NADA

(Mortu)



 - Quero morrer neste lugar - ouvi uma voz.

 Mas não havia ninguém por perto. Estavam somente eu e a natureza. O sol estava forte e eu ali, sentado debaixo daquela grotesca árvore, que mais parecia um monstro. Seus galhos eram atrofiados e apontados desproporcionalmente para todas as direçoes possívieis.

 Eu participava sozinho dessa paisagem tão bela que me fazia delirar ao ouvir o bater das águas do rio nas imensas pedras que ali estavam.

 Ao chegar, tudo que pude enxergar era o que um dia eu sempre quis ver. Um cenário fantástico, muito parecido com aqueles desenhos surrealistas que fazem você ficar fora de si enquanto os olha.

 Continuei hipnoticamente paralisado com o brilho que o sol fazia emitir ao se aprofundar naquelas claras correntezas à minha frente. Meus olhos, fechados desde que chegara no local.

 - A beleza deste lugar faz com que minha imaginação viage nos sons emitidos pelo vento e pelos galhos que se chocam nessa imensa floresta, fazendo com que eu pense ter escutado o que na verdade não passaste de uma melodia não-intencional dos fenômenos naturais - auto-expliquei.

 - Tive a intenção - repetiu a estranha voz.

 - já sei - eu disse, sem abrir os olhos. Você sou eu.

 - Inexato.

 - Sei... Não exatamente; você é meu interior, logo, você sou eu.

 - O que o faz pensar assim? - perguntou ele.

 - Isso não é um sonho, sei que estou acordado, mas meus olhos fechados para o mundo exterior me fazem interagir com meu espírito.

 - Você pode fazer isso.

 Fiquei calado.

 - Mas neste momento não há uma ligação entre você e o oculto do seu ser - ele continuou.

 - Está querendo dizer que você não sou eu? 

 - Agora você acertou.

 Hesitei em abrir os olhos, mas não os abri.

 - Neste caso, quem é você?

 - Sei tudo sobre sua vida, sei tudo o que acontece nela, tudo o que está acontecendo no momento, até mesmo o que você não sabe.

 - E você sabe o meu futuro? - me interessei.

 - Impossível. Quando ele chega, este não é mais futuro, mas o presente; isso é, o futuro é inalcançável, seja qual for a maneira que você usar para tentar alcançá-lo.

 - E você pode me responder as minhas perguntas?

 - Sim. Tudo se pode. Nada é proibido, mas você não irá entender tudo o que eu disser, pois você não tem capacidade para me entender.

 - Entao me diga, quem é você?

 - Se você quer saber o meu nome, não poderei lhe dizer...

 - 'Tudo se pode. Nada é proibido' - interrompi.

 - Exatamente. Mas repetindo, você não tem capacidade para entender tudo o que eu disser. Como eu disse, ou dizendo melhor, tudo que se pode se pode, pois no seu mundo, nada que se pode é proibido. Mas existem muitas coisas que não se podem, porque essas coisas não possuem uma natureza inicial; e como você aprendeu, tudo que nasce, morre; mas não se pode morrer o que não nasceu, ou o que ainda não nasceu. E como o futuro é inalcançável de toda e qualquer forma, não poderemos saber quem ou o quê irá nascer, quando e nem como.

 - Isso não explica o fato de você não poder dizer o seu nome.

 - Como existem coisas que não possuem uma natureza inicial, essas coisas não se podem.

 - Agora eu entendi. Você quer dizer que não possui um nome.

 - Quero dizer que não possuímos um nome.

 - Mas meu nome é...

 - Não! - ele interrompeu. Este não é seu nome. Apenas o chama assim, porque os que o conhecem, o conhecem com esse nome, ou então, esse é o nome que você diz a todos que você possui.

 - E qual a diferença?

 - Não existe posse de nome. Você pode pedir para lhe chamarem de outro nome, senho assim, este novo nome se transformaria em seu nome usual. Nomes são usuais e não posse.

 - E qual foi o nome que o deram?

 - Não se pode dar nome, pois ter é possuir.

 - Então, de quê o chamam?

 - Não me chamam.

 - Posso lhe chamar de algo?

 - Sim.

 - De quê?

 - Também.

 - Você é complicado.

 - Não. Somente sou. Para você não sei se sou.

 - Para mim? realmente não sei quem você é.

 - Tentará descobrir?

 - Não posso dizer.

 - Está aprendendo.

 - Aprendi.

 - Cada vez mais.

 - Posso abrir os olhos?

 - Você sabe responder.

 - Mas, se eu abrir, você sumirá?

 - Você errou.

 - Estou ansioso.

 - Até quando?

 - Até você se manifestar.

 - O que você vê?

 - Não vejo nada.

 - Você vê.

 - Não, não vejo.

 - Olhe novamente.

 Pensei por um momento. Ele queria me testar, logo percebi. Continuei de olhos fechados.

 - Estou olhando - Eu disse.

 - Então você está me vendo.

 - É, estou te vendo - falei; mas na verdade eu não sabia o que estava falando, pois de olhos fechados nada eu podia ver a não ser a escuridão total. Eu só queria fazê-lo perceber que estou caminhando a seu lado.

 Ele sorriu, não entendi o por quê. Logo senti um frio intenso percorrer pelo meu corpo. Não ousei abrir os olhos, e cada vez mais intenso ia ficando o frio, até que não aguentei e me senti desmoronar numa queda infinita. Eu não estava tocando o chão. Meu corpo parecia flutuar no nada; logo me veio uma profunda vontade de saber como soava o novo cenário. Não resisti e abri os olhos. Treva total. Não fazia a menor diferença abri-los ou fechá-los. O ambiente negro que eu agora pertencia me dava calafrios só de estar em seu colo. Não sabia o que fazer até novamente a estranha voz se manifestar em meus ouvidos.

 - Agora você pode me ver.

 - Eu nao estou vendo nada.

 - É exatamente o que eu sou.

 - Você é o nada?

 - Me chamam assim.

 - Mas como posso lhe ouvir se você é o nada?

 - Todos me ouvem, todos me escutam, todos conversam comigo. Quando você não diz nada, você está dizendo nada a mim. Você está conversando comigo.

 - Não entendi.

 - Você não tem capacidade para entender.

 - Mas, somente assim posso ter contato com você? 

 - Exatamente.

 - Se somente quando não digo nada você tem o meu contato, como é que escutou quando eu comentei sobre a melodia que a natureza faz com os sons?

 - Qual foi a melodia?

 - Você disse: "quero morrer neste lugar".

 - Eu sou seu nada.

 - Então eu estava certo?! 

 - Você me chamou de 'meu interior', ou seja, seu Espírito, mas está assim mesmo certo, pois como eu disse, nomes são usuais e não posse. Usam muitos nomes para me identificar, este é somente mais um.

 - Entao, posso chamá-lo do que quiser?!

 - Claro, não irei repetir.

 

 Abri então os olhos e novamente vi a paisagem como havia visto ao chegar ali. E pude com os olhos abertos, tirar a conclusão de que estamos sempre aprendendo com a vida, não importa se estamos conscientes ou não; a verdade é que nunca estamos sós, estar conosco é estar conosco, e 'nada' é tão importante quanto tudo o que existe.

