. Cantava noite adentro, com voz terna, a ninar cunhã que suspirava entre lençóis.