LEGIÃO (Negendre Arbo) Evoco a espada de prata do raio de lua, o escudo encantado da neblina escura dos invernos gelados que deixei para trás e um cavalo engendrado nas febres noturnas do leito suado do soldado louco que não luta mais A mim magnetismo das marés A mim tempestades do oriente Já ouço o uivo agônico dos vendavais e o rufar tenebroso do tambor das avalanches Pelo nome secreto que nunca foi dito pelo fogo onde joguei meu coração pulsante exijo a presença de vocês, proscritos guardiões sagrados e profanos de meu inconsciente À batalha horda maltrapilha de poetas e assassinos a cobrir de rubro sangue estas cidades cinza sob a bandeira escarlate da paixão ardente da poesia ácida, cruel, demente e suja das secreções odiosas da devassidão das musas corações bacantes fornicando ao sol poente Em frente batalhões andrajosos do delírio Aos céus hostes aladas de meus torpes anseios Não me tragam a verdade, a luz ou o saber tardio troco com prazer este tesouro casto e frio pela sensação efêmera e caótica do espasmo o êxtase, o torpor, o lânguido arrepio que sempre vem a mim depois do orgasmo Canção fecundada nas artes húmidas do amor profano escrita nos ossos calcinados de meu suporte humano triturada em meu coração, alquímico cadinho banhada em lágrimas de amor, em fel e vinho Fique ecoando como minha última risada cínica deito as armas ao chão, fecho o livro, dispo a túnica Sou uma legião e me basto Saiam do meu caminho.